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Por que as criptomoedas Terra e Luna derreteram?

No começo de maio, as moedas digitais despencaram, valendo menos que um centavo

Data de publicação:16/05/2022 às 09:03 -
Atualizado 2 meses atrás
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As criptomoedas ainda dividem opiniões no contexto do mercado financeiro. Existem os amantes dos ativos com altíssima rentabilidade, enquanto que outros investidores, mais céticos, defendem que se trata de uma bolha. Casos que justificam as duas visões aparecem semana após semana.

Critpomoeda Terra, com o ticker Luna, perdeu quase todo o seu valor em apenas uma semana - Foto: Reprodução

Em maio de 2022, um episódio deu força aos críticos dos ativos digitais. A criptomoeda Terra, negociada com o ticker LUNA no mercado financeiro, em apenas sete dias, derreteu e perdeu praticamente todo o seu valor entre os investidores.

A verdade é que não podemos generalizar as criptomoedas, pois existem bons e maus projetos. No entanto, e nesse caso da LUNA? Esse derretimento faz sentido ou é apenas um pânico de mercado? É o que vamos tentar explicar no artigo de hoje.

O que é a criptomoeda Terra (LUNA)?

O projeto da LUNA é, de fato, interessante. Assim como o bitcoin, a Terra é uma criptomoeda que visa ser um método de pagamento digital, mas que tinha como essência a redução de um dos grandes problemas desse mercado: a alta volatilidade. Essa característica, afinal, traz uma maior incerteza sobre o valor do ativo.

Com essa preocupação, a Terra foi lançada com um modelo de blockchain que reunia moedas tradicionais em sua cesta — casos de dólar, euro e do yuan, moeda chinesa. Dessa forma, era possível gerar uma maior estabilidade para o valor desse ativo em relação a outros projetos de criptomoedas.

Inicialmente, a proposta foi muito bem assimilada pelos investidores. Em 2021, por exemplo, a LUNA esteve entre os destaques de rentabilidade, crescendo mais de 10.000%, mesmo em um período de desvalorização do bitcoin. A valorização colocou a criptomoeda Terra entre os dez ativos digitais com maior valor de mercado.

Poucos meses depois, entretanto, em apenas uma semana, o preço da LUNA despencou e o projeto praticamente virou pó. O que aconteceu com uma proposta tão promissora?

Como funciona a dinâmica da Terra (LUNA)?

Para entender os efeitos da criptomoeda Terra, precisamos primeiramente compreender a sua dinâmica prática. A LUNA, afinal, pertence ao grupo das stablecoins — as moedas digitais com lastro em alguma moeda tradicional, em especial o dólar.

Assim, foi criado o mecanismo de TerraUSD (UST), que representaria a equivalência entre a LUNA e o dólar. Isto é, garantir a paridade entre os dois ativos no mercado financeiro. Para isso, é necessário queimar uma unidade de LUNA para adquirir dólar, mantendo essa relação.

O processo é, inclusive, saudável. Afinal, a queima da moeda digital reduz a sua quantidade no mercado. E, desde sempre, a relação entre oferta e demanda nos diz que há valorização de ativos em menor quantidade no mercado desde que, obviamente, existam pessoas interessadas em comprá-los.

Em resumo, essa era a dinâmica de funcionamento estabelecida para a Terra:

  • Se a UST valorizasse acima de um dólar, unidades de LUNA eram queimadas para recuperar a equivalência.
  • Caso a UST se desvalorizasse em relação ao dólar, novas LUNAs eram emitidas, com o mesmo objetivo de manter a paridade da criptomoeda.

O que aconteceu com a LUNA?

Durante muito tempo, toda essa dinâmica da Terra funcionou muito bem. Além de todo destaque de valorização em 2021, a criptomoeda vinha com uma performance normal durante este ano, com oscilações naturais para um ativo digital. Veja no gráfico abaixo, retirado com CoinMarketCap, como, até o final de abril, não há qualquer sinal de problema com a LUNA.

