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Guerra entre Rússia e Ucrânia pode limitar alta dos juros nos Estados Unidos e Europa, acreditam gestoras

Medida seria para evitar impactos ainda mais negativos ao crescimento econômico mundial

Data de publicação:07/03/2022 às 00:30 -
Atualizado 3 meses atrás
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Desde que estourou a guerra da Rússia na Ucrânia, o mercado financeiro vem tentando entender o conflito, analisar seus impactos nos ativos e prever possíveis desdobramentos para essa crise. De cara, o conflito entrega pressões de alta sobre a inflação, decorrente do aumento nos preços do petróleo e outras commodities.

Mas, ao contrário do que se supõe, a alta dos preços não deve levar a uma revisão radical nos juros. Entre gestores de fundos internacionais, parece haver consenso de que a alta dos juros nos Estados Unidos e na Europa venha a ser mais moderada, como forma de neutralizar os impactos negativos ao crescimento econômico mundial.

Rússia e Ucrânia
A economia da Rússia caminha para uma recessão severa e duradoura - Foto: AFP

Mundialmente, as carteiras foram ajustadas para um cenário de petróleo em alta, juros um pouco mais alto e aumento nos preço das commodities.

Reflexos na Rússia e Ucrânia

A Western Asset faz uma longa avaliação do conflito, reflexos para a economia dos dois países, para a Europa, e economia mundial.

Segundo sos gestores, para a Ucrânia o que se vê é um forte relacionamento com os mercados de capitais globais, bem como o apoio internacional do FMI e União Europeia ao governo ucraniano.

Já para a Rússia, que tem sido vista até agora como uma economia emergente forte, a escalada rápida de sanções atingiu de imediato governo e entidades russas. Em conjunto, essas sanções não têm precedentes, segundo a gestora.

“Acreditamos também que, dada a trajetória atual, a economia russa caminha para uma recessão severa e potencialmente duradoura em um cenário de inflação elevada. A Rússia também sofrerá devido ao isolamento econômico de grandes partes da economia global.

Western Asset

Como resultado, a gestora espera uma proliferação de sistema de comunicação Swift seguro entre instituições financeiras, nas finanças globais. Isso tornará, segundo ela, o setor substancialmente menos eficiente e aumentará o custo de fazer negócios. 

Além disso, as implicações para a economia real da redução da exposição econômica à Rússia para grande parte do mundo ocidental provavelmente resultarão em uma reorientação substancial dos fluxos comerciais globais. Embora as importações de energia da Rússia tenham sido eliminadas das restrições atuais, por enquanto.

Reversão da política alemã

A Alemanha está entre os maiores importadores de commodities da Rússia e havia demorado bastante para concordar com as sanções – por muitas razões, incluindo o medo de represálias, explicam os gestores da Western. 

No entanto, em uma grande reversão de política, o chanceler alemão Olaf Scholz anunciou uma mudança radical na posição de longa data da Alemanha em vários tópicos.

Entre eles, o principal é o compromisso com um aumento muito significativo de curto prazo nos gastos com defesa, o fornecimento de equipamento militar para a Ucrânia e a alvo estratégico. Tudo isso para reduzir a dependência da Alemanha em commodities russas. 

Para conseguir isso, a Alemanha se afastará dos oleodutos existentes e planejados com a Rússia e desenvolverá suas capacidades de GNL por meio de terminais de importação, acumulará maiores reservas de carvão e gás e acelerará a implantação de energias renováveis. 

Em outras palavras, Nordstream 2, juntamente com grande parte da postura alemã do pós-guerra em relação à Rússia, foi anulada politicamente.

A Alemanha terá que buscar diferentes fontes de energia, tanto domésticas quanto internacionais. Ao mesmo tempo, a Rússia também terá que buscar diferentes clientes para seus recursos naturais, que, em torno de 13% do PIB, formam a base de sua economia.

Duas consequências da alta das commodities

Os preços de energia e commodities leves devem permanecer altos, tanto nos mercados spot, mas também para contratos futuros que cobrem o próximo inverno, devido às questões sobre a segurança energética alemã e europeia. 

A Asset aponta para duas consequências:

1) O crescimento global desacelerará devido aos preços elevados da energia, incertezas e, para a Europa, haverá novos problemas na cadeia de suprimentos. 

Atualmente, o crescimento europeu é estimado pela Western em torno de 3% para 2022, abaixo da projeção de 4% no início do ano. Para evitar uma maior erosão do poder de compra real, que já foi duramente atingido pela inflação de uma década, a expectativa é a de que os governos limitem os preços de energia no varejo, transferindo, assim, o ônus do ajuste mais uma vez dos balanços privados para os públicos. 

2)  As trajetórias de inflação estãoem alta, e provavelmente permanecerão elevadas durante a maior parte do ano. Mas poderão ser limitadas pela intervenção fiscal.

Isso coloca o BCE em uma posição complicada, pois os níveis de atividade em desaceleração devem também ter impacto moderador no núcleo da inflação no curto prazo.

Um aumento significativo no crescimento salarial está se tornando cada vez mais provável, levando a uma inflação mais alta no médio a longo prazo. 

Embora não haja mais necessidade de um programa de compra relacionado à pandemia de Covid, um fim abrupto das entregas de energia russa pode abrir riscos muito grandes para o crescimento e riscos para a inflação. Essa situação exigiria uma coordenação fiscal-monetária renovada, como a dos últimos dois anos.

Preocupações globais

Em nível mundial, as preocupações com a incerteza geopolítica e de mercado e os riscos para o crescimento também influenciarão a tomada de decisões de outros bancos centrais, embora com intensidade reduzida fora da Europa, acreditam os especialistas da Western.

