Renda Variável

Você já ouviu falar no famoso bitcoin?

Excluindo-se o mundo das finanças, poucas pessoas se dão conta de quanto as baixas taxas de juros influenciam nas suas decisões de investimento. Inevitavelmente, elas:

Porém, considerando o período pós-pandemia, o que pode ser dito sobre o comportamento da sociedade de um modo geral? Em um primeiro momento, ocorreu exatamente o que se esperava: receosas com o alto nível de incerteza, as pessoas guardaram os seus recursos.

No entanto, após o choque inicial, a grande surpresa foi que todos seguiram diretamente para as alternativas mais arriscadas. Embora muitas empresas de setores essenciais continuassem pagando dividendos, os investidores só estavam interessados em ações de tecnologia.

Agora, observando-se os elevados preços dos ativos mais negociados no mercado financeiro, o que restou em termos de oportunidades de ganhos?

Bitcoin

Sua criação é cercada de vários fatos curiosos:

A primeira ocasião em que o bitcoin ganhou notoriedade foi em 2013, quando seu preço alcançou US$ 1.000. Desde então, teve um desempenho bastante irregular. Depois de alcançar US$ 19.000 em dezembro de 2017, perdeu 80% de seu valor no ano seguinte. Recentemente, alcançou novos recordes, ultrapassando US$ 35.000.

Dessa vez, porém, existe uma lógica por trás dessa valorização.

Wall Street

Se antes a sua negociação se limitava aos simpatizantes de uma moeda não controlada por governos ou bancos centrais, agora Wall Street, a vilã da crise de 2008 que quase “quebrou” o sistema financeiro internacional, se mostra mais aberta a esse tipo de mercado.

A verdade é que ele cresceu, ainda que possua limitações. A título de exemplo, já existem mais bitcoins em circulação do que dólares canadenses e eles nem mesmo substituem o papel-moeda como meio de pagamento, por mais que empresas como PayPal já contemplem essa possibilidade.

Seu maior apelo estaria na sua escassez, garantida pelo limite de 21 milhões de unidades. Possuindo uma oferta restrita, tal como definido no seu modelo de concepção, funcionaria então como uma proteção contra a inflação, assumindo uma função semelhante ao ouro nas carteiras de investimentos.

Uma vantagem adicional em relação ao metal é a dispensa da sua custódia ou guarda física em cofres, exigindo apenas uma carteira digital e um smartphone. Por outro lado, ao contrário do ouro, seu preço é bastante correlacionado com o mercado de ações (se move na mesma direção), não se esquecendo da sua pouca liquidez (o que causa grande oscilação nas cotações) quando comparado com o mercado financeiro de um modo geral.

Em outras palavras, do mesmo modo que atrai os hedge funds pela sua volatilidade, afasta os fundos de pensão, que temem um risco reputacional irreparável ao se envolverem com algo que diverge de suas políticas de investimento bastante conservadoras.

Diversificação

Apesar de todo um ecossistema criado em torno das criptomoedas, furtos e “quebras” de exchanges (plataformas de negociação) são os motivos mais citados pelos gestores de recursos para passarem ao largo dessa opção.

Mas, em um contexto onde todos os demais ativos estão com os preços nas alturas, reduzindo as possibilidades de ganhos, muitos já acham que o bitcoin pode se transformar em mais um instrumento de diversificação, ainda que em um percentual menor nas carteiras.

Afinal, as coisas caminham para essa direção. A plataforma de negociação Coinbase anunciou planos de abrir o seu capital (IPO). Caso obtenha a autorização para negociar as suas ações em bolsa como uma companhia aberta qualquer, estará se abrindo efetivamente as portas para o lançamento de criptoativos, como os fundos de índice (ETFs) de criptomoedas, por exemplo.

