Renda Variável

O temor de agravamento da crise institucional bateu cheio na Bolsa de Valores de São Paulo, a B3, no dia seguinte aos atos de apoio ao presidente Bolsonaro, que voltou a bateria de ataques e ameaças ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF). A B3 fechou a quarta-feira com baixa de 3,78%, em 113.412,84 pontos e apenas cinco ações do Ibovespa apresentaram variação positiva no pregão.

A perspectiva de que declarações golpistas do presidente agravem a crise política e leve a uma ruptura entre os Poderes acirra o sentimento negativo nos investidores, porque piora também a crise econômica com inflação em alta, desemprego crescente, crise hídrica. Tudo isso em um ambiente de paralisia econômica, em que um dos vetores para a possível retomada, as reformas econômicas, está parado no Congresso.

Ações de shoppings devem ser afetadas porque dependem do consumo e renda das pessoas

Varejo tende a ser mais castigado

Os setores mais impactados pela perda do poder de compra da população são os ligados à economia local, os de empresas de varejo que têm foco em classe de renda mais baixa, principalmente, avalia Pietra Guerra, especialista em ações da Clear Corretora. 

São as empresas mais suscetíveis à atividade, ao crescimento, que dependem do cenário econômico doméstico, reforça Pedro Lang, head de Renda Variável da Valor Investimentos. “A questão institucional faz pressão sobre o cenário econômico e afeta as empresas que dependem do consumo e da renda das pessoas, como os shoppings”, afirma Lang.

A avaliação do responsável pela Área de Análise da Monett, Luiz Cesta, segue na mesma direção. Para ele, empresas varejistas que comercializam bens de consumo discricionários, que não se caracterizam como de primeira necessidade, como geladeira, fogão e até automóveis, também tendem a sofrer os impactos do agravamento da crise.

Companhias de alta tecnologia também são afetadas negativamente em um cenário de deterioração de crise político-institucional, que agrava o econômico, diz Pedro Lang.  Em caso de alguma ruptura institucional, podem ocorrer também movimentos mais técnicos, até sobre empresas com ações mais liquidas, segundo analistas. “Um dos setores que poderiam sofrer é o bancário, se houver uma inversão de fluxo de capital, com estrangeiros saindo da bolsa, já que investidores externos estão bem posicionados em bancos”, comenta Cesta.

Em um cenário de deterioração do quadro político-institucional as companhias públicas, ligadas ao governo, também podem ser impactadas negativamente. “São estatais que dependem de iniciativas reformistas e o ruído político tem atrapalhado o andamento da agenda de reformas”, diz Gustavo Bertotti, economista da Messem Investimentos. Outros setores que podem sofrer com a piora da crise político-econômica são os considerados cíclicos e dependentes de retomada econômica, que vai desde empresas de turismo, varejo, lojas físicas, até a construção civil.

Carteira defensiva tem ações de empresas de commodities

A estratégia defensiva ou de proteção mais recomendada pelos analistas é a de investimento em empresas de commodities, como mineradoras, siderúrgicas e celulose. São companhias que vendem ao exterior e têm receitas em dólar.  Exportadoras de minério de ferro, como a Vale, siderurgia, como a CSN, e de celulose, como a Suzano, que em condições normais se beneficiam coma alta do dólar, explica Bertotti. “E já são também um hedge (proteção contra a inflação”, explica Pietra.

Outra vantagem das exportadoras de commodities, segundo Rodrigo Sivieri, professor de mercado financeiro e de capitais da Trevisan Escola de Negócios, é que essas companhias têm custo de fabricação em real e faturamento de exportação em dólar. Fora das commodities, “a Weg também é uma empresa resiliente que tem boa parte das receitas em dólar, o mesmo ocorrendo com Camil, no setor de alimentos”, aponta.

O setor de energia elétrica atravessa uma crise hídrica, mas nem por isso é deixado de lado pelos analistas. Empresas como Taesa, Equatorial, Transmissão Paulista são lembradas por eles. “As empresas de transmissão e distribuição de energia, principalmente, são setores que têm serviço contratado, com receita praticamente estável”, afirma Lang.

Papéis de alimentos básicos estão entre as indicações

O de consumo não cíclico relacionado a alimentos básicos também faz parte das indicações. “É um consumo que vai continuar, com perspectiva de boa performance para as empresas, principalmente para as focadas no atacarejo, como o Assaí”, pontua Pietra, especialista da Clear. Pão de Açúcar e Carrefour também fazem parte da lista de ações defensivas.

Lang, da Valor, indica ainda outras companhias do setor de consumo discricionário, como as de energia elétrica, água, esgoto e internet. Companhias de saneamento básico como Sabesp, Copasa e Sanepar. Empresas de utilities, prestadoras de serviços públicos como as transmissoras e distribuidoras de energia e de saneamento, de controle privado, são dicas também de Luiz Cesta, da Monett.

Roberto Nemr, analista da Ohmresearch plataforma de análises independentes, afirma que não vê risco de ruptura institucional e tampouco de crise mais aguda porque o País não tem dívidas em dólar. O trio de ações que recomenda para uma carteira defensiva é formado por Pão de Açúcar, que considera muito descontada, Natura e Duratex, “empresas que não têm muito risco e estão bem descontadas”.

O head de Renda Variável da Valor Investimentos afirma que a construção de uma carteira defensiva pressupõe também uma diversificação geográfica, com ações do exterior.

Papeis que estão descolados do cenário doméstico. Uma sugestão compartilhada por Bertotti, da Messem. “O investidor pode montar uma carteira com ativos do exterior, como os de empresas americanas, para fazer hedge, papeis que correspondem a outro mercado.” Bertotti diz que os BDRs (Brazilian Depositary Receipts) atendem a uma forma de diversificação de carteira que tem atraído cada vez mais investidores locais.

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Colaborador do Portal Mais Retorno.

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