Renda Variável

 A Selic, taxa básica de juros do País, segue em trajetória ascendente. Na última reunião, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central aplicou mais um ajuste – o quinto consecutivo – na ordem de 1 ponto porcentual, elevando a taxa para 6,25% ao ano e com promessa de mais dois aumentos da mesma magnitude. Mesmo com maior atrativo na renda fixa, algumas ações acenam com dividendos superiores aos juros.

Ainda que esse movimento de alta dos juros estivesse previsto, muitos investidores ficam apreensivos, principalmente os que contam com uma boa parte de seus ativos de sua carteira de investimentos alocada em renda variável.

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Entre as pagadoras de dividendos superiores à Selic estão empresas de commodities, transmissoras de energia e bancos - Foto: Envato

Embora, tradicionalmente, a taxa de juros alta cause volatilidade no mercado de ações, com a migração de investidores para ativos como a renda fixa e o dólar, existem várias ações na Bolsa de Valores que entregam dividendos acima da Selic de 6,25% ao ano.

Segundo Rodrigo Moliterno, head de Renda Variável da Veedha Investimentos, as empresas maduras, com lucros recorrentes e que demandam menos capex (despesas de capital ou investimentos em bens de capital) continuam com a capacidade de entregar dividendos robustos aos seus acionistas.

“Mesmo com o aumento da Selic, as empresas com esse perfil vão continuar distribuindo dividendos. A menos que os juros interfiram no custo do capital delas, e aí essa distribuição pode ser um pouco menor”, afirma Moliterno.

O momento de turbulência que o País atravessa, com a inflação se disseminando por toda a economia e mostrando vigor para subir mais, e o cenário político e fiscal bem instável, muitos papéis, inclusive dessas empresas com perfil de boas pagadoras de proventos, estão com preços atrativos e podem trazer boas oportunidades para os investidores.

“Várias empresas que pagam dividendos com um valor acima da Selic estão com suas ações descontadas. Para quem pensa no longo prazo, é um bom período para olhar esses ativos com atenção”, explica Gustavo Akamine, analista da Constância Investimentos.

Com a reforma tributária em andamento – que já sinalizou que deve tributar os dividendos em 20% e acabar com os Juros sobre Capital Próprio (JCP) – as empresas pagadoras de dividendos mais fortes já estão se antecipando na entrega dos proventos.

“A intenção é, além de se beneficiar da isenção tributária, deixar o balanço limpo para entrar na nova metodologia”, analisa Moliterno.

Onde estão as boas pagadoras de dividendos?

As empresas do setor de utilidade pública, commodities e financeiro são, tradicionalmente, boas pagadoras de dividendos. E mesmo em contexto conturbado, elas continuam com alta capacidade de fazer suas entregas aos acionistas.

O setor de commodities surfou uma onda de valorização dos preços no mercado internacional – tanto do minério de ferro, que chegou a custar US$ 200 a tonelada, quanto do petróleo - e engordou seu caixa, o que trouxe às empresas a possiblidade de retornar esses lucros em dividendos generosos, com yield acima da Selic.

Em 2021, a Vale foi a empresa que mais se destacou na questão do pagamento de dividendos. Nesta última distribuição, a mineradora pagou a cifra de R$ 40,2 bilhões – ou R$ 8,10 por ação – referente ao primeiro semestre do ano. O yield estimado da companhia é de 17% para este ano.

De acordo com o Bradesco BBI, é possível que aconteça uma distribuição de dividendos extraordinários da Vale de cerca de U$ 3 bilhões nos próximos três meses. Além disso, a mineradora segue com seu programa de recompra de ações.

Ainda no setor de mineração, Gianlucca Montuori, sócio e especialista em renda variável da Acqua-Vero Investimentos, destaca a CSN Mineração, braço da CSN que abriu capital neste ano.

“A empresa teve um forte recuo no valor do ativo desde o seu IPO, porém mesmo assim ela conseguiu fazer uma boa geração de caixa. Além disso, a CSN Mineração nasceu com dívida líquida zero, por ser um braço da CSN, e tem um payout entre 80% e 100%”, analisa.

Segundo estimativas da Acqua-Vero, a expectativa de yield da companhia para o próximo ano é de cerca de 20%.

Ainda no universo das commodities, a Petrobras também faz parte das empresas que pagam dividendos acima da Selic, com yield projetado de 11%.

De acordo com Akamine, um ponto desfavorável da petroleira é a exposição a medidas políticas, com a proximidade das eleições. “Em ano pré-eleitoral existe risco de contágio das campanhas políticas nas ações da companhia”.