Ao contar com a liquidez e a credibilidade de um mercado regulamentado, a demanda então seria gerada a partir das inúmeras ordens de pequenos investidores, tal como ocorreu com as ações de tecnologia. Assim, a criação de Satoshi Nakamoto finalmente se transformaria em um ativo financeiro.

Dito isso, em que mundo ele estaria entrando?

Ações

Em um ambiente de juros muito baixos, as pessoas adquirem ações pelo simples fato de que qualquer retorno é melhor do que nenhum.

Afinal, ferramentas para se estimar ganhos já existem e a análise fundamentalista é bastante confiável para se avaliar o tipo de retorno que seria esperado em um investimento em ações. Isso é o que demonstra um estudo produzido em 1988 por Robert Shiller, vencedor do prêmio Nobel de Economia de 2013, juntamente com um colega.

Isso se aplicaria inclusive ao cenário atual. De acordo com os dados compilados por Shiller, quanto maior o prazo usado para a análise, mais precisa ela tende a ser dado que “suaviza” o impacto de anos atípicos que, no final das contas, possuem pouca influência no longo prazo.

Limite

Porém, se todos os investidores usassem essa metodologia, talvez os ânimos ficassem mais contidos. Uma vez feitas as contas, eis o que se descobre: nos anos em que as ações estão mais valorizadas do que seria o esperado, o retorno nos anos seguintes tende a ser menor.

Essa relação também é percebida em outros ativos, como os imóveis. Quando o seu valor sobe mais que o seu respectivo aluguel, o resultado é um retorno menor nos anos seguintes ao invés de um aluguel maior. Portanto, é preciso cuidado para não se pagar caro.

Além disso, por melhor que seja, esse modelo não funciona em ativos que não possuem dividendos, juros ou renda, como é o caso do bitcoin. Não havendo um fluxo de retornos futuros a ser mensurado, pode sofrer bastante conforme a percepção de risco entre os agentes (ganância versus medo) se ajusta aos fatos.

Conclusão

Multiplicar as reservas se tornou um desafio muito maior com as baixas taxas de juros. Havendo pouco incentivo para se guardar dinheiro, as pessoas acabam partindo para aplicações mais arriscadas.

Foi exatamente isso o que aconteceu pouco depois que a pandemia começou. Passado o susto, todos investiram em ações de empresas de tecnologia, ainda que houvessem boas companhias pagando dividendos.

Algo parecido pode estar ocorrendo com o bitcoin que, até pouco tempo atrás, era considerado um investimento típico de anarquistas, nerds e entusiastas de sua tecnologia blockchain. Altamente volátil e mantido à margem do mercado financeiro desde a sua criação, está em vias de se tornar o “melhor investimento” da atualidade por pura falta de alternativas.

Tendo a sua oferta limitada, tudo o que ele precisa é de uma demanda grande o suficiente para se valorizar. À medida que grandes fundos de investimento se posicionam, geram o interesse de qualquer pessoa que tenha uma carteira digital e um smartphone exibindo preços astronômicos, decorrentes da volatilidade que um ativo de baixa liquidez possui.

Com um pouco de sorte, poderão criar uma nova classe de ativo e um novo modismo, repetindo o fenômeno das empresas de tecnologia. Profundos conhecedores do mercado que são e cientes de que preços altos limitam os ganhos no futuro, esses gestores profissionais se beneficiam da euforia de indivíduos dispostos a alimentar uma alta sem fundamentos, na expectativa de turbinar seus resultados.

Enquanto todos correm atrás dos melhores retornos, talvez o mais prudente seja apenas continuar no jogo. Fazendo uma analogia à estória do homem que se abaixa para amarrar o tênis quando ele e seu parceiro são vistos por um leão no meio da selva:

“Eu não preciso correr mais que o leão. Eu só preciso correr mais que você.” 

Imagem do autor

Possui MBA em Finanças e LLM em Direito do Mercado Financeiro (ambos pelo Insper/SP). É gestora de uma carteira proprietária, além de ser responsável por um Family Office.

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