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Fundos ESG crescem, abrigam US$ 370 bi no mundo, R$ 800 bi no País e diversificam as causas; mas tema gera polêmica

Segundo dados da Anbima, os fundos ESG no Brasil movimentam mais de R$ 800 bilhões

Data de publicação:28/03/2022 às 00:30 -
Atualizado 2 meses atrás
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O aumento da pressão para que os investimentos tenham uma base cada vez mais estruturada dentro dos conceitos ESG é inegável. A alocação em fundos do setor superou os US$ 370 bilhões, pelo mundo, em 2021. No Brasil não é diferente - segundo dados da Anbima, os fundos ESG movimentam mais de R$ 800 bilhões, com produtos cada vez mais específicos.

Só que, nesse movimento, crescem também as controvérsias sobre até onde vai a alçada da sigla para interferir nos negócios das empresas e afetar seus resultados.

fundos esg
Fundos de investimentos ESG crescem no mundo todo, mas ainda há controvérsias sobre esses produtos financeiros - Foto: Envato

Buffet X BlackRock

Na briga entre titãs, a BlackRock a maior gestora de ativos do globo, com uma carteira equivalente a quase 30% do PIB americano, e forte defensora dos pilares ambientais sociais e de governança, tem colocado na parede Warren Buffet, um dos mais importantes e ricos investidores do planeta e avesso ao enquadramento nos parâmetros ESG.

Acionistas da Berkshire Hathaway, de Buffet, estão exigindo há um ano que a empresa apresente relatórios anuais sobre como as empresas da companhia estão respondendo aos desafios das mudanças climáticas, bem como relatórios sobre diversidade e inclusão no local de trabalho. Sem muito sucesso até aqui.

Entre os acionistas, estão nada mais nada menos que a Black Rock, que, por sua vez, é agora questionada sobre seu poder de voto nas assembleias de grandes companhias, uma vez que administra trilhões em fundos e representa milhões de investidores - mas não é propriamente um grande acionista em algumas delas.

Mercado demandado

O ESG é um processo, por isso vai se transformando, amadurecendo, se consolidando. De concreto, os investidores parecem cada vez mais interessados em colocar seus recursos em empresas preocupadas em contemplar em suas políticas a igualdade de gênero e raça, em evitar o trabalho escravo, em preservar o meio ambiente e ser ética.

O mercado tem procurado responder à demanda de investidores preocupados em não somente obter rentabilidade e colocar dinheiro no bolso, mas contribuir para reduzir impactos sobre o clima, desigualdades sociais e administração antiética nas empresas.

Os produtos se diversificam nas 3 letras do ESG. Recentemente, foi lançado um ETF voltado para o "S," do Social: o ELAS11, que procura incentivar a igualdade entre homens e mulheres no mercado de trabalho. Mas esse é apenas um exemplo. Desconhecidos do grande público - há vários fundos dessa categoria no mercado.

Fundos ESG ligados a causas sociais crescem no mundo e entregam rentabilidade perto ou acima das bolsas globais
Magazine Luiza: suas ações fazem parte de alguns fundos ESG focados em causas com equidade de gênero - Foto: Reprodução

Tamanho do ESG no mundo

Segundo levantamento da consultoria ETFGI, a alocação de capital nessa categoria de fundos superou a marca de US$ 370 bilhões no ano passado, um salto de 84% em relação a 2020.

Com valor de mercado ultrapassando os US$ 30 trilhões, esses fundos devem atingir US$ 53 trilhões até 2025, conforme dados da Bloomberg.

Pela causa da equidade

Aqui no Brasil, o mercado também está em evolução, mas em relação ao mercado de fundos de causa, por serem nichos ainda em desenvolvimento, não há números que possam dar a dimensão desse crescimento. Porém, na visão dos especialistas consultados para essa reportagem, a expansão é uma realidade.

O fortalecimento dos fundos ESG ligado a causas de equidade é impulsionado por uma demanda crescente de investidores que querem ter seus recursos alocados em empresas com mulheres não somente no conselho administrativo, mas em cargos de presidência, direção e gerência, além de maioria nos times, assim como a presença de profissionais negros nessas posições.

