Mercado Financeiro

As origens de um family office podem variar, abarcando os seguintes grupos: uma família que decide abrir o capital de sua empresa, um empreendedor que enriquece com a internet ou até mesmo um gestor de um hedge fund que resolve administrar o seu próprio dinheiro.

Apesar de todos terem a gestão profissional de recursos financeiros como objetivo, seu modo de atuação é distinto.  No caso da família que monetiza a sua empresa, ela visa essencialmente perpetuar a riqueza para as próximas gerações.  Trata-se do conceito mais tradicional de um family office.

Bill Hwang
Bill Hwang, presidente da Archegos Capital Management, responsável pela venda forçada de ações que sacudiu bancos de peso na Europa e no Japão - Foto: Divulgação

Já quando a fortuna pertence a um empreendedor digital, ela é direcionada para uma participação maior no ecossistema da internet, algo que ele conhece bem e que pode inclusive contribuir como mentor.  Para esse tipo de investidor, a estratégia é ganhar com os negócios que podem surgir a partir da inovação.  Venture Capital (VC) e capital semente são os principais destinos, sendo que os prejuízos fazem parte do jogo.

No último grupo, estão os que ganharam dinheiro aplicando os recursos de terceiros.  Trata-se da elite dos hedge funds, especialistas em explorar a volatilidade dos preços.  Para eles, não importa a direção dos mercados, desde que se encontre as suas ineficiências.  Dito de outra forma, é a busca pelo “retorno absoluto”.

Diferentemente dos demais, é esse grupo que encabeça as notícias do mercado financeiro.

Archegos Capital Management

Muitos já ouviram falar de George Soros, mas poucos conhecem Bill Hwang, gestor responsável pela venda forçada de US$ 20 bilhões em ações que arrastou bancos de peso como Credit Suisse (Europa) e Nomura (Japão). 

Hwang é um “tiger cub” (filhote de tigre) da Tiger Management, lendária gestora de Julian Robertson.  Especializado em mercados asiáticos, Hwang resolveu aplicar os conhecimentos adquiridos a partir da década de 90 no seu próprio family office, cujo nome é Archegos Capital Management.

A estratégia da Archegos é bastante conhecida (“long-short”).  Ela nada mais é do que a compra de determinadas ações e a venda de outras, de forma que se possa auferir um ganho independentemente se o mercado é de alta ou baixa.  Apesar de funcionar bem dentro dos cenários previstos, apresenta problemas naqueles pouco prováveis (os “cisnes negros”), como uma pandemia.

Isso é agravado pelo fato de que os agentes financeiros nem sempre estão cientes de todos os riscos aos quais estão expostos.  Dado o seu porte, Hwang opera no mercado de balcão, fora das bolsas, o que lhe permite deter grandes participações em companhias abertas sem a obrigação de divulga-las (qualquer participação acima de 5% precisa ser comunicada, inclusive no Brasil).

Alavancagem

Para pessoas com experiência no mercado financeiro, é bastante comum que mantenham os seus vínculos profissionais quando iniciam os seus próprios negócios.  Com isso, conseguem financiamento e facilidades, inacessíveis aos demais investidores.  No caso da Archegos, as corretoras não só executam as suas ordens de compra e de venda, mas também atuam como corretoras primárias, emprestando dinheiro e ativos.

Com uma carteira alavancada, abarrotada de ações americanas e chinesas, bastou uma única empresa para desencadear a sequência de eventos que veio depois.  A desvalorização das ações da companhia de mídia ViacomCBS levou a uma chamada de margem que, não atendida, gerou a liquidação de posições do fundo entre várias instituições financeiras ao redor do mundo.

Os americanos do Goldman Sachs e do Morgan Stanley foram mais ágeis, deixando para os demais (Credit Suisse e Nomura) perdas bilionárias.  No caso do Nomura especificamente, as perdas foram estimadas em US$ 2 bi, o que fez com que as suas ações caíssem 16% em um único dia.

Regra de Volcker

Qual o motivo dessas operações tão arriscadas, considerando que se trata de instituições de primeira linha localizadas nos maiores e mais líquidos mercados do mundo?  A verdade é que a vida ficou mais difícil para elas.  Desde a crise de 2008 que estão impossibilitadas de negociar por conta própria (“regra de Volcker”), limitando bastante os seus ganhos. 

Para compensar a diferença, atuam em arranjos semelhantes à Archegos, recebendo em troca taxas de serviço e comissões.  Com a pandemia, isso ganhou proporções colossais, conforme os bancos deixaram de atuar no crédito, mais diretamente relacionado com a economia real, para focar no dinâmico e rentável mercado financeiro.

Long-Term Capital Management

O family office de Hwang não é um caso isolado.  Olhando para o passado, não é difícil traçar um paralelo com o Long-Term Capital Management (LTCM). 

Socorrido por um plano coordenado pelo Federal Reserve (Fed) em 1998, ele também operava altamente alavancado por conta da constelação de talentos por trás dele: um trader profissional de renome (John Meriwether) e dois economistas (Robert Merton e Myron Scholes) vencedores do prêmio Nobel de Economia e responsáveis pelo desenvolvimento do modelo de precificação de opções, juntamente com Fischer Black (modelo “Black and Scholes”).

O que esse grupo de gênios fazia era vasculhar pares de ativos que apresentavam diferenças entre eles.  Ao identificar um par, o ativo mais caro era vendido enquanto o mais barato era comprado.  Conforme a diferença se estreitava, o fundo ganhava nas duas pontas.  Muitas vezes, essa diferença era de alguns centavos mas, dada a sua alavancagem, o fundo foi capaz de explorar, no seu auge, 38.000 pares de ativos cujos preços estavam desalinhados. 

Bastou a Rússia deixar de honrar a sua dívida em 1998 para que todos percebessem o castelo de cartas que tinham construído.  O socorro veio de uma constatação óbvia: o fundo tinha posições tão grandes que desfazê-las criava uma disparidade ainda maior entre os pares de ativos, aumentando o seu risco de calote.

Conclusão

Os escritórios de gestão de fortunas familiares são o resultado de um mercado financeiro cada vez mais sofisticado e integrado.  Apesar de não seguirem um padrão, possuem por objetivo a alocação profissional de recursos financeiros.

Isso quer dizer que podem tanto investir em setores tradicionais, como naqueles ligados aos negócios da internet.  Porém, nenhum deles causa tanto impacto nos mercados globais como os family offices administrados por gestores que fizeram fortuna via hedge funds.

Trata-se de um grupo que conhece como ninguém as portas secretas das instituições financeiras, o que lhe permite montar estratégias rentáveis tanto para si como para os bancos com os quais fecham negócios, numa estrutura inacessível para a grande maioria dos investidores.

O que a Archegos e outros casos semelhantes mostram é que até as cabeças mais brilhantes e experientes falham pois o imponderável sempre bate à porta.  Para aqueles seduzidos pelas possibilidades da alavancagem, vale prestar atenção ao que diz um de seus pioneiros:     

“Ganhamos uma barbaridade antes que alguém soubesse algo sobre vendas a descoberto. Era quase uma licença para roubar. Hoje em dia, é uma licença para ser roubado.” Julian Robertson - Gestor da Tiger Management.

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Possui MBA em Finanças e LLM em Direito do Mercado Financeiro (ambos pelo Insper/SP). É gestora de uma carteira proprietária, além de ser responsável por um Family Office.

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