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Economia

Mesmo os experts também perdem; quais os motivos?

É necessário ter um mínimo de previsibilidade macroeconômica para a alocação de recursos

Data de publicação:25/01/2022 às 00:30 -
Atualizado 8 meses atrás
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Colocar essa afirmação em um portal de finanças é como jogar um balde de água fria nos leitores. A verdade é que pouca gente ganhou dinheiro em 2021, os experts também perdem. Considerando boa parte do universo de investimentos no país, só ganhou da inflação o bitcoin, que nem sequer é considerado como mainstream pelo mercado financeiro.

De um modo geral, pode-se dizer que o processo de perda foi bem democrático.  Foram igualmente impactados os detentores de pequenas carteiras de ações e os de parrudos fundos exclusivos.  Para ambos, ficou a desconfortável observação de que o dinheiro encolheu, apesar da qualidade do grupo de ativos.

experts perdem
Muitas variáveis não estão sob controle dos experts - Foto: Arquivo

Para entender porque até os melhores perdem, vale a pena olhar para as muitas variáveis que não controlam. 

Imprevisibilidade

O ano de 2021 começou com a taxa Selic em 2% e terminou em 9,25%.  Olhando para trás, o primeiro semestre foi bem diferente do segundo, o que impôs a todos a árdua tarefa de ter que se girar simultaneamente as carteiras, fazendo a transição entre dois contextos tão distintos.

Mundialmente falando, um cenário de deflação foi substituído por um de inflação, que já deixou de ser temporária há algum tempo. 

No caso dos EUA especificamente, constatou-se que, depois de tantos estímulos, algo precisa ser feito para que a próxima queda no ritmo da atividade não seja acompanhada por um balanço ainda inflado do Fed ou de um nível de juros muito próximo de zero.

Dinheiro mais caro

O aumento de juros nos EUA é um fator que por si só eleva o preço do dólar e aumenta o risco país em vários lugares do mundo.  O que dizer então de um Fed surpreendido com a rapidez com que novos fatos se somam ao cenário econômico?

Se antes a elevação dos juros estava prevista para apenas 2023, hoje já se fala em 4 altas ao longo do ano.  Isso pode ser revisto mais pra frente mas, uma política monetária mais restritiva e que aumente o juro real lá fora tem consequências preocupantes em economias como o Brasil.

Considerando uma expectativa otimista de inflação de 5% em 2022, uma Selic em 12% implicaria em um juro real de 7% ao final do ciclo de alta dos juros no país, freando bastante a atividade econômica.

Overkill

Seria essa alta excessiva?  Discursos populistas podem culpar um banco central (BC) mais rigoroso pelo baixo crescimento do PIB.  É fato que, no calor da hora, muitos se esquecem que o que chancela as decisões de investimento é a curva de juros de longo prazo, aquela que reflete o grau de risco que um governo representa.

Dito de outra forma, sem uma economia minimamente organizada, não há como se gerar crescimento. 

O real mais barato

Um grande diferencial de juros entre o Brasil e o mundo normalmente é favorável ao real, dado que atrai mais recursos ao país.  Porém, não é isso o que tem se observado no pós-pandemia.

Uma das razões pode ser o fato de os brasileiros terem deixado de lado o chamado “home bias”, mantendo uma parte de seus investimentos no exterior, independentemente do dilema entre renda fixa e renda variável.

Outra diz respeito às ameaças que sempre surgem quando se tenta acomodar novos gastos no orçamento do governo, seja porque a pandemia ainda não acabou, seja porque muitos salários ficaram defasados diante de uma inflação de dois dígitos.

Isso dificulta o trabalho de se cumprir o regime de metas de inflação, ainda que ele não se concentre apenas no ano atual.  Nos processos anteriores de elevação de juros, boa parte da ajuda veio da valorização da moeda brasileira, algo não garantido em um ano eleitoral.

Dominância fiscal

Nas eleições, tudo o que se quer é mais votos.  Com muitos sem emprego ou renda, não é difícil de se imaginar promessas de mais gastos, comprometendo um orçamento público já frágil de um Brasil que há muitos anos cresce pouco.

O mercado financeiro é um dos primeiros a colocar esses riscos na balança, ou melhor, na mesma curva de juros citada anteriormente. Dominância fiscal é o nome que se dá quando a inflação passa a ser alimentada por esses desequilíbrios, o que faz com que não seja mais controlada via aumentos de juros.

Por conta disso, é preciso ficar atento caso haja um processo eleitoral conturbado e que eleve a incerteza sobre como o futuro governo endereçará questões que pressionