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Trígono Capital: intervenção do governo chinês na economia vai acabar favorecendo o Brasil

Pelas condições atuais, bolsa brasileira pode ser destino de investidores a sair da China

Data de publicação:16/12/2021 às 07:00 -
Atualizado 5 meses atrás
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Em carta mensal a seus investidores, a Trígono Capital faz uma ampla e completa análise das conjunturas nacional e internacional, tentando prever os próximos passos nas esferas política, econômica e social e as consequências nos mercados e investimentos.

Entre os destaques internacionais estão: o dólar deve continuar se fortalecendo nos mercados internacionais pela alta dos juros americanos; mercado já precifica três altas dos juros em 2022; a intervenção do governo chinês na economia pode acabar favorecendo o Brasil; reação ao surgimento da ômicron nos mercados globais pode ter sido exagerada

Em relação aos temais nacionais estão; indicações são de que após atingir o pico, inflação no Brasil pode refluir, e juros devem acompanhar; recessão técnica não atinge todos os setores econômicos; eleições deverá interferir no câmbio. Acompanhe o detalhamento de cada um desses itens.

trígono capital
Investidores que hoje estão na China podem migrar para o Brasil

Contexto internacional

No cenário internacional, a gestora destaca a mudança de postura do Fed sobre a transitoriedade da inflação na economia americana. Ela não é mais passageira, admitem as autoridades monetárias. “O que parece é que parte do choque inflacionário é de fato passageira, mas uma parte relevante da variação dos preços não desaparecerá após a normalização das cadeias produtivas”, afirma o documento.

Daí porque o Fed vem trabalhando para diminuir os estímulos monetários mais rapidamente, o que tem feito os ativos que mais se beneficiaram com a alta liquidez, promovida pelos bancos centrais, sofrerem um grande impacto, notadamente as ações de tecnologia e as criptomoedas.

Esse cenário de redução de oferta do dólar e perspectiva de alta de juros no ano que vem pode fortalecer a moeda americana. Segundo a carta, o mercado americano já precifica três altas de juros pelo Fed em 2022, de forma que a manutenção desse patamar de juro real americano bastante negativo, parece cada vez mais insustentável.

“Nós, na Trígono, vemos que a alta do dólar, além de esperada, favorece muitas posições em empresas investidas que se beneficiam desta condição. Além, claro, de ser uma estratégia defensiva contra incertezas de natureza política e fiscal no Brasil – e as eleições estão a caminho, o que poderá intensificar a volatilidade cambial”.

Trígono Capital

Situação das commodities

Petróleo

A Opep, com seus aumentos sucessivos de produção acima do combinado pelo cartel, pressiona o Brent junto com a nova variante ômicron, pontua a carta. Apesar desse fenômeno, boa parte dos analistas internacionais veem o petróleo embicado para cima, dizem que o aumento de produção da Opep pode estar chegando perto do limite “razoável”, comprometendo a oferta, principalmente caso o acordo nuclear com o Irã não chegue a um bom termo.

“Na Trígono, concordamos com essa visão. Mas, devido a questões de ESG, a produção das empresas que atuam fora de Oriente Médio e Rússia deverá crescer abaixo da demanda; no longo prazo, isso se traduzirá em aumento de preços”.

Gás natural

Na Europa, a situação do gás natural permanece dramática: disputas jurídicas entre Rússia e Alemanha mantêm o preço do insumo longe dos patamares minimamente razoáveis. Plantas eletrointensivas param por causa disso. No Reino Unido, o preço do gás mais que quintuplicou, com aumentos dramáticos no custo de calefação e energia elétrica. Tudo isso com o inverno à porta.

Carvão

Na China, o governo tem interferido novamente no setor de carvão, tanto na oferta quanto na demanda, de forma a regular o preço em bandas que considere satisfatórias. O teto de preços foi elevado, embutindo na energia chinesa uma pressão inflacionária.

Nas bolsas globais, a constante interferência do governo de Xi Jinping na economia e na livre competição tem causado uma real fuga de capitais da bolsa local. Ações do Alibaba, das mais importantes no mercado chinês, despencaram mais de 60% em relação ao valor de outubro do ano passado.