E as gestoras de fundos estão voltando seu olhar para essa demanda. Em uma pesquisa comandada pela Anbima com essas empresas, 30% delas admitiram que utilizam o critério de análise de causas sociais para investir em um ativo.

Em termos de equidade de gênero, desde 2018 o mercado brasileiro começou a investir na criação de opções para o investidor apoiar a causa. São fundos que se enquadram em categorias como ações e multimercado.

No ESG, o investimento no “S” ainda é menor do que no “E”

Os fundos ligados a causas relacionadas ao meio ambiente são maioria. “Hoje não dá para deixar de fora as discussões sobre equidade de gênero e racial, principalmente em um momento no qual a sociedade cobra essa postura das empresas”, enfatiza o especialista Antonio Wrobleslki.

Porém, aos poucos as atenções se voltam para os fundos relacionados a causas sociais, que, de acordo com Alexandre Ripamonti, professor de finanças da ESPM, hoje crescem na mesma proporção do que os fundos ESG em geral.

“O entendimento de que temos que lidar com problemas concretos, que acontecem muito perto da gente, como preconceito, assédio e violência, tem se tornado mais forte nos últimos tempos, o que tem feito os investidores mirarem esse fundos ligados à causa da equidade”, explica.

Alexandre Ripamonti, professor de finanças da ESPM

De acordo com Ripamonti, a questão cultural impacta bastante no avanço desses fundos de gênero. “A presença de fundos ligados à equidade racial é bem relevante no Brasil, pois a causa é bastante discutida no País, mas a igualdade de gênero vem conquistando terreno”.

O professor da ESPM traça um paralelo entre o mercado de fundos de causas sociais no Brasil e nos Estados Unidos. Segundo ele, não só em volume de recursos que eles diferem entre si, mas também na visão do investimento.

“Nos Estados Unidos, o volume de recursos é maior do que no Brasil, com fundos de causa já estabelecidos. No Brasil, ainda segue em crescimento. Enquanto os investidores brasileiros estão de olho na essência da causa, no mercado americano o retorno do investimento é o que ainda mais conta para os americanos”

Alexandre Ripamonti, docente da ESPM
fundos ESG
Alexandre Ripamonti: mercado americano prioriza a rentabilidade - Foto: Divulgação

Presença de negros e mulheres nos cargos executivos cresce lentamente no Brasil

Os fundos ESG ligados à causa evoluem com mais rapidez do que as próprias causas em si. O caminho ainda é longo. De acordo com dados do Instituto Ethos, apenas 4,7% dos cargos executivos das empresas são ocupados por profissionais negros.

Já o número de mulheres em cargos de liderança no Brasil caiu, segundo dados da pesquisa Estatísticas de gênero: indicadores sociais das mulheres no Brasil divulgada recentemente pelo IBGE. Conforme a pesquisa, elas ocupam 37,4% dos cargos gerenciais, percentual inferior ao registrado na edição anterior da mesma pesquisa – 39,1%.

Outra amostragem ainda aponta os desafios das mulheres para chegar a posições mais altas. Um relatório da BR Rating, agência de rating de governança corporativa do País, trouxe o resultado de uma pesquisa feita com 486 empresas nacionais e multinacionais a respeito da presença de mulheres em cargos C-level.

A pesquisa apontou que apenas 3,5% dessas companhias têm mulheres no alto comando e 16% têm mulheres em posições de diretoria.

Na visão dos especialistas, a prática da diversidade dentro das empresas – que integra os pilares do ESG - traz benefícios para as empresas, que vão desde a redução de custos a aumento de valor da companhia perante o mercado.

“Essas empresas geram menos custo, menos risco e trazem boas oportunidades de investimento. A diferença do custo de uma empresa que seja ‘altamente ESG’ de uma que tem menos comprometimento com os princípios é de 0,8%. Se colocarmos isso em cima de milhões, é um montante significativo”.

