Mercado Financeiro

Após dois dias de atenção dirigida à divulgação de dados de inflação no País, o mercado financeiro deverá voltar o olhar para os Estados Unidos nesta quarta-feira, 11. O foco é a inflação americana ao consumidor.

Por aqui, a inflação medida pelo IGP-DI em julho, divulgada na segunda-feira, ficou em 1,45% e a inflação oficial calculada pelo IPCA, anunciada pelo IBGE ontem, cravou 0,96%.

Foto: Arquivo
Investidores devem acompanhar de perto dados sobre a inflação americana

O que atrai o interesse de investidores e gestores de mercado nesta quarta-feira é a inflação ao consumidor (CPI) de julho nos EUA. O índice será conhecido hoje e o consenso de mercado aponta para uma elevação de 0,50%, inferior à de 0,90% de junho, na comparação com maio.

Uma alta acima das expectativas poderia reacender o debate em torno da flexibilização da política de estímulos monetários, com a redução gradual da recompra de títulos, programa que adiciona ao sistema financeiro americano um volume de US$ 120 bilhões a cada mês.

Um corte nessa ração mensal de recursos é visto como possível medida que poderia ser adotada pelo Fed (Federal Reserve, banco central americano) para enxugar a liquidez na economia e tentar conter eventual surto inflacionário.

Redução da liquidez preocupa mercado

Um aperto de liquidez no sistema financeiro americano e, por tabela, global, tenderia a afetar o mercado de ações e de câmbio domésticos por reduzir o fluxo de dólares ao País. Um movimento que teria como possíveis reflexos a queda da Bolsa de Valores e a valorização do dólar.

Por enquanto, os mercados têm reagido mais a fatores de instabilidade, políticos e econômicos, internos do que a expectativas com eventos internacionais. A tensão entre os Poderes tem causado insegurança nos investidores e mal-estar nos mercados, que estão cada vez mais cautelosos e preferindo posições defensivas, de proteção ao capital.

O temor com o acirramento da crise política é acompanhado pelas preocupações com a perspectiva de descontrole das contas públicas e desrespeito à lei do teto de gastos.

O receio com possível desarranjo fiscal tem origem no novo programa assistencial criado pelo governo, o Auxílio Brasil, e na proposta que prevê o parcelamento de precatórios, uma forma de abrir espaço no Orçamento para financiar o novo programa social.

Voto impresso: proposta vetada

Com ampla rejeição dos deputados, a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) do voto impresso foi derrotada pelo plenário da Câmara na véspera.

Foram 218 votos pelo seu arquivamento e apenas 229 votos favoráveis. Para que ela fosse aprovada, era necessário o apoio de no mínimo 308 deputados. Com o resultado, não foi preciso abrir o segundo turno de votações, e o texto foi arquivado pelo presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL).

Principal bandeira atual do presidente da República Jair Bolsonaro, a adoção da impressão do voto eletrônico foi rejeitada até mesmo por deputados que fazem parte da sua base no Congresso. A derrota foi um claro recado do Legislativo às pressões do chefe do Executivo e de seus apoiadores nas redes sociais.

O desfile de blindados do Corpo de Fuzileiros Navais na Esplanada dos Ministérios na manhã da véspera só piorou o cenário. Ao contrário do que o governo esperava, o movimento foi interpretado como uma afronta ao Legislativo e apenas serviu para aumentar a quantidade de parlamentares contrários ao texto.

No Senado, também houve resposta, com a aprovação do projeto que revoga a Lei de Segurança Nacional (LSN), legislação da época da ditadura militar que vem sendo usada pelo governo para perseguir e processar críticos.

A LSN foi usada pelo governo Jair Bolsonaro para investigar opositores e também pelo Supremo Tribunal Federal (STF) contra bolsonaristas. O projeto de lei foi aprovado, em maio, pela Câmara - no lugar dela, os deputados criaram a chamada "Lei do Estado Democrático".

A LSN prevê pena de até quatro anos de prisão para quem difamar o chefe do Executivo, atribuindo a ele fato "definido como crime ou ofensivo à reputação". Sua última versão está em vigor no País desde 1983.

O número de procedimentos abertos no governo Bolsonaro pela Polícia Federal, com base na legislação para apurar supostos delitos contra a segurança nacional, aumentou 285% nos dois primeiros anos do governo atual em comparação com o mesmo período das gestões de Dilma Rousseff e Michel Temer.

Entre 2015 e 2016 foram 20 inquéritos instaurados, enquanto entre 2019 e 2020, foram 77 investigações.

CPI da Covid: Helcio Almeida

A Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid, ouviu o tenente-coronel da reserva Helcio Bruno de Almeida. Durante as mais de cinco horas, o militar negou proximidade com o governo e, beneficiado por um habeas corpus, Helcio escolheu ficar em silêncio pela maior parte da sessão.