Essa interferência maior do governo chinês, segundo os gestores, pode ter vindo para ficar, já que há décadas nenhum líder chinês tinha tanto poder nas mãos quanto Xi. Essa fuga traz oportunidades para o Brasil, que poderá aproveitar a mudança de alocação de grandes portfólios globais e aumentar seu peso nos índices regionais e em mercados emergentes.

Trígono Capital

Pandemia em pauta

Sobre a covid-19, a variante ômicron traz mais preocupações de disfunção nas cadeias globais, principalmente por conta da política chinesa de zero tolerância ao vírus – com lockdowns localizados para conter a disseminação do coronavírus.

Em portos e terminais logísticos isso tem prejudicado muito o escoamento de produtos, e a retenção de containers encarece ainda mais os custos logísticos, com atrasos na movimentação de cargas.

Ainda não se sabe muito sobre a nova variante, exceto que ela já se mostrou mais transmissível que a variante delta – que já era mais transmissível que a variante anterior, alfa. É preciso, claro, ficar atento às pesquisas, mas o alarde inicial parece não ser justificado.

No Brasil

A aprovação, com grande maioria no Senado, da PEC dos precatórios impactou de forma positiva os mercados brasileiros. Mas, ainda que bem maior do que o inicialmente proposto, tal impacto foi menor que o inicialmente precificado pelos juros, com uma queda significativa na curva longa, analisam os especialistas.

“A curva de juros brasileira já precifica a queda da inflação e consequente redução de juros no médio/longo prazo após o ciclo de alta inicial. Eis aí a tão falada inversão da curva – sinal recessivo para a economia”.

Trígono Capital

 O Tesouro Nacional projeta queda constante na relação dívida/PIB a partir de 2022, e os últimos dados da dívida mostram novamente uma evolução inesperada nesse indicador. Vê-se que, de fato, o cenário inflacionário tem causado um impacto mais positivo que o estimado para as contas públicas, tendo o aumento da arrecadação sido bem maior do que os gastos recorrentes.

Já o Banco Central, trabalha com juros reais de 3% sobre a inflação, com meta de 3,5% para 2022 e 3,25% para 2023. Concretizado o centro da meta, teríamos Selic em 6,25% para 2023 – ou seja, 1,5 ponto percentual abaixo dos 7,75% de novembro.

Inflação

Ainda sobre a inflação e suas pressões, é importante pontuar que os reservatórios estão numa situação melhor que a do ano passado, por conta da condução responsável do despacho das usinas térmicas, que têm trabalhado mais de forma a reduzir a pressão sobre os reservatórios, apesar do custo maior para todos os consumidores, traz o relatório da gestora.

Dessa forma, com a queda provável do preço dos combustíveis e da energia elétrica (devido à futura mudança da bandeira tarifária), além da gradual normalização da cadeia produtiva global (com a queda de preços de fretes, aço, chips etc.), o cenário inflacionário brasileiro, após o pico atingido, deve normalizar.

Assim, definido o episódio com a PEC dos precatórios e com o cenário de contas públicas dado, além das surpresas positivas por parte da evolução da dívida, o quadro para a frenagem gradual dos aumentos bruscos de juros parece ser favorável – o que é bom, visto que o Brasil já é o país com maior juro real projetado do mundo atualmente.

Recessão técnica

O alto desemprego nacional também deve ser levado em conta, já que, com a aprovação da independência do Banco Central, sua responsabilidade foi estendida além da clássica – perseguir metas inflacionárias. Com a divulgação do último dado do PIB, o Brasil entra em recessão técnica.

É importante olhar para o cenário de alguns setores à luz desse dado, ressalta a Trígono Capital. A indústria – a automobilística em particular, uma das mais importantes do país – vem sofrendo com falta de insumos. Disso resultou uma demanda não atendida, com filas para compra de veículos que chegam a seis meses, e locadoras deixam de vender e comprar veículos.

O que se observa, olhando para o setor automotivo, não é um país em recessão devido à economia desaquecida, mas sim, desabastecida.

A carta trata de outro choque, que foi a redução do PIB do agronegócio em 9%. Falta de demanda? Não. Falta de apetite para produzir? Também não. Houve, isso sim, uma combinação infeliz de fatores climáticos adversos: estiagem, geadas e incêndios involuntários que atingiram canaviais, com forte impacto na produção de milho – perderam-se 17 milhões de toneladas, ou 16% sobre a safra 20/21, e a produção de cana-de-açúcar na região Centro Sul caiu 13,6%.

