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Economia

Volta à normalidade em 2022? O que será o novo normal para a economia?

Novas tecnologias, como a blockchain, são pilares para simplificar operações

Data de publicação:17/11/2021 às 07:00 -
Atualizado 6 meses atrás
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Conforme se aproxima o mês o dezembro, é de se esperar que essa pergunta se torne mais recorrente. E o que será o novo normal para a economia?

Como pano de fundo, uma inflação global que tem sido mais persistente que o inicialmente previsto, dada a série de choques de oferta impactando tudo que faz parte da rotina, de energia elétrica a combustíveis e alimentos.

Foto: arquivo
Alta do custo da energia elétrica ajudou a elevar a inflação

Por mais que os fatores por trás desses aumentos possam ser amenizados com o passar do tempo, a verdade é que as principais autoridades monetárias ao redor do mundo elevarão os juros em algum momento, encerrando definitivamente o ciclo econômico que prevaleceu até a chegada da pandemia.

Na tentativa de se prever o que vem pela frente, vale atentar-se para os seguintes temas, todos eles começando com a letra “C”.

China

No que diz respeito à China,  os problemas estão longe de ser resolvidos. Tal como a Evergrande, que possuía uma participação de 36% em um banco local, muitos conglomerados chineses são também grandes acionistas de instituições financeiras.

É por meio dessas participações que conseguem indicar seus executivos para a gestão, o que lhes garante crédito facilitado com poucas contrapartidas, comprometendo seus indicadores de solvência.

Em nível nacional, mais da metade dos bancos regionais são detidos por grupos empresariais industriais e do ramo de construção, muitos dos quais já socorridos. Dito isso, o desafio para as autoridades chinesas é como sanear o sistema bancário com a economia crescendo menos.

Cripto

Mercado que está sempre aberto, todos os dias da semana.  Volatilidade à parte, é na infraestrutura por trás dele que os investidores institucionais têm colocado as suas fichas, elevando ao seleto grupo de unicórnios startups que desenvolvem plataformas em blockchain.

Mais do que o entusiasmo pelas criptomoedas, as apostas incluem outros nichos como as finanças descentralizadas (DeFi) e a titularidade de ativos digitais (NFTs).  No caso das finanças descentralizadas especificamente, seu mérito está na simplificação de muitas operações financeiras do cotidiano. 

Pagamentos são feitos de forma instantânea, a um custo muito baixo. Além disso, sua linguagem de programação permite que negociações sejam liquidadas automaticamente quando determinadas exigências são atendidas, o que elimina a participação de outros agentes (como as clearings).

Uso prático

Porém, tal como em qualquer inovação, a DeFi perde o seu apelo se não tiver um aspecto prático. Para passar no teste em 2022, precisaria estar vinculada a um meio de pagamento formal.  Nesse sentido, vale observar o exemplo de El Salvador, país que recentemente adotou o bitcoin.

Um segundo aspecto seria em termos de registro. A experiência com o registro de ativos digitais (NFTs) dirá se valores mobiliários poderão ser registrados em tecnologia blockchain.  A depender do êxito das iniciativas, esse sistema poderá incluir até mesmo o registro de imóveis.

Hoje, muitas investidas são apoiadas por empresas que já fizeram a transição para o mercado financeiro tradicional como a Coinbase, que possui a sua própria divisão de investimentos. Com tantos investimentos indo para o mesmo lugar, não é difícil de associar esse movimento à bolha da internet

Mas, ao contrário das empresas de tecnologia do Vale do Silício que sumiram em um piscar de olhos, as candidatas atuais estão distribuídas geograficamente. Dito isso, não é preciso nenhum aumento inesperado de juros para se constatar que esse ecossistema também explodirá se não for lastreado por atividades econômicas legítimas. 

COP26

O esforço coletivo para se manter o aquecimento global limitado a 1,5oC mostra que há muito a se fazer, antecipando-se o que foi estipulado pelo Acordo de Paris. Para tanto, deve-se contemplar novas formas de financiamento.

A verdade é que a transição energética não avança sem investimentos, algo que os países mais pobres sofrem para fazer de forma mais consistente. Porém, como a própria COP26 destacou, esses mesmos países querem ser compensados pelos danos causados pelas mudanças climáticas.   

Com os governos altamente endividados por conta das medidas implementadas para combater os efeitos econômicos da pandemia, talvez esse seja o momento para se pensar diferente. Países emergentes poderiam ter acesso a financiamento, desde que direcionem parte dos recursos para medidas mitigatórias.

Muitos órgãos multilaterais (a exemplo do Banco Mundial) possuem experiência nesses tipos de operações.  Trazê-la para o mercado de renda fixa, onde investidores preocupados com a pauta climática também poderiam participar, seria um avanço muito bem-vindo.

A dificuldade estaria mais na concepção desse modelo pelos agentes financeiros, com toda a metodologia necessária para se apurar se o resultado almejado realmente está sendo alcançado.

Conclusão

Programas de vacinação e o desenvolvimento de novos medicamentos são alguns dos legados dos dois últimos anos.  Assim, espera-se que menos lockdowns sejam necessários, eliminando os descompassos observados em várias partes do mundo.   

Teoricamente, isso deveria endereçar as pressões inflacionárias.  Sendo transitórias, não haveria porque se abortar uma recuperação econômica via aumento de juros. Afinal, qualquer alteração nesse sentido pouco faria para descongestionar os portos ou aumentar a oferta de petróleo e gás natural.

Apesar dos países emergentes, pelas suas próprias vulnerabilidades, já terem ajustado a sua política monetária, economias mais desenvolvidas esperam pra ver se os altos preços se refletem nos salários, repetindo a dinâmica da década de 70.

O ano de 2022 começará com inflação alta e a China eliminando mais uma alavanca do seu modelo de crescimento acelerado.  Ao substituir grandes participações privadas por outras, detidas por entes do próprio governo, o país pretende dar uma solução definitiva às dívidas podres.

Engenhosidade

Para um sistema que precisa de mais controles, a solução talvez esteja em algo simples e inovador. O mundo cripto só precisa encontrar o seu nicho no mercado financeiro para que a tecnologia blockchain passe a ser empregada de forma mais disseminada, por mais disruptivo que isso possa parecer em um primeiro momento.

Obviamente, isso tem um custo. O alto consumo de energia exigido para validar essas transações não combina com um planeta que precisa limitar as suas emissões de gases de efeito estufa. 

A chave para a normalidade no pós-pandemia pode estar no próprio sistema financeiro, com toda a sua engenhosidade e perspicácia na alocação de recursos. Afinal, independentemente do que acontecer em 2022, o mundo não poderá contar com os mesmos estímulos governamentais de 2020.

Sobre o autor
Nohad Harati
Possui MBA em Finanças e LLM em Direito do Mercado Financeiro (ambos pelo Insper/SP). É gestora de uma carteira proprietária, além de ser responsável por um Family Office.