Pedro Lins, professor da Fundação Dom Cabral

Segundo estudo feito pela consultoria McKinsey & Company, organizações que possuem diversidade étnica em cargos executivos têm 36% mais chances de elevar sua lucratividade por serem inovadoras e contarem com uma equipe mais produtiva.

Fundos ESG/equidade de gênero: conheça alguns

No Brasil, se o anseio do investidor é apoiar causa ligada à equidade de gênero no mundo corporativo, o mercado já conta com vários fundos voltados para a busca de igualdade de salários e cargos entre homens e mulheres nas empresas, cuja rentabilidade fica próxima ou muitas vezes acima de índices de benchmark como Ibovespa e S&P 500.

BB Ações Equidade

Os mais antigos, com foco em empresas com lideranças femininas, foram lançados pelo Banco do Brasil em setembro de 2018. São o BB Ações Equidade e o BB Ações Equidade Private. Ambos aplicam em companhias da Bolsa brasileira e americana que adotam políticas de equidade de gênero entre suas lideranças e colaboradores.

Entre os ativos estão nomes como Magazine Luiza, Vivo, B3, Vale e Petrobras. Lá fora, fazem parte as gigantes Johnson & Johnson, Pepisco, P&G, entre outras.

Desde sua criação, ambos os fundos renderam 39% e 41% até o mês de fevereiro – no mesmo período o Ibovespa subiu 51%.

XP Trend Lideranças Femininas

Em 2020, a XP lançou seu fundo de gênero no mercado, o Trend Lideranças Femininas, que se encaixa na categoria Multimercado. O fundo replica o SHE, ETF listado na Bolsa de Nova York (Nyse) formado pelas ações das companhias – cerca de 170 - que têm maior participação de mulheres em cargos de liderança.

Segundo Beatriz Vergueiro, chefe de produtos ESG da XP, a gestora conta que a escolha pelo ETF se deu por conta de que, no período em que criaram o fundo, não havia muita representatividade das mulheres nas empresas listadas.

“Nas bolsas americanas há mais de 3 mil empresas listadas. No Brasil, estão em torno de 350 e 400. No momento em que criamos o fundo somente 17% delas tinham pelo menos duas mulheres no conselho, o que tornaria mais difícil diversificar o fundo".

Beatriz Vergueiro, chefe de produtos ESG da XP

Entre as empresas que fazem parte do SHE estão nomes como Netflix, Disney, Nike, Coca-Cola, banco Wells Fargo, entre outros.

Até o fechamento de 2021, a partir da data de lançamento, o fundo de equidade de gênero da XP rendeu 33% ante 41% do S&P 500, índice com as 500 maiores companhias listadas em Nova York.

Warren Equals

Em 2020, a Warren Asset investiu na criação do Warren Equals FIA, fundo de ações que investe em empresas destacadas por suas políticas de equidade de gênero. nos últimos 12 meses – fechamento no mês de fevereiro - apresentou retorno de 9,13% acima do Ibovespa, principal índice da B3.

Nesse período, o fundo obteve um retorno de 11,67%, enquanto o Ibovespa apresentou alta de 2,54% no mesmo período. No acumulado desde março de 2020, quando foi criado, o Warren Equals já acumula rentabilidade de 36,92%, frente a 31,45% do Ibovespa.

Segundo Kelly Gusmão, sócia-fundadora da Warren e uma das idealizadoras do fundo, a inspiração para a criação do fundo veio do Gender Equality Index, índice de equidade de gênero da Bloomberg que conta com mais de 300 empresas de 42 países em seu portfólio que seguem políticas de equiparação salarial, contra assédio, com posicionamento de marca pró-mulheres e mulheres em cargos de liderança, entre outros critérios.

Vitreo Franklin W-ESG

Cogerido pela Vitreo e pela gestora Franklin Templeton, o fundo de ações Vitreo Franklin W-ESG inclui empresas globais que praticam a diversidade de gênero, questões ambientais, sociais e de governança. Tem como bechmark o índice americano S&P 500 e nos últimos 12 meses (dados até 23 de março) obteve um retorno de 6,29% ante 4,79% do S&P.

