Economia

Há um ano, ao se prever como seria o ano de 2020, algumas coisas pareciam consenso:

Para o país deslanchar, reformas, como a administrativa e tributária, estavam sendo contempladas.

No cenário internacional, a expectativa era de um crescimento global menor, por conta da:

Apesar da pandemia ter mudado tudo o que veio depois, essas previsões de certa forma se confirmaram. Nossas reformas ainda estão em tramitação e o crescimento global despencou.

Para 2021, o exercício de “futurologia” é mais complexo. Ao invés de 3 cenários (otimista, neutro e pessimista), o que temos são 4, todos igualmente prováveis no curto prazo:

Fonte: XP Investimentos 

Para cada quadrante, um grupo de ativos mais adequado:

Para o investidor mais sensato, não se trata de escolher um quadrante e apostar todas as fichas nele.

Assim, apesar da complexidade maior, ainda são válidas as mesmas recomendações de diversificação do ano passado, mas com um complemento: ajustar a carteira ao longo do tempo, conforme a realidade troca de cor.

Até o momento, o mundo todo funcionou com estímulos extraordinários, algo que começará a mudar no ano que vem.

Renda fixa

O juro real no Brasil já se encontra em território negativo (-1,17%), algo impensável para quem conhece bem a história do Brasil.

Dito isso, a Selic para 2021 dependerá essencialmente da:

Teto de gastos

No mercado de juros, toda vez que os agentes financeiros percebem que o controle das contas públicas está comprometido, há uma sinalização desse desconforto, seja pela inclinação da curva, seja pela redução do prazo e/ou volume de papéis colocados no mercado.

Esse descontrole não necessariamente é decorrente de ruídos vindos de Brasília, mas de características do próprio orçamento do governo. A indexação é uma delas. As despesas obrigatórias não só crescem por conta dos reajustes previstos na Constituição, como também são atualizadas por índices diferentes daquele que se aplica ao teto de gastos.

Portanto, há um descasamento de taxas e as despesas, crescendo em velocidade maior, pressionam o teto de gastos. Entre as alternativas para solucionar o problema, as reformas. A Reforma da Previdência foi aprovada em 2019, mas as demais ainda estão em tramitação.

Esse quadro se agravou com a chegada da pandemia. O Brasil foi bastante ousado nos estímulos fiscais, perdendo apenas para o Chile entre os países emergentes. Muito mais endividado, inclusive frente aos seus pares, o país agora se encontra com praticamente nenhuma margem de manobra caso surjam outras dificuldades.

A percepção desse risco se reflete nos papéis públicos e privados.

Selic

A partir do segundo semestre, haverá uma elevação na taxa de juros, conforme a economia se recupera:

Fonte: XP Investimentos

Além disso, os efeitos da desvalorização do câmbio, do aumento das commodities e do descompasso entre oferta e demanda, refletidos no índice de inflação:

Fonte: XP Investimentos 

No que diz respeito ao Tesouro Direto, os papéis mais beneficiados são:

No caso dos papéis privados, o ambiente favorecerá a liquidez. Ao longo do ano, empresas de capital aberto poderão se refinanciar via:

Ao investidor, caberá decidir entre a garantia do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), oferecida pelos bancos, e a sua capacidade de avaliar títulos de crédito privado.

Mesmo tendo poucos atrativos, a renda fixa ainda é o principal destino para os recursos de curto prazo. Como a pandemia deixou bastante óbvio, se saiu melhor quem tinha reservas.

Multimercados

Dez em cada dez recomendações de investimentos incluem os fundos multimercados nas carteiras. O motivo não é difícil de entender: possuindo bastante flexibilidade, eles diversificam e, ao mesmo tempo, aproveitam oportunidades por conta de sua gestão ativa.

Os mais simples são estruturados como fundo de fundos (FOF), onde um gestor seleciona cotas de outros fundos que, de uma forma ou de outra, se destacam em um determinado mercado.

