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Sem a Rússia, estrangeiro desembarca no Brasil em busca de ativos ‘estressados’, diz Diego Fonseca, da Jive

Com R$ 8 bilhões sob gestão, gestor especialista em ‘ativos sensíveis’ vê bom momento para o setor

Data de publicação:11/04/2022 às 04:30 -
Atualizado um mês atrás
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Gestora especializada em ativos problemáticos, a Jive Investments vai engrossando a sua carteira de fundos high yeld - de maior risco e com melhor potencial de retorno- em um momento em que o fantasma da crise econômica caminha solto pelo mundo.

Com R$ 8 bilhões administrados, Diego Fonseca, sócio da gestora, diz que o novo repique da inflação (o IPCA alcançou em março o mais alto patamar em 28 anos), associado à alta taxa de juros e à guerra da Rússia, ampliam a prateleira de oportunidades para os investidores.

Diego Fonseca, da Jive: crise econômica é oportunidade para novos fundos 'distressed' - Foto: Torin Zanette/Divulgação

"Esse cenário todo coloca muita pressão no crédito e na capacidade de pagamento, tanto das pessoas físicas, quanto das empresas", diz Fonseca. "Para a gente, isso gera mais oportunidades", afirma o empresário, para quem o investidor internacional está mais interessado nos ativos estressados do Brasil depois que a Rússia foi desconectada do mercado de capitais mundial.

Confira a entrevista exclusiva de Diego Fonseca à Mais Retorno

Cenário desafiador acima do esperado acaba sendo interessante e gerando opotunidades de bons negócios para os gestores.

MR - No final do ano passado, vocês já esperavam por um ano desafiador. Mesmo assim, o tamanho do desafio está surpreendendo. Temos de guerra a repique inflacionário. Como esses cenários impactam no trabalho da Jive?

Diego Fonseca - Para nós, esse cenário acaba sendo muito interessante. Para o Brasil, no cenário macro, já esperávamos uma deterioração, até por conta da famosa PEC dos Precatórios e das atitudes do governo em relação às medidas mais fiscalistas. Mas o cenário que enxergava no ano passado está se materializando ainda mais aceleradamente por conta da guerra. Esse conflito na Europa, de bate pronto, traz uma pressão (nos preços) de algumas linhas de suprimentos, principalmente em relação às commodities. A gente achava que a inflação no Brasil estaria na casa de 4%, 5% neste ano. Mas, fato é que a gente está, agora, com um nível de inflação esperada ainda maior.

MR - A Jive, então, espera por um aumento na oferta de ativos estressados aqui no Brasil?

DF - Sim. Esse cenário todo coloca muita pressão no crédito e na capacidade de pagamento, tanto das pessoas físicas, quanto das empresas. Para a gente, isso gera mais oportunidades. Historicamente, na Jive, os momentos mais recessivos são os que encontramos mais oportunidades para investir. O que a gente faz é justamente comprar ativos (estressados) dos bancos, fazer negócios com empresas e com famílias donas de negócios que precisam de liquidez.

MR - As empresa estão com dificuldade de crédito?

DF - Sim, a gente está com um momento de crédito no qual alguns players encontram dificuldades. As instituições estão segurando novas concessões. Este é um momento em que o mercado também está com menos liquidez disponível. O que é uma oportunidade boa para crédito high yeld.

MR - Nesse momento, o real se valoriza frente ao dólar, ao mesmo tempo que vivemos uma nova pressão inflacionária. Como essa pressão chegará nas empresas?

DF - Alguns setores que têm a sua matéria-prima ligada ao dólar, se o câmbio se mantiver baixo e estável por mais tempo, começam a ter incremento de margem, o que ajuda, inclusive, a compensar a inflação. Mas a pressão inflacionária de commodities, em geral, acaba sendo mais relevante para a maioria das cadeias produtivas.

MR - Como assim?

DF - Você pensa por exemplo no agro, que tem uma exposição aqui na gestora. Por um lado, quem exporta, que é a grande maioria, tem um câmbio menor. Mas, por outro lado, vários produtos exportados pelo agronegócio estão com uma cotação lá fora ainda maior. Então, por enquanto, parece que uma coisa está razoavelmente compensando a outra. Se o câmbio continuar mais baixo por mais tempo, ou seja, estável num novo patamar abaixo de R$ 5, você pode ter mais ganho de margem, que continua para frente. No geral, isso não impacta tanto na nossa tese de recuperação de ativos.

