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Economia

Banco Central americano vai acelerar retirada de estímulos da economia e pode elevar 3 vezes os juros em 2022

O Federal Reserve já anunciou o início do processo de tapering nos Estados Unidos. Entenda como essa postura do FED afeta o Brasil e os seus investimentos.

Data de publicação:15/12/2021 às 13:51 -
Atualizado 5 meses atrás
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As decisões e sinalizações para a condução da política monetária nos Estados Unidos, a serem seguidas pelo Federal Reserve, o Banco Central americano, vieram em linha com as expectativas dos mercados globais: o processo de retirada de estímulos da economia, feita pela recompra de títulos da dívida pública americana que estão no mercado, será  acelerado a partir de janeiro de 2022, e haverá um ciclo de três altas de juros em 2022.  Ritmo e intensidade vão depender do comportamento da inflação e mercado de trabalho.

Banco Central americano

Prédio do Federal Reserve, em Nova York - Foto: Epicharmus

As diretrizes foram anunciadas logo após o término da reunião do Comitê Federal do Mercado Aberto, o Fomc, na tarde desta quarta-feira, 15. Entre as medidas divulgadas com o objetivo principal de conter a inflação, que está na casa de 6,8% em 12 meses, uma das principais se refere ao tapering, à redução no volume de compra de ativos no mercado da ordem de US$ 30 bilhões por mês.

Atualmente, o programa de estímulos à economia prevê recompra de ativos em total de US$ 120 bilhões por mês, sendo US$ 80 bilhões em títulos do Tesouro (treasuries) e US$ 40 bilhões em títulos atrelados a hipotecas. Em uma primeira etapa, a redução foi de US$ 15 bilhões no total. Haverá uma redução no montante de recompra, que agora passa a ser de US$ 30 bilhões mensais.

O Federal Reserve não mexeu na taxa de juros, o que o mercado já esperava.  A autoridade monetária afirmou que manterá as taxas de juros em 0,25% até que a geração de emprego melhore de fato.

O que é tapering?

Ao longo desses últimos meses, foi comum ler e ouvir no noticiário econômico sobre o "tapering do FED". Essa, afinal, é uma importante decisão que acaba por afetar toda a economia global.

No entanto, apesar da frequência da expressão, nem todo mundo está habituado com o termo. Veja aqui as implicações que envolvem o tapering e quais os impactos que essa situação oferece para os seus investimentos.

Se você usar uma ferramenta de tradução para entender o significado do termo "tapering", encontrará algo como "afunilando" ou "afinando". O exercício vai trazer poucas respostas práticas sobre o momento.

No jargão econômico, o tapering é uma expressão que representa um movimento econômico no qual o banco central dos Estados Unidos, o Federal Reserve (popularmente chamado apenas de FED), reduz os estímulos monetários. Em outras palavras, retira recursos da economia, portanto representa um período de política monetária  contracionista.

Isso é feito, basicamente, com a redução no ritmo de títulos públicos por parte do banco central americano. Essa, afinal, é a forma pela qual o FED pode injetar capital na economia. Portanto, ao optar por uma queda no volume de negociações desses títulos, o Federal Reserve acaba por reduzir também a liquidez.

Esse é um movimento comum em um cenário em que a inflação começa a se elevar nos Estados Unidos. Assim, por meio da redução dos estímulos econômicos, o banco central americano reduz o incentivo ao consumo, tentando amenizar a pressão inflacionária.

Outro mecanismo utilizado para controle da inflação é o aumento das taxas de juros. Esse é um recurso bem comum no Brasil e que já foi iniciado por aqui pelo Copom (Comitê de Política Monetária).

Por que o FED vai acelerar o tapering?

Apesar de ser uma notícia impactante em função da relevância econômica dos Estados Unidos para a cadeia produtiva mundial, o início do processo de tapering já era aguardado assim como o processo de aceleração, anunciado hoje.

Vale lembrar que, desde o começo de 2020, o planeta passou a enfrentar um grave desafio: a pandemia da  covid-19. A alta transmissibilidade do vírus exigiu que muitos países adotassem medidas de isolamento social.

No entanto, do ponto de vista econômico, não basta enviar as pessoas para suas casas. Há todo um impacto na demanda, no emprego e no endividamento da população. Assim, coube ao Fed injetar dinheiro na economia — os incentivos, somados, superam a casa dos trilhões de dólares.