ETF ELAS11

Um dos mais recentes lançados no mercado, o ETF ELAS11 chegou ao mercado pelas mãos do banco Safra no Dia Internacional das Mulheres. Se espelha no Teva Mulheres na Liderança, índice que conta com 71 ações de empresas da Bolsa que têm os melhores índices de participação de mulheres em sua direção.

Entre os ativos presentes no ETF estão ações das empresas Vivara, Light, Fleury, Iguatemi, Magazine Luiza, entre outras.

Desde sua entrada na Bolsa, o ELAS11 já rendeu 4,52%, mas apresentou queda de 8,23% se comparado ao S&P 500.

Fundos ESG com foco em causa de equidade de gênero

NomeClasseAno de lançamentoRentabilidade acumulada fundo x Benchmarking*Patrimônio LíquidoTaxa de administraçãoAporte mínimo
(a partir de)
BB EquidadeAções201847,2% x
57,27% (Ibovespa)
R$ 35 milhões1% ao anoR$ 0,01
BB Equidade PrivateAções 201849,55% x 57,02% (Ibovespa)R$ 123,16 milhões1% ao ano R$ 0,01
XP Trend Lideranças FemininasMultimercado202120,56% x 19,41%
(ibovespa)
R$ 30,14 milhões0,50% ao anoR$ 100
Vitreo Franklin W-ESG Ações20204,52% x 15,25%
(Ibovespa)
R$ 15,42 milhões0,90% ao anoR$ 0,01
Safra ELAS11ETF20224,52% x 8,23%
(S&P 500)
R$ 76,337 milhões0,50% ao anoR$ 100
Warren EqualsAções202040,36% x 14,89%
(Ibovespa)
R$ 15,46 milhões0% ao anoR$ 1
Fonte: Mais Retorno/ferramenta Comparador de Ativos - *data de referência: lançamento até 23/03/2022
Fonte: Mais Retorno
Fonte: Mais Retorno

As tabelas e o gráfico fazem parte de um levantamento exclusivo feito pela nova ferramenta de comparador de ativos do portal Mais Retorno. Conheça aqui.

Fundos ESG focados em equidade racial

Os fundos ESG focados em equidade racial são, em grande parte, voltados para investidores institucionais e profissionais, com capital para investimento a partir de R$ 1 milhão. Veja alguns exemplos.

Fundo Baobá

Lançado em 2009, o fundo de ações Baobá foi o primeiro a ser criado no Brasil com foco em promover a equidade racial para a população negra no Brasil. Gerido pela UV Gestora e administrado pelo BTG Pactual, desde o início de suas operações até o dia 14 de março, acumulou uma rentabilidade de 232,84% ante 144,39% do Ibovespa.

Vox Tech for Good Growth I

Lançado em 2020 pela gestora Vox Capital, conhecida por gerir fundos de venture capital e de impacto no Brasil, o fundo Vox Tech for Good Growth I foi o terceiro trazido ao mercado com foco em vários assuntos ligados ao ESG, o que inclui equidade de raça e gênero. A aplicação mínima do fundo é de R$ 3 milhões, com foco em investidores profissionais.

Migração para fundos ligados a causas sociais e ambientais

Com o fortalecimento dos fundos ESG ligados a causas, a tendência é o início de uma migração de investidores saindo dos fundos tradicionais e mirando o alvo para fundos ESG ligado a causas.

E se levar em conta a geração Z, Alexandre Ripamonti avalia que os investidores jovens já vão direto nesses fundos, sem olhar os mais tradicionais. “Eles querem ter retorno financeiro, mas o maior fator motivador para os investimentos serão as causas que esses fundos abraçam”.

No entanto, o docente da ESPM alerta para o cuidado com o socialwashing, que são empresas que fazem uma propaganda enganosa sobre a adoção de critérios de equidade social.

“Antes de investir em fundos ESG de causa é importante estudar bem o produto, conhecer os ativos que estão envolvidos e a veracidade do compromisso deles com as causas sociais, ou seja, se essas empresas vão gerar equidade racial e de gênero”, orienta.

Sobre o autor
Julia Zillig
Repórter do Portal Mais Retorno.