Para Fonseca, da Jive, guerra da Rússia ampliou apetite internacional para ativos do Brasil - Foto: Reprodução

MR - E do ponto de vista de funding? O que muda para o investidor?

DF - Para o investidor individual, para operações de investimento mais longo, eu acho que eles vão querer ficar mais focado nos gestores que têm um track record (histórico) mais estabelecido, vão querer ter uma geração de retorno maior que de fato justifique esse prazo mais longo de investimento. Ele tem um viés mais de focar em quem está de fato gerando alfa, gerando retorno, e já tem um track record sólido para poder demonstrar isso. A gente entende então que gestoras estão fazendo isso há mais tempo e têm esse track record deveriam estar ainda mais na cabeça dos investidores individuais de modo geral.

MR - Sem a Rússia, desligada do mercado de capitais, vocês na Jive notam um volume maior de estrangeiros buscando ativos estressados no Brasil?

DF - Sim. Os grandes investidores institucionais globais têm definido nos seus portfólios um percentual x de alocação em mercados emergentes. Ou para crédito, ou para ativos distressed. Na medida em que eles têm um mercado a menos para investir, que é a Rússia, que entre os emergentes era muito relevante, você sem dúvida tem mais interesse e mais apetite para investir proporcionalmente num mercado como o Brasil. A gente já vê investidores que estavam com o olhar interessado para o Brasil e sentem agora ainda mais apetite. Então, a gente vê, sim, um aumento de apetite dos estrangeiros por investir em mercados como o Brasil.

MR - Esse apetite se mantém mesmo com o Fed (o banco central americano) sinalizando uma alta mais forte nos juros dos Estados Unidos?

DF - Sem dúvida, quando você tem um juro muito alto lá fora e como há muitos anos não via, e estou me referindo a mercados desenvolvidos como Estados Unidos, Europa, Japão e outros, os gestores vão rebalancear o seu portfólio. Eu acredito que para investimentos mais tradicionais em renda fixa ou mesmo em ações, você pode ter um reequilíbrio dessa carteira. E isso porque o gestor tem que fazer a conta de quanto está de fato gerando de alfa, em relação ao juro de referência lá fora. Mas eu acredito que o grande movimento de ativos alternativos, mais de longo prazo, como é o nosso caso aqui na Jive, ele deve continuar.

MR - Os juros americanos podem ir acima de 3% ao ano. O investidor não vai mesmo correr para a renda fixa dos Estados Unidos?

DF - Em nossa cabeça, os juros a 3%, 4%, pode acontecer, mas não estamos vendo acontecer tão rápido. Estamos falando de investimento, aqui, que entrega retorno acima de 20%, 25% ao ano. Naturalmente alguma coisa como a nossa ainda faz muito sentido no portfólio, do ponto de vista de alocação em ativos alternativos. Em resumo, a gente entende que o investidor lá fora vai sempre acompanhar e óbvio vai rebalancear a carteira. Mas é um movimento que é muito mais sentido nos fundos de operações mais tradicionais.

MR - Falando agora sobre os aportes da Jive, qual o setor ou os setores que apresentam mais oportunidades aqui no Brasil neste momento?

DF - A gente tem visto ótimas oportunidades de alocação em vários setores. Há demanda de investimento mais de longo prazo no setor de infraestrutura. Tem muita coisa sendo vendida, concedida ou reestruturada e que precisa de funding. Também vemos oportunidades no setor do agro, inclusive, no setor de fertilizantes. Tem uma demanda nessa área por capital, dado o rompimento de algumas cadeias internacionais de fornecimento. Há espaço também nas área de turismo e mobilidade. As empresas desses dois setores tiveram impactos grandes durante a pandemia. Agora, essas empresas começaram a voltar, vão precisa atualizar ativos, precisam remontar a frota, precisam até de capital de giro para poder atender uma demanda que voltou super forte.

Eu acho que ainda vai ter uma pressão maior provinente desta taxa de juros, tão mais alta. Como esse é um movimento que ainda não fez nem seis meses, o carrego de juro mais alto nos resultados e nos balanço das empresas vai começar a aparecer.

MR - As empresas podem não ter caixa para pagar as dívidas?