Com variados graus de volatilidade (oscilação da cota) e prazos para resgate, os principais fundos multimercados estão distribuídos entre:

Novas opções estão previstas para o ano que vem, dado que a instrução CVM 555, que regula os fundos de investimento, está em audiência pública para acolher sugestões do mercado. Entre os temas em discussão, a possibilidade de pessoas físicas investirem em fundos que alocam 100% de seus recursos no exterior.

Fundos imobiliários

Contando com mais de 1 milhão de investidores pessoa física, a indústria de fundos imobiliários continua se aperfeiçoando e criando novas categorias.

Recentemente, foi lançado o primeiro ETF do índice de fundos imobiliários IFIX, dando acesso a 81 fundos com diversos ativos. Além das vantagens do ETF (baixo custo, diversificação e simplicidade), esse instrumento reaplica no próprio índice todos os dividendos distribuídos mensalmente, complementando sua valorização.

Outra novidade é a possibilidade de se alugar cotas de fundos imobiliários. Trata-se da terceira fonte de ganhos, além dos dividendos e do ganho de capital. Quando o investidor as aluga, ele recebe uma taxa da sua contraparte (normalmente um fundo que está apostando na queda dos preços).

Isso pode ser feito tanto com cotas de um fundo imobiliário como com cotas de um ETF, que tendem a ser mais líquidas.

Renda variável

Com uma dinâmica mais favorável ao crescimento, chegou o momento da rotação das carteiras.

Para quem busca apenas uma exposição à renda variável, o ETF do Ibovespa continua fazendo sentido.

Já para os que querem focar em teses de investimentos, os fundos de ações, cada vez mais sofisticados, atendem bem desde que o investidor entenda a sua gestão como também os riscos associados.

De um modo geral, as melhores oportunidades estarão entre as empresas mais descontadas, inclusive frente aos seus pares, e que detenham porte relevante. Considerando os mais variados setores, eis os fatores que devem ser levados em conta para uma boa escolha:

Alimentos e bebidas

Onde se observou os maiores aumentos de preços. As empresas com maior capacidade de recomposição de margens e que tenham ocupado espaço frente às concorrentes serão beneficiadas.

Financeiro

Com a redução das incertezas, os bancos podem focar nas operações de crédito mais rentáveis.

Instituições com provisões mais conservadoras e que efetuaram os maiores ajustes em seus custos, reduzindo agências físicas e digitalizando serviços, devem ser priorizadas nas carteiras. Elas serão as primeiras a responder à retomada econômica, favorecendo o retorno da distribuição de dividendos.

Varejo

Hoje existe uma grande dúvida se a população retomará os velhos hábitos uma vez que não haja mais restrições à circulação de pessoas. No que diz respeito ao varejo, ganham as empresas que:

Algumas evidências indicam que a digitalização que ocorreria em 5 anos foi antecipada em menos de 1 ano. Dito isso, é pouco provável que a mesma magnitude se repita, o que leva a uma certa cautela em relação às empresas 100% online.

Elétrico

É um dos primeiros setores a acompanhar o crescimento econômico. Atualmente, as geradoras com projetos de energia renovável são as mais promissoras, dado que investem em novas tecnologias e, ao mesmo tempo, se preparam para uma regulamentação ambiental mais rigorosa.

Entretanto, como oportunidade de investimento, os Fundos de Investimento em Participações (FIPs), citados mais à frente, possuem mais vantagens.

Commodities

O setor de petróleo é uma das grandes incógnitas para os próximos anos. Com a digitalização tomando conta de todos os aspectos da vida das pessoas, existe uma necessidade menor de deslocamento e, portanto, de combustíveis. Por conta disso, acredita-se que a demanda por petróleo alcançará o seu pico já nos próximos anos.

Além disso, desde 2018 que os EUA é o maior produtor de petróleo do mundo, graças ao xisto. Se antes havia a vantagem da flexibilidade na produção por meio dessa tecnologia de extração, seu novo presidente pretende gerar o crescimento sem ela (mais sobre esse tema adiante).