Helcio Bruno, que é presidente da ONG Instituto Força Brasil, chegou à CPI após ser apontado como elo entre representantes da empresa Davati Medical Supply e o Ministério da Saúde nas negociações de compra de vacinas. De acordo com o vice-presidente do colegiado, senador Randolfe Rodrigues, o militar foi convocado à CPI para explicar seu "eventual tráfico de influência" em negociação com suspeição de um pedido de propina.

O militar negou que tenha participado de alguma oferta ou pedido de vantagem indevida na negociação de vacinas com o Ministério da Saúde.

Helcio também afirmou que aceitou compartilhar uma agenda marcada previamente no ministério com a Davati Medical Supply, no dia 12 de março, acreditando na "boa-fé" da empresa e com a intenção de acelerar a venda de vacinas para o mercado privado, possibilidade não prevista pela legislação na ocasião.

Ele disse ter sido apresentado à empresa pelo reverendo Amilton Gomes de Paula, que prestou depoimento na semana passada.

Por decisão da ministra Cármen Lúcia, do Supremo Tribunal Federal (STF), o militar depôs protegido por um habeas corpus, o que lhe garantiu o direito de ficar em silêncio para não produzir provas contra si mesmo. Após suas declarações iniciais, o depoente se negou a responder a maioria das perguntas realizadas pelo colegiado.

NY: futuros em leve baixa

No cenário externo, os futuros negociados em Nova York operam em leve baixa com o mercado no aguardo da divulgação do CPI de julho, inflação americana ao consumidor.

 Na madrugada desta quarta-feira, o Senado dos Estados Unidos aprovou, em primeira votação, um orçamento de US$ 3,5 trilhões. Os governistas buscam garantir um pacote abrangente para educação, saúde, clima e outros temas sem o apoio da oposição republicana.

A votação desta madrugada foi uma vitória inicial para o presidente Joe Biden e os democratas do Congresso que buscam aprovar o máximo de sua agenda legislativa neste ano, antes de eleições de meio de mandato adiante.

Como os democratas têm margem de vantagem apertada nas duas Casas, porém, devem enfrentar escolhas difíceis negociações para transformar o marco geral do orçamento em legislação detalhada.

A Capital Economics avalia que o setor financeiro deve registrar uma alta ainda maior do que a já vista deste mês. A consultoria afirma que há uma "rotação" nas bolsas, já que os investidores buscam ações de empresas que se beneficiarão da retomada econômica.

Entre novembro de 2020, quando foram noticiadas vacinas eficazes contra a covid-19, e meados de maio deste ano, os setores financeiro, de energia e construção foram os que apresentam um desempenho melhor, segundo a consultoria.

A alta em energia e materiais, porém, deve ser contida por uma nova queda no preço de commodities, avalia a Capital. "No petróleo, como reflexo da nossa visão de que a oferta vai se recuperar fortemente. Para metais industriais, é principalmente devido à nossa previsão de que a economia intensiva em metais da China continuará a desacelerar", diz o economista Oliver Allen.

Também no dia anterior, o presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) de St. Louis, James Bullard, afirmou que há progresso suficiente para que a autoridade monetária comece a redução de compras de ativos. A observação se baseou na força do relatório de empregos (payroll) de julho dos EUA, divulgado na última sexta-feira.

Bolsas asiáticas fecham mistas

Os mercados acionários da Ásia fecharam sem sinal único nesta quarta-feira, 11, porém entre as principais bolsas houve ganhos em Tóquio e também em Xangai, embora modestos neste último caso.

Em Tóquio, o índice Nikkei terminou em alta de 0,65%, aos 28.070,51 pontos. Ações do setor financeiro e de siderúrgicas estiveram entre os destaques, com exportadoras apoiadas pelo iene mais fraco, em meio a relatos também de potenciais novos estímulos fiscais no futuro no Japão, afirma a Oanda.

Na China, a Bolsa de Xangai fechou em alta de 0,08%, aos 3.532,62 pontos, e a de Shenzhen, de menor abrangência, avançou 0,13%, aos 2.602,36 pontos. Incorporadoras registraram ganhos no mercado acionário chinês, mas empresas ligadas a bebidas alcoólicas caíram, após críticas à "cultura de bebida" no país feita por um fiscal anticorrupção.

Em Hong Kong, o índice Hang Seng avançou 0,20%, aos 26.660,16 pontos. Ações de incorporadoras puxaram o movimento, ficando entre as três principais altas do dia.

Na Coreia do Sul, o índice Kospi fechou em baixa de 0,70%, aos 3.220,62 pontos. Ações de tecnologia e internet se saíram mal, na quinta queda consecutiva da Bolsa de Seul, afetada por um surto de casos da covid-19 que influencia negativamente o sentimento dos investidores.

Na Oceania, na Bolsa de Sydney o índice S&P/ASX 200 registrou alta de 0,29%, aos 7.584,30 pontos, novo recorde histórico de fechamento do mercado australiano. Ações do setor financeiro e ligadas a commodities se destacaram no pregão. / com Júlia Zillig e Agência Estado

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Colaborador do Portal Mais Retorno.

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