DF - Sim, é uma preocupação com a margem das empresas, quanto elas vão conseguir pagar de suas dívidas… Entendemos que esse é um cenário que começa a ficar mais claro provavelmente a partir do segundo semestre de 2022. Vamos lembrar que muita gente tomou muita dívida durante a pandemia, quando os juros estavam super baratos, e agora vai ter que reestruturar isso ou dar um jeito de pagar. E, para muitas empresas, vai faltar capital.

MR - Um setor que é muito sensível a isso é o imobiliário. Aliás, a Jive falou no final do ano passado sobre um movimento, ainda pequeno, mas já visível de projetos que não encontravam compradores, assim como compradores que não conseguiam arcar com os custos dos contratos. Como esse cenário vem evoluindo em 2022?

DF - É preciso tomar muito cuidado para falar sobre isso. A gente entende que tem uma pressão nesse mercado super grande. E, em nossa visão, infelizmente, ainda vai ter um tempo mais difícil para o setor daqui para frente.

MR - Por que isso?

DF - Por que existiu uma pressão super forte de custos na construção, especialmente para quem comprou imóveis na planta. Já houve um impacto da inflação no INCC (Índice Nacional de Custo da Construção) durante a pandemia. E isso está voltando agora, por conta dos aumentos do preço das commodities metálicas, e um pouco também de aumento no preço de mão de obra. Na prática, como teve muito lançamento imobiliário, especialmente em grandes capitais brasileiras, e isso motivado por juros super baixos e uma oferta grande de crédito imobiliário, muita venda aconteceu. Vai ter muita entrega de empreendimentos residenciais para o final de 2022, 2023 e 2024. Alguns compradores, em nossa visão, terão de devolver esses imóveis (para a incorporadora). O juro para financiar este imóvel agora subiu, todos os bancos reajustaram e a parcela (do financiamento) ficou maior. Então, a gente vê uma pressão de custo grande, um juro grande. Nas entregas das chaves, agora, desses apartamentos residenciais, vai ter esse impacto maior.

MR - Isso você já vê acontecendo agora?

DF - Ainda não é tão relevante. Honestamente, o que a gente tem investido aqui é de problemas de incorporadores e empreendimentos lá de trás, de 2015, 2016.

MR - No ano passado, seu sócio Guilherme Ferreira disse que planejava levantar R$ 1,4 bilhões para um novo fundo neste ano. Como é que está esse novo fundo?

DF - A gente tem essa perspectiva. Sempre que chegamos próximos do final de um fundo, e estamos buscando concluir o nosso 'fundo 3' agora no primeiro semestre, nos preparamos para lançar o próximo fundo. É esperado que no segundo semestre de 2022 a gente venha a fazer esse lançamento, sim.
Nosso 'fundo 3' é o principal fundo hoje da gestora, com R$ 4 bilhões no total e a gente já chamou 75% do capital. Têm ativos de crédito estressado, ativos judiciais, ativos imobiliários distressed. É voltado para o investidor profissional e institucional. Aproximadamente 40% são investidores estrangeiros e 60% são investidores locais.

MR - A XP comprou, no ano passado, uma parcela da Jive e, desde então, vocês começam a buscar também investidores do varejo. O primeiro lançamento para esse mercado foi o Fundo Bossa Nova, que contou com uma captação relâmpago. Vocês pretendem reabrir esse fundo para nova captação?

DF - Foi um sucesso. A gente fez a captação do Bossa Nova em praticamente duas semanas. A gente se propôs a captar R$ 300 milhões e foi muito rápido. O fundo tem, na verdade, um patrimônio total de R$ 350 milhões, porque investimos R$ 50 milhões da própria gestora como seed money. Ele começou a rodar para o investidor ali no comecinho de fevereiro. A nossa ideia é voltar a captar para o fundo provavelmente no final do primeiro semestre. Isso, quando a gente tiver terminado de alocar o capital.

MR - E o que mais vai chegar dessa safra?

DF - Estamos estruturando um fundo de previdência agora. Ele, obviamente, tem algumas limitações regulatórias, que a gente pode investir ou não, mas vai ser focado em ativos de crédito. Também vamos buscar um nível de rentabilidade high yeld. Queremos entregar um produto com uma rentabilidade acima dos produtos de renda fixa tradicionais de previdência.

MR - Para ser lançado quando?

DF - A gente espera que agora no final de abril ele seja lançado ao mercado.

Sobre o autor
Renato Jakitas
Editor-chefe do Portal Mais Retorno.