Infraestrutura e serviços

Os investimentos na infraestrutura brasileira e a demanda do agronegócio, óleo e gás, menos correlacionados com o resto da economia nacional, deve continuar demandando expansão das indústrias de bens de capital, além da demanda internacional, com destaque para investimentos nos setores de saneamento, energia e ferroviário, que demandarão grande quantidade de máquinas e equipamentos.

Também os setores florestal e de mineração estão atraindo investimentos, devido aos preços no mercado internacional, à taxa de câmbio favorável e à demanda crescente, especialmente de mercados asiáticos. No setor de serviços, a ampla mão de obra disponível permite recuperação relativamente rápida, caso os outros setores privados mostrem força.

Novamente, crédito e juros não ajudam – muitas empresas, principalmente as menores, já estão muito endividadas. A distorção tributária demanda uma reforma, para que o setor se consolide, tal como ocorre com a indústria, e aumente sua produtividade.

Aliás, o setor de serviços é um dos maiores responsáveis pela inflação, dados os efeitos da pandemia nas pequenas e microempresas, em grande parte engajadas em serviços das mais variadas natureza.

Aspectos fiscais e eleições

Mais importante é a dinâmica da política econômica nacional para balizar os cenários fiscal e monetário. A corrida eleitoral poderá influenciar o comportamento do câmbio ao sabor das pesquisas eleitorais, sendo os candidatos de perfil à esquerda os que mais preocupam investidores estrangeiros.

Mas a corrida mal começou: o que temos visto é um aquecimento, sem sequer ainda ter ideia de chapas, candidatos, composições etc. Mas o câmbio funciona na Trígono como proteção pelo fato de grande parte das empresas investidas se beneficiarem de um real mais desvalorizado.

Trígono Capital

A liquidez é sempre inconveniente para todos – exceto os especuladores, enfatizam os gestores. Os investidores estrangeiros entraram com mais de R$ 1,5 bilhão em novembro no mercado secundário, elevando o saldo positivo no ano para R$ 56,2 bilhões – na contramão dos investidores locais, que correm para o abrigo da renda fixa (de olho nos juros).

Renda fixa

A Trígono Capital entende que o ganho é mínimo na renda fixa, abaixo da inflação. Quando a tendência de elevação dos juros se reverter, poderemos ver uma nova corrida para a renda variável – mas aí, os preços poderão estar muito acima.

O famoso market timing acaba quase sempre sendo o avesso. Vender na baixa e comprar na alta, invariavelmente é uma estratégia perdedora. O Brasil pode acabar por se tornar atraente aos estrangeiros, que conhecem nosso país e suas mazelas políticas muito bem, se pensarmos no que ocorre na China: aos olhos de todos, o governo interfere em toda parte no mercado, o que estimula uma saída de capital daquele país.

Bolsa

A assimetria positiva da bolsa brasileira, a B3, segundo a Trígono Capital, com múltiplos muito abaixo do histórico e dos pares de mercados emergentes pode ser a alternativa que o capital saído e saindo da China procura.

Além disso, também têm atraído o investidor estrangeiro os lucros mais do que dobrando em relação a 2020, dividendos atraentes (em muitos casos acima da Selic), como os de Petrobras e Vale, os múltiplos reduzidos (1/3 daqueles nos EUA, por exemplo) e a própria valorização do dólar.

E a perspectiva de elevação nas taxas de juros nos EUA, que poderá arrefecer a alta do mercado (ou mesmo entrar no vermelho). Ao focar nos resultados reais das empresas, e não nos ruídos corriqueiros e constantes ao longo de décadas no mercado brasileiro, o investidor estrangeiro se mostra mais associado aos fundamentos.

Ele não simplesmente “compra” o mercado. O investidor nacional, exposto às constantes mudanças e imerso (e muitas vezes cansado) de tanto ruído, acaba não tendo uma visão pragmática e não vê o sinal claro vindo das empresas, com valores de mercado cada vez mais atrativos.

Sobre o autor
Regina Pitoscia
Editora do Portal Mais Retorno.