Para o minério de ferro, basta observar os dados da China. Apesar da economia chinesa possuir uma grande capacidade industrial, mudanças estruturais em relação às cadeias globais de produção serão definidas com base em 2 critérios:

Nesse ínterim, alguns pontos de atenção em relação à economia chinesa: o default de títulos de empresas estatais, que deixaram de contar com a garantia implícita do governo, e o alto endividamento entre a população chinesa (para a diversão de muitos, os vídeos no TikTok exibem os meios agressivos pelos quais as empresas de cobrança abordam os devedores).

Qualquer pessoa que esteja tempo suficiente no mercado financeiro sabe bem que as crises sempre surgem após a ampliação desenfreada do crédito.

Imobiliário

Setor bastante demandante de crédito, no caso das incorporadoras, pode ser impactado por uma alta de juros caso a questão fiscal não seja endereçada corretamente.

No que diz respeito aos shoppings, estão mais bem posicionados os que atendem a alta renda e fazem uso de ferramentas digitais (semelhante ao que foi dito anteriormente sobre o varejo).

Educação

Também dependente dos novos hábitos da população, precisa ter o “mix” mais adequado entre os cursos à distância, escaláveis mas com baixos tickets médios, e os presenciais, mais rentáveis.

Saúde

Ficou em evidência por conta da pandemia, mas muitos ainda não estão atentos às oportunidades. O IPO da Rede D’Or São Luiz, o segundo maior do país, diz muito sobre o que ainda está por vir.

Investimentos internacionais

A possibilidade de se investir no exterior diretamente do Brasil é hoje uma realidade.

Desde o início de dezembro, 37 BDRs que representam índices listados em bolsas de ações e commodities no exterior estão disponíveis para negociação na B3. Eles se destinam a aqueles que desejam ativos negociados em dólar. Sendo o maior e o mais líquido mercado do mundo, possibilita uma infinidade de estratégias, com exposição a diferentes regiões geográficas, setores ou ativos.

Outras opções de diversificação estão sendo contempladas conforme novos convênios entre as bolsas são firmados, de forma que índices europeus devem vir na sequência. Ou seja, ao investidor local, será oferecida a diversificação entre moedas também.

Investimentos alternativos

Fundos de private equity, incorporação imobiliária, de participações e de empresas com restrições de crédito sempre fizeram parte dos investimentos da elite. Porém, com as baixas taxas de juros e as mudanças no mercado de capitais, novidades estão surgindo.

Começando pelos fundos de private equity, alguns estão sendo lançados com valores de cotas menores, ainda que sem liquidez (a maioria dos fundos contam com prazos de 10 anos). Os mais recentes estão incorporando inclusive atualizações às suas teses de investimento, como os negócios de impacto.

Já os Fundos de Investimento em Participações (FIPs) trazem como vantagem um histórico de performance. Atualmente, lançam novas emissões para aproveitar oportunidades em setores de energia renovável (geração limpa e tecnologias associadas), como também em telecomunicações e logística.

Tal como os fundos imobiliários, os FIPs também podem ter as suas cotas colocadas para aluguel, rentabilizando ainda mais o investimento.

No que diz respeito aos Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs), também em audiência pública na Comissão de Valores Mobiliários (CVM), o grande atrativo desse tipo de fundo é a variedade de cotas, onde o investidor decide o nível de risco que deseja correr.

Para os novos FIDCs, existe a previsão para que sejam caracterizados como socioambientais, o que quer dizer que serão estruturados a partir de operações de crédito concedidas para atividades dessa natureza.

Para o ano que vem, moedas e ativos virtuais continuarão sendo um mercado de nicho, apesar do apelo que possuem:

Uma das grandes limitações para a sua adoção em massa é a própria falta de regulamentação. Com os governos altamente endividados, tudo o que eles querem evitar são as possibilidades que esses mecanismos oferecem como a lavagem de dinheiro e a sonegação de impostos.