Acontece que, ao promover um forte aumento de liquidez, o governo americano também injetou muita moeda na economia local. E esse capital pode ser utilizado para consumo por parte da população. O movimento acaba gerando um efeito bem conhecido do público brasileiro: a inflação.

Assim, para que a pressão inflacionária não fuja do controle pensando na sua política monetária, o Fed precisa inverter o seu papel. Isto é, ao invés de incentivar a economia, adotar uma postura mais cautelosa. É neste ponto que entra o tapering como mecanismo para controlar a inflação e reduzir o consumo local.

Vale lembrar que o exagero de liquidez promovido por parte do banco central pode levar os países a um cenário de estagflação, que é o nome do ambiente econômico onde há baixo crescimento, mas com inflação elevada.

Como vai funcionar o tapering do FED?

Se o tapering do FED já era esperado, agora já é sabido que começa a ser intensificado a partir de janeiro de 2022. No entanto, os dados elevados do Índice de Preços ao Consumidor (CPI), que é o principal índice inflacionário dos Estados Unidos, trouxeram a necessidade de acelerar o processo.

Vale lembrar que, inicialmente, a postura do Federal Reserve, encabeçada pelo presidente Jerome Powell, era de que a inflação elevada seria um impacto temporário em função da promoção de liquidez. No entanto, a verdade é que a mudança de postura fez com que o FED anunciasse já para o final de novembro de 2021 o início do tapering.

A proposta inicial é uma redução mensal de quinze bilhões de dólares na compra de títulos públicos por parte do banco central americano, sendo dez bilhões de dólares para o mercado de Treasuries e outros cinco bilhões de dólares em hipotecas. Até então, os estímulos monetários estavam na casa de 120 bilhões de dólares mensais.

Há também previsão para elevação das taxas de juros americanas. O patamar deve passar longe dos valores da Taxa Selic, pois trata-se de um país desenvolvido. No entanto, qualquer alteração causa efeitos em todo planeta, em especial para países emergentes, de modo que o tema deve ser monitorado de perto pelo investidor.

Qual é o impacto do tapering do FED para a economia brasileira?

Até aqui, nós já entendemos os motivos pelos quais o FED optou por iniciar o processo de tapering: o controle da pressão inflacionária, que segue forte nos Estados Unidos. Entretanto, qual o impacto desse movimento econômico para o Brasil?

Em primeiro lugar, não podemos nos esquecer de que o nosso país é considerado como emergente e, portanto, mais arriscado. Desta forma, o processo de tapering é preocupante para a nossa economia considerando os seguintes fatores:

  • Quando o FED opta por injetar dinheiro na economia, o estímulo aos investimentos acaba por gerar uma maior aceitação de risco — algo que culmina na busca de países emergentes pelo investidor estrangeiro. Durante o tapering, esse investidor tende a ser mais receoso com o seu capital.
  • O tapering também costuma trazer o aumento da taxa de juros. Esse é outro desafio para países emergentes, pois a remuneração para investir em uma economia bem mais segura (como são os Estados Unidos) se torna mais atrativa. A consequência lógica é a fuga do investidor estrangeiro para mercados mais estáveis.

Essa saída do capital estrangeiro do Brasil impacta outros indicadores também. O câmbio é um ótimo exemplo. Podemos ver o real se depreciar ainda mais em relação ao dólar por conta desse movimento chamado de "fly to quality" (voar para a qualidade).

Importante mencionar que o aumento da taxa de juros americana ainda é uma possibilidade, enquanto por aqui o Banco Central vem elevando fortemente a Taxa Selic. No final de 2021, ela já estava em 9,25% ao ano.

Ou seja, ainda que o cenário se torne mais desafiador para países emergentes, uma elevação significativa dos juros pode manter o país atrativo para o investimento estrangeiro. Para efeito de comparação, ainda que a estabilidade econômica americana seja muito superior, a taxa de juros do FED estava em apenas 0,25% ao ano até a última atualização deste artigo.

Por outro lado, a Taxa Selic elevada é prejudicial para o crescimento econômico brasileiro, que também vem enfrentando um grande desafio no controle da inflação. Com altas taxas de juros, o consumo não é incentivado, algo que se reflete no PIB.

O fato é que ainda é cedo para uma definição sobre o impacto do tapering para os investimentos no Brasil. De qualquer forma, 2022 deve ser um ano desafiador para a nossa economia. E é essencial seguir monitorando as decisões do FED para entender o real efeito da política contracionista americana por aqui.

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