Fonte: CoinMarketCap

No entanto, em apenas sete dias, a LUNA entrou em colapso. No dia 6 de maio, a moeda chegou a estar precificada em R$399,75. Seis dias depois, no entanto, o mesmo ativo estava cotado abaixo de R$0,01. Surreal, não é mesmo? O que levou a LUNA virar pó em menos de uma semana?

Fonte: CoinMarketCap

Segundo especialistas do mercado de criptomoedas, foram dois fatores em conjunto que destruíram o resultado da Terra. O primeiro deles foi uma emissão exagerada de LUNA com o objetivo de manter a paridade com o dólar.

Ao mesmo tempo, houve uma forte pressão vendedora do ativo, com investidores se desfazendo das suas posições. Em parte, esse movimento se deu pelo pânico no mercado: ao ver o preço caindo, muitos proprietários da Terra optaram por vender o ativo antes que ela caísse ainda mais.

Esse cenário acabou por destruir o preço da criptomoeda. Afinal, com o excesso de LUNAs no mercado (oferta elevada) e poucos investidores interessados em comprá-la (demanda), o efeito natural é de desvalorização. Foi exatamente o que aconteceu.

Consequências do derretimento da LUNA

Os efeitos dessa queda significativa do ativo digital afetou todo mercado de criptomoedas. O próprio bitcoin, por exemplo, caiu mais de 15% no mesmo período, muito como um reflexo negativo do projeto Terra ter virado pó. A desvalorização da ethereum, outra moeda consolidada atualmente, superou a casa de 20%.

É natural que, em meio ao pânico, investidores passem a se preocupar se o mesmo não pode acontecer com outras criptomoedas. Ainda que os projetos não tenham qualquer relação entre si, há uma associação direta por parte dos usuários, em especial aqueles que investem de maneira especulativa, sem entender os fundamentos da moeda.

Até mesmo as corretoras de ativos digitais foram impactadas por esse movimento. A Binance, uma das maiores empresas do segmento, congelou a negociação da paridade entre a LUNA e o dólar. Os usuários tiveram que recorrer a outras plataformas de criptoativos, como a Crypto.com, por exemplo.

Diante desse cenário caótico, não houve outra opção aos proprietários da plataforma Terra que não fosse o seu desligamento — os seus criadores, entretanto, já se posicionaram contra a medida, dizendo que o ideal seria queimar LUNAs em excesso no mercado. O futuro desse projeto ainda é incerto.

Afinal, as criptomoedas são uma bolha?

O episódio envolvendo o projeto Terra acabam por retomar uma discussão recorrente sobre o mercado de criptomoedas e a sua confiabilidade. Afinal, ao contrário de empresas da Bolsa de Valores, as moedas não geram caixa ou possuem lastros reais. No entanto, é preciso cuidado com as conclusões precipitadas.

Em primeiro lugar, o efeito devastador da LUNA tem uma relação direta com um erro de algoritmo, que não previu um movimento duplo entre ajuste de dólar e a venda massiva dos ativos pelos investidores.

Essa não é a mesma estrutura de todos os projetos, de modo que outras moedas digitais possuem uma dinâmica de funcionamento bem diferente.

Ao mesmo tempo, é uma boa oportunidade de relembrar aos investidores que há sim um entusiasmo excessivo em alguns projetos e, principalmente, que ativos digitais possuem uma volatilidade bem elevada.

Portanto, antes de investir nesse segmento, é extremamente importante realizar uma boa análise sobre os fundamentos de cada criptomoeda e ajustar a exposição ao próprio perfil de risco.

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Sobre o autor
Stéfano Bozza
Formado em Administração pela PUC-SP. Trabalhou em empresas do segmento financeiro (Itaú BBA) e varejo (BRMALLS) até 2016, quando iniciou a jornada de produção de conteúdo para a internet com foco em finanças.