Outro fato que também pode influenciar negativamente a Vale são as condições macroeconômicas da China nos próximos meses: o país está às voltas com crise energética, problemas de liquidez da gigante do setor imobiliário Evergrande, além de suas políticas regulatórias.

“A grande questão será se a economia chinesa sofrerá uma forte deterioração. Isso pode causar baixa no preço das ações”, avalia o analista da Constância.

Setor elétrico

Apesar de a crise hídrica estar batendo à porta de grande parte das empresas do setor elétrico, as transmissoras seguem na lista de pagamentos de dividendos acima da taxa Selic.

Lucas Collazo, especialista em investimentos da Rico ressalta que quando o investidor pensa em investir em empresas com foco em dividendos, as companhias de utilities - saneamento e energia - são as primeiras que vêm à cabeça.

De acordo com o head de renda variável da Veedha, são companhias que acabam sendo menos expostas aos efeitos da crise por não fazerem a geração de energia e lidar com a dificuldade de baixa nos reservatórios.

Entre alguns exemplos de boas pagadoras de dividendos acima da taxa de juros, o especialista cita as transmissoras Taesa, Engie, CPFL e NBR. Todas contam com um yield estimado na casa entre 6,7% e 7,0%.

A Copel é outro exemplo, com yield projetado de 15%. “Ela faz parte do grupo de empresas que não tem perspectivas de investir em grandes projetos, o que dá a possibilidade de fazer uma boa distribuição de proventos, além de trabalhar com contratos longos e ter já um histórico consolidado nesse pagamento”, ressalta Akamine, da Constância.

Porém, esses dividendos podem perder um pouco a forma se a crise hídrica se estender para o próximo ano.

O sócio e especialista da Acqua-Vero engorda a lista com empresas como ISA Cteep e Alupar. O yield estimado delas transita na faixa entre 8%, 9% a 10,7%.

“A Engie Brasil é geradora, porém ela cria uma capacidade diferenciada de se proteger dos efeitos da crise hídrica. Ela também está no setor de transmissão. Isso traz uma certa segurança para o investidor, além de um yield de 10,1% estimado para 2022”, avalia Gianlucca.

Bancos

Tradicionais bons pagadores de proventos, em uma combinação entre Juros sobre Capital Próprio (JCP) e dividendos, os chamados bancões também seguem se destacando com yields acima da Selic.

O analista da Constância destaca o momento atual do Itaú, com o desinvestimento feito na XP. “É um valor que entra para o caixa da empresa e que ajuda a reforçar os dividendos”.

Gianlucca Montuori destaca o Banco do Brasil, que tem recomendação neutra do BTG Pactual.” O banco tem um ROI equivalente aos dos grandes bancos, porém, com o achatamento que ele tem, estimamos um yield de 12,5% - o maior entre os gigantes – em 2022”.

Assim como a Petrobras, a instituição financeira também fica sujeita à contaminação política em ano pré-eleitoral, de acordo com Montuori.

Cuidados ao compor a carteira com as pagadoras de dividendos

Para o investidor que quer construir uma carteira composta de ativos de boas pagadoras de dividendos, os especialistas fornecem algumas dicas importantes. Uma recomendação é unânime entre eles: a visão do investimento tem que ser de longo prazo e lembrar que todo papel oferece risco.

A primeira coisa, de acordo com Moliterno, da Veedha, é buscar companhias que tenham regularidade de pagamentos de dividendos com yield mais alto do que o CDI.

Após isso, Gustavo Akamine recomenda que o investidor adote um olhar mais atento e abrangente sobre cada uma delas – inclusive se a empresa paga bons dividendos em momentos de crise.

“O valuation das empresas está bem inferior do que há semanas. É um bom momento para compor essa carteira. No entanto, é importante se sentir seguro sobre os riscos”, avalia Akamine.

Outra orientação importante é analisar as expectativas de futuro, se haverá condições de a companhia seguir pagando dividendos elevados no próximo ano, destaca Moliterno.

Lucas Collazo, da Rico, complementa que a execução dos projetos da companhia em longo prazo também deve ser levados em conta nessa análise.

E não esquecer de avaliar o cenário macroeconômico, incluindo não somente a economia brasileira, mas também o internacional caso a atuação da empresa se estenda ao exterior.

Nesse sentido, Gianlucca Montuori, da Acqua-Vero, reforça que o investidor tem que entender o momento atual para identificar as oportunidades.

“Nós vamos passar por um período de turbulência na Bolsa, por conta de vários fatores, incluindo as eleições. No curto prazo haverá estresse, mas surgirão oportunidades interessantes para a compra de ativos”, analisa.

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Repórter do Portal Mais Retorno.

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