A verdade é que a pandemia propulsionou as moedas digitais emitidas pelos próprios bancos centrais, criadas não só com a finalidade de retirar cédulas de circulação, mas também distribuir os recursos de programas de auxílio. No momento, as autoridades monetárias estão inclusive contemplando novos usos, endereçando algumas das limitações enfrentadas pelos bancos, como os juros negativos.

ESG 

Os investimentos ESG não se limitam a uma classe de ativos. Para quem está atento à pauta E (meio-ambiente, em inglês), S (sociedade) e G (governança), é preciso cuidado com o que se chama de “greenwashing” (algo como um ESG “fake”), pois ainda não existe um padrão mundialmente aceito para esse tipo de investimento.

Isso tende a mudar com regulamentações mais exigentes. Completados 5 anos da assinatura do Acordo de Paris, os países signatários agora precisam definir as suas metas climáticas, muito mais ambiciosas, para 2030, o que determinará as políticas públicas de revitalização econômica.

Dados da Organização Meteorológica Mundial (WMO, em inglês) mostram que a última década foi a mais quente de todos os tempos, o que exige um enorme esforço de cooperação e senso de urgência.

No mais, o investidor deverá acompanhar mais de perto como as empresas se posicionarão em termos de equidade de gênero e de raça. Como muitos eventos de 2020 mostraram, existe um vácuo de liderança política, fazendo com que a sociedade cobre soluções diretamente das empresas.

Conclusão

Esse é o momento ideal para a revisão das carteiras. Isso é ainda mais verdade após um ano como 2020, onde economias e pessoas tiveram as suas vidas viradas do avesso. É em cenários como esse que se prova a importância do trio liquidez, diversificação e rentabilidade.

Pouco se sabe sobre os danos permanentes à economia (“scaring”, cicatrizes em inglês) uma vez retirados os estímulos econômicos. Isso é agravado pelos 4 cenários possíveis para o futuro próximo:

E duas certezas:

O Brasil entrou em 2020 bastante vulnerável. O orçamento público ainda precisa de reformas para solucionar um problema estrutural. Após a pandemia, existe uma conta adicional de R$ 600 bilhões a ser paga. A disponibilidade de vacinas não representa a cura para essa enorme pilha de dívida ou para o grande contingente de pessoas de permanecerão sem trabalho.

Isso significa ajustar os riscos conforme as circunstâncias mudam. Nessa estratégia, a renda fixa continua primordial, ainda que ofereça perdas, pois elas são compensadas pelos multimercados, cada vez mais atrativos pelas opções de diversificação.

Os fundos imobiliários complementam pela inovação nos modelos. Além disso, aliam as vantagens dos rendimentos mensais isentos com as novas possibilidades trazidas pelo aluguel de cotas.

Na renda variável, haverá vencedores e perdedores. Apesar de bastante favorecida pela ampla liquidez global, será importante monitorar os principais fatores que determinarão o desempenho dos diferentes setores, cada um com uma dinâmica própria e muitas variáveis incertas.

É nesse contexto que surge a vantagem da diversificação internacional. Como observado ao longo do ano, a recuperação mundial será bastante desigual. Dito isso, nada melhor do que se amparar nos ensinamentos de grandes gestores: investir em ativos de qualidade, não correlacionados e distribuídos entre países, moedas e classes de ativos.

Na busca dos 10 a 15 ingredientes para a alquimia da riqueza, os investimentos que antes só eram oferecidos aos privilegiados, misturados com os que só precisam de algum tempo para mostrar o seu valor. Nada que exija física quântica, opções ou outros derivativos.

E já que estamos nos aproximando do período de festas:

“Enquanto a música estiver tocando, vai dançando, mas tome um certo cuidado.”

Armínio Fraga
Imagem do autor

Possui MBA em Finanças e LLM em Direito do Mercado Financeiro (ambos pelo Insper/SP). É gestora de uma carteira proprietária, além de ser responsável por um Family Office.

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