Renda Variável

O cenário atual de dólar, inflação e juros em alta não significa que o momento seja contraindicado para o investimento em bolsa de valores. Ao contrário, oferece até oportunidades de ganho com ações, mas exige boa ginástica do investidor para um balanceamento da carteira.

Exige, por exemplo, que o investidor redistribua os recursos para ações de empresas que, pela atividade que desempenham ou pelo setor em que atuam, estão mais blindadas contra a escalada do dólar, da inflação e dos juros. Não apenas protegidas, mas que se beneficiem desses movimentos da moeda ou dos indicadores econômicos.

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Exportadoras são beneficiadas pelo dólar e são menos vulneráveis ao cenário interno

A configuração desses dados, no cenário de momento, é a seguinte: o dólar foi cotado nesta segunda-feira por R$ 5,22 e acumula alta de 0,97% no mês e de 0,58% no ano; a inflação oficial de agosto, medida pelo IPCA, cravou 0,87% e acumula avanço de 5,67% no ano e de 9,68% nos últimos 12 meses; e a taxa básica de juros, a Selic, atualmente de 5,25% ao ano, foi estimada por economistas do mercado financeiro para 8%, no fechamento de 2021, no boletim Focus desta segunda-feira. Mas correm previsões paralelas que apontam uma Selic perto de 10% no fim do ano.

A blindagem das exportadoras

O cenário de valorização do dólar torna unanimidade imbatível a recomendação de especialistas por ações de empresas exportadoras, principalmente do setor de mineração, como a Vale, e de siderurgia, como CSN, Usiminas e Gerdau.  As de alimentos, como JBS, de papel e celulose, como Klabin e Suzano, e Weg, de motores e equipamentos, também compõem a lista das exportadoras recomendadas por Bruno Mansur, especialista da Valor Investimentos.

“São empresas que, além de exportadoras, não dependem de matérias-primas nem de insumos do exterior, o que aumenta a atratividade delas”, destaca Mansur. “Ganham com as receitas dolarizadas e não sofrem com o aumento de custos com o dólar mais alto.”

O especialista lembra ainda que são todas companhias com as ações descontadas, baratas, “muito por causa de fatores domésticos, como a crise política, que cria insegurança nos investidores”.

Felipe Leão, analista da Valor Investimentos, inclui na lista das beneficiadas com a valorização do dólar empresas exportadoras de proteína animal, como a Marfrig, “frigorífico que tem plantas nos Estados Unidos gerando a maior parte de suas receitas”.

Ações que sofrem menos com a inflação

Especialistas classificam como impropriedade a afirmação de que determinadas empresas se beneficiam da alta da inflação. Preferem relacioná-las como as que sofrem menos, por conseguir repassar o aumento de custos ao consumidor final. “Companhias que têm mais resiliência em suas receitas, como as elétricas, por meio de contratos ligados ao IPCA ou ao IGP-M”, explica Leão. Mansur cita nesse grupo de elétricas empresas como a Taesa e a AES.

Fora do setor elétrico, Leão aponta ainda, dentre as com mais resiliência, as grandes varejistas do segmento de supermercados, como Grupo Mateus, Assaí e Carrefour. “Empresas que conseguem repassar o aumento de preços de suas matérias-primas para o consumidor e, com isso, proteger suas margens e, portanto, seus lucros.”

No setor de varejo alimentício, afirma Mansur, levam vantagem maior na corrida contra a inflação as companhias com bom volume de produtos em estoque, supermercados como Pão de Açúcar e Carrefour.

Juros em alta favorece setor financeiro

A aceleração da inflação que leva à alta dos juros favorece, em geral, os ganhos de empresas do setor financeiro, como as do segmento de cartão de crédito, seguradoras e bancos, de acordo com os especialistas. “Elas se beneficiam nesse cenário de alta da inflação e dos juros porque repassam um spread mais alto ao cliente”, comenta Mansur, especialista da Valor Investimentos.

É um cenário que favorece as companhias de grande porte do segmento financeiro, inclusive no desempenho delas na bolsa de valores, mas cria dificuldades para as menores, as small caps, que sofrem com custo mais alto para engatar e retomar o crescimento, lembra Leão, analista do Valor.

Os efeitos dos juros altos na tomada de decisões no mercado de investimento também são pontuados pelos especialistas. O ambiente de alta dos juros pode reduzir o fluxo de recursos para a bolsa de valores, já que a renda fixa passa a atrair o investidor que, ao avaliar o risco/retorno,  percebe ser mais interessante sair da renda variável para a renda fixa. 

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Colaborador do Portal Mais Retorno.

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