A expectativa da gestora é que a Rússia sofra mais rebaixamentos significativos nas estruturas de rating tradicionais, mas também em termos de sua posição do ponto de vista ESG (Environmental, Social and Governance). 

Implicações de mercado

Para a Western, sanções internacionais em resposta às hostilidades russas causaram essencialmente uma interrupção no comércio de ativos russos locais, pelo menos por enquanto. 

Embora cerca de 20% da dívida russa em circulação denominada em moeda local seja detida por não residentes, as transações nesses títulos são prejudicadas pela incerteza em torno da liquidação, títulos dinâmicos de sanções e pela falta de um mercado funcional.

Os títulos de renda fixa ucranianos estão sendo negociados atualmente em níveis problemáticos, mas não são fundamentalmente prejudicados. No futuro, as condições nesses mercados obviamente dependerão de quando, e em que contexto, as hostilidades serão reduzidas.

No entanto, o obstáculo é muito alto para que as sanções à dívida russa sejam revertidas em breve. 

"Diante desse cenário, os mercados começaram a reduzir as expectativas de aumento de juros nos EUA e na zona do euro, enquanto os ativos de duração de refúgio seguro foram sujeitos a oscilações significativas, impulsionadas pelas manchetes." 

Western Asset

As economias globais têm sido, até agora, relativamente resilientes, mas há um risco de que as repercussões aumentem no curto prazo. 

Com redução das hostilidades, os gestores da Western espera por uma curva de juros mais plana nos EUA, rendimentos mais altos na zona do euro, força moderada do euro e potencial de recuperação para ativos de mercados emergentes, em particular aqueles que se beneficiam dos altos preços das commodities.

Risco de estagflação

Na mesma linha de raciocínio, o Santander Asset Management afirma que o desafio de política monetária pelo mundo se tornou ainda maior, uma vez que o enfrentamento bélico entre Rússia e Ucrânia aumenta o risco de estagflação, inflação combinada a um baixo crescimento econômico.

Por aqui, o Banco Central sinalizou altas de juros adicionais nas próximas reuniões, porém num ritmo menor que o das altas recentes.

Na renda fixa, os gestores observam alta da curva de juros, em linha com o aumento das incertezas geopolíticas. Na renda variável, apesar da queda das bolsas internacionais, o Ibovespa apresentou retorno positivo em fevereiro. No câmbio, o fluxo estrangeiro positivo favoreceu a apreciação do real frente ao dólar.

Perspectivas internacionais

A inflação americana (CPI) continua apresentando resultados desfavoráveis, de acordo com os gestores do Santander. A evolução do seu núcleo vem superando consistentemente as projeções de consenso nos últimos meses, com a variação acumulada em 12 meses passando de 4,0% em setembro para 6,0% em janeiro. Vale ressaltar que a meta perseguida pelo Fed (Federal e Reserve) é de 2,0%.

Com isso, as projeções do Santander Asset para os juros americanos  foram ajustadas, agora antecipando altas em todas as reuniões do Fed de 2022, com os juros mais próximos de 2,0% no final do ano. Para atingir o patamar considerado neutro (de 2,5%) logo nas primeiras reuniões de 2023.

Convém lembrar que, em paralelo, ainda haverá a redução dos ativos no balanço do Fed.

Picos nos preços do petróleo e inflação mundial

Para a gestora Jupter, o custo humano da invasão da Rússia na Ucrânia é devastador e imediato, enquanto as sanções econômicas impostas à Rússia, se multiplicam nos mercados e criam áreas de enorme incerteza para as empresas que operam naquele país.

Os gestores afirmam que o aumento das tensões geopolíticas e preocupações com o suprimento levou, como era esperado, a outro pico no preço do petróleo. Não à toa, a liderança de mercado na Europa veio do setor de energia em fevereiro.

“Tudo o mais deve levar a um pico de inflação, mas em vez de provocar expectativas de aumento mais rápido das taxas de juros, isto agora parece estar levando a que as apostas de aumento das taxas de mercado sejam retiradas”

Jupter, gestora de fundos

Em um nível micro, a Jupter ressalta que a empresas no País continuam divulgando bons resultados, superando as expectativas tanto em vendas quanto em lucros de 2% a 3%, respectivamente.

Revisão nos índices internacionais

Para a Atmosphere Capital, os mercados foram impactados e levados a um ajuste de expectativas, com a postura mais dura do Federal Reserve, com declarações de diversos membros do Fed e obviamente com a escalada do conflito na Ucrânia.

A partir desses eventos foram revisadas as potenciais implicações para as commodities energéticas e agrícolas, e efeitos para a inflação e crescimento global em 2022.

"Observamos grande rotação dos setores de duração mais longa, múltiplos elevados (crescimento) e aqueles com exposição negativa ao conflito na Ucrânia para setores vinculados à inflação, ganhos de produtividade e cíclicos, além daqueles com exposição positiva a esse evento geopolítico, como defesa e tecnologia militar e commodities energéticas e agrícolas e suas respectivas cadeias".

Atamosphere Capital

Isso levou a correções relevantes nos principais índices internacionais pelo segundo mês consecutivo: retornos de -3,14% para o S&P 500 e -3,43% para o Nasdaq, e volatilidades observadas de 22,8% e 32,2%, respectivamente.

Em contrapartida, o ciclo de resultados nos EUA iniciado em janeiro continuou ao longo do mês e, mais uma vez, os números surpreenderam positivamente as expectativas dos agentes, com cerca de 73% dos resultados acima das expectativas e 64% para os nossos setores.

Sobre o autor
Regina Pitoscia
Editora do Portal Mais Retorno.