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Economia

2008 versus 2022: de Wall Street ao smartphone, onde está o risco?

Com alta dos juros, risco tende a ser maior para pequenos investidores que compram ativos, ações e ETFs

Data de publicação:15/02/2022 às 00:30 -
Atualizado 3 meses atrás
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Embora muitos não saibam, a verdade é que no mercado financeiro todos estão conectados ao mesmo sistema.  Um devedor em uma posição pode muito bem ser credor em outra, de forma que seus participantes avaliam os seus riscos no conjunto em vez de olhar cada um individualmente. Dentro do cenário de 2022, com quem estaria o risco?

À medida que a capacidade de processamento dos computadores se tornou maior e mais barata, novos instrumentos financeiros foram criados dentro desse mesmo sistema, permitindo que a alavancagem fosse compartilhada por um número maior de agentes.

Consequentemente, o papel do mercado financeiro cresceu, abarcando uma parcela maior da economia.   

risco 2022
Alavancagem é compartilhada por número maior de agentes e pequeno investidor pode ter de pagar a conta - Foto: Envato

Risco 2008

Ao longo da história, a inovação financeira sempre ocorreu nos períodos de pouca regulamentação. 

Como benefício, produtos financeiros que se acomodavam às circunstâncias e necessidades econômicas.  Como problema, os conflitos de interesse que surgiam no seu processo de desenvolvimento e distribuição, característica mais relacionada às pessoas do que às finanças propriamente ditas.

Não era segredo que os bancos se utilizavam de incentivos bastante agressivos, o que fazia com que as metas estabelecidas no curto prazo levassem a práticas que inevitavelmente deixavam a conta para os investidores ou, no pior dos casos, para os contribuintes.

Cíclico

A alavancagem possui uma natureza cíclica.  Como os ativos financeiros crescem mais nos anos de pujança, as instituições financeiras encontram poucas dificuldades para emprestar em proporções cada vez maiores, o que explica o crash que veio depois.

Desde a década de 70 que ela se tornou mais comum: mais dívidas compravam mais ativos que, ao se tornarem mais valiosos, garantiam novas dívidas.  Isso costuma funcionar bem até o mercado ficar sem novos compradores.

Ao contrário de outros setores da economia, onde preços menores atraem novos consumidores, no caso de ativos financeiros, preços mais baixos reduzem o seu valor como garantia, o que obriga os agentes a vendê-los para reduzir o risco de suas carteiras.

A partir do momento em que todos começam a fazer o mesmo, não é difícil de se imaginar os estragos.

Socorro

Com a crise instalada, os principais banqueiros centrais do mundo foram chamados para agir.  Inicialmente, haviam dúvidas sobre o tipo de socorro necessário.  Enquanto os EUA esperavam um colapso, os demais estavam preocupados com a inflação.

O impacto foi tão grande que o dólar se desvalorizou para seu ponto mais baixo desde que as moedas abandonaram a paridade fixa, em 1973, causando um salto nos preços das commodities, cotadas internacionalmente e cuja oferta depende de altos investimentos para se estabilizar.   

Embora os reflexos dessa disparada de preços precisassem ser controlados, o Federal Reserve (Fed) era o único banco central que tinha um mandato duplo (estabilidade de preços e pleno emprego). 

Enquanto tentava evitar uma recessão, decorrente de um ambiente onde casas valiam cada vez menos, o crédito era menos farto, alimentos e combustíveis tinham se tornado mais caros e as oportunidades de trabalho mais escassas, os alemães, bastante influentes junto ao Banco Central Europeu (BCE), temiam a hiperinflação.

Risco 2022

Por mais que os banqueiros centrais estejam às voltas com uma nova realidade de inflação alta, o mercado financeiro não é mais o mesmo de 2008.  Mudanças na regulamentação e a tecnologia criaram um sistema diferente:

  • Regras mais rígidas inibiram a tomada de risco pelos bancos;
  • Fintechs permitiram a negociação de ativos a custo zero, além de criarem algoritmos para a tomada de decisão.

Os bancos, desprezados pelo movimento Occupy Wall Street, cederam a vez (e os riscos) para outros agentes privados e para uma infinidade de pequenos investidores que compram, entre outros ativos, ações e Exchange Traded Funds (ETFs).

Dada a necessidade de se elevar os juros, estariam eles preparados para uma correção nos mercados?

Bolha social

Robert Shiller, que ganhou o prêmio Nobel de Economia em 2013, conhece bem o funcionamento das bolhas financeiras.  Fazendo uma comparação com a grande depressão de 1929, ele diz que, naquela época, havia muita empolgação em torno do mercado financeiro.

Considerando os tempos atuais, é fato que GameStop e Nikola são frutos das redes sociais, algo que começou como um entretenimento e que hoje influencia as decisões de investimento.  Como resultado, as limitações em se avaliar corretamente os riscos.

Não por outro motivo, a crença generalizada de que se deve comprar ativos na baixa, mesmo quando ainda estão muito caros. 

Má qualidade

Em um ciclo de aumento de juros, ativos “ruins”, que muitas vezes não passam de modismos, sofrem mais.  Dito isso, o que realmente importa agora é o quanto os agentes que hoje participam do mercado aguentam enquanto os excessos são eliminados do sistema.

Já faz algum tempo que os bancos se desfizeram de seus estoques de ativos, impossibilitando que provenham liquidez.  Adicionalmente, registram as suas operações de derivativos junto às clearings, as mesmas que atendem fintechs como a Robinhood, obrigada a suspender os seus negócios no ano passado.

Conclusão

Durante a crise de 2008, os principais banqueiros centrais do mundo visavam dois objetivos:

  1. Fixar taxas de juros mais condizentes com uma economia saudável;
  2. Endereçar o moral hazard.    

Atualmente, mesmo com uma coordenação maior, esses objetivos se tornaram antagônicos: ao elevar os juros para controlar a inflação, podem forçar uma correção excessiva, impactando um grupo maior de pessoas, atendidas por fintechs menos reguladas.

Pouco mais de uma década depois, o foco deixou os bancos e se espalhou para outros lugares.  Dada a implementação da “regra de Volcker”, esses agentes deixaram de negociar por conta própria.  Desde então, passaram a funcionar como meros provedores de serviços, recebendo taxas e comissões daqueles que surfam na alta liquidez dos mercados.

Hoje, todos possuem as suas carteiras de investimentos, sendo que a maioria dos ativos sequer conta com mecanismos como o Fundo Garantidor de Créditos (FGC)

Conforme os preços se ajustam à nova realidade, é fato que não haverá nenhum banqueiro central para salvar a legião de pequenos investidores que se recusa a enxergar que a festa dos juros baixos no mundo pode acabar a qualquer momento.

O risco não está mais em Wall Street.  Ele está no smartphone de cada um.

Sobre o autor
Nohad Harati
Possui MBA em Finanças e LLM em Direito do Mercado Financeiro (ambos pelo Insper/SP). É gestora de uma carteira proprietária, além de ser responsável por um Family Office.