Mercado Financeiro

Muitos já devem ter visto "Nyan Cat", meme do gatinho voando no espaço e deixando um arco-íris como rastro. Ele não passaria de uma distração entre os apreciadores de pop-art, não fosse por um único detalhe: a sua versão criptografada, contendo um “token não fungível” (NFT, na sigla em inglês).

Meme do gatinho tem versão criptografada em NFT nada mais é do que um código baseado em blockchain
Nyan Cat, o meme do gatinho voando no espaço - Foto: (Reprodução)

NFT nada mais é do que um código baseado em blockchain que atesta a autenticidade de obras virtuais (vídeo, foto, música ou qualquer outro grupo de dados digitais).

Até então copiadas indiscriminadamente, essa técnica surgiu para tentar dar a esse nascente nicho o mesmo rigor das obras de arte mais tradicionais como quadros e esculturas. Não por acaso, a versão original do vídeo do gatinho foi leiloada por US$ 600.000.

Olhando o mercado de NFTs de forma mais abrangente, US$ 300 milhões foram negociados em apenas um mês. Por mais que a segurança na internet esteja na ordem do dia, os preços alcançados por obras autenticadas digitalmente diz muito sobre a especulação característica de ambientes de baixas taxas de juros.

Trata-se da “exuberância irracional”, nas palavras de Alan Greenspan.

Finanças sociais

Com boa parte dos ativos inacessíveis para a maioria das pessoas, por conta dos seus altos preços, mercados de nicho crescem pelas bordas explorando o irresistível conceito de exclusividade.

Passion investments

Nos single family offices (escritórios familiares que cuidam das grandes fortunas globais), é bastante comum o trabalho de curadoria para a formação de coleções particulares de arte. Vaidade ou não, é fato que os chamados “investimentos passionais”, que incluem também carros antigos e vinhos raros, se valorizam quando as demais “oportunidades de investimento” se escasseiam.

Se antes havia o problema da iliquidez (dificuldade na monetização dessas obras), isso foi contornado a partir do momento em que elas passaram a ser aceitas como garantia nas operações de empréstimo.

Com o custo do dinheiro (juros) mais barato e mercados mais transparentes (certificados de autenticidade e preços alcançados em leilões de arte disponíveis na internet), não demorou muito para esse mercado decolar.

Versão 2.0

A proliferação de inúmeras plataformas, turbinadas pelas redes sociais, fez escalar características típicas do mercado de arte, incorporando ainda inovações do mundo da tecnologia, como o uso de criptomoedas como meio de pagamento.
Essa conjunção de fatores tornou as finanças comportamentais de Richard Thaler, vencedor do prêmio Nobel de Economia de 2017, algo passível de atualização.

Se antes os desvios do mercado podiam ser justificados por elementos individuais como excesso de confiança e aversão a perdas, agora fala-se de finanças sociais, algo que a comunidade financeira encontra dificuldades para assimilar.

Entre as suas variáveis observáveis, percebe-se que as redes sociais influenciam na percepção de risco entre os pequenos investidores, disseminam informação sobre determinados ativos e fomentam o “Fear of Missing Out” (FOMO).

Dito isso, o quanto contribuem para o principal objetivo do mercado financeiro, que é alocar recursos de poupadores para as melhores oportunidades de investimento?

Paris Hilton

Voltando ao caso do NFT, ele não é sem defeitos. Pra começar, a atividade de mineração, necessária para a validação de transações baseadas em blockchain, consome uma enorme quantidade de energia elétrica. Em função disso, é realizada em locais onde ainda se gera energia a partir do carvão, insumo barato, mas altamente poluente.

O segundo problema é que um NFT pode ser apartado de sua obra, permitindo a sua alteração mesmo após a venda. Na ausência de um sistema de registro secundário, torna-se impraticável organizar e manter qualquer mercado que seja, dada a falta de confiança entre os agentes que dele participam.

Assim, o melhor mesmo é não se deixar levar pela empolgação, independentemente de quem esteja chamando para participar (Paris Hilton, Lindsay Lohan, entre outras celebridades).

Oferta inicial de moedas

É difícil não traçar um paralelo com outra iniciativa virtual que não vingou: as ofertas iniciais de moedas (ICOs, na sigla em inglês). Elas não passavam de um meio de se bancar ideias inovadoras, sem passar pelas exigências da regulamentação ou dos custos cobrados pelos intermediários financeiros (bancos de investimento). Como principal atrativo, prometiam uma valorização no mínimo igual às criptomoedas.

Isso por si só permitiu que fossem amplamente divulgadas, ainda que amparadas por um modelo bastante frágil: o financiamento para a criação de uma plataforma em blockchain, com a finalidade de atender a uma necessidade específica, mas sem a participação de uma bolsa de valores ou de qualquer documentação mais bem fundamentada.

As ICOs chegaram a captar US$ 13 bilhões em apenas 5 meses antes de perderem o seu apelo e caírem no esquecimento.

Conclusão

Movimentos irracionais nos mercados só se tornam visíveis depois que já causaram enormes estragos. Como os juros baixos permanecerão entre nós por ainda algum tempo, é sempre bom se lembrar do termo “exuberância irracional”.
Na ausência de alternativas de investimentos, as pessoas inevitavelmente se apegam a qualquer coisa, esperando que ela seja a próxima “grande oportunidade”, seja pela sua exclusividade, seja pela força das redes sociais, responsáveis por moldar o comportamento de pessoas incapazes de avaliar adequadamente os riscos.

Diferentemente das obras de arte, que possuem critérios para definir o seu preço e um mercado específico para elas, as obras digitais não permitem mais do que o cultivo de um hobby, visto que não podem ser usadas como reserva de valor ou dadas em garantia nas operações de crédito.

Tudo por conta da falta de um mecanismo que dê confiança aos ativos virtuais. Confiança aquela que é compartilhada entre os agentes financeiros e que faz com que as transações ocorram da forma mais eficiente possível, com os menores custos para a sociedade.

Ao artista, caberá apenas a satisfação de ter a sua obra conhecida mundialmente. Já para os entusiastas de novas tecnologias, o melhor mesmo é adotar a estratégia dos fundos de venture capital (VC). De cada 10 investimentos, apenas 1 trará os resultados que todos gostam tanto de postar.

"Mercados que funcionam bem são a chave para a prosperidade."
Minouche Shafik, economista e autora do influente livro "What We Owe Each Other", ainda sem tradução.

Imagem do autor

Possui MBA em Finanças e LLM em Direito do Mercado Financeiro (ambos pelo Insper/SP). É gestora de uma carteira proprietária, além de ser responsável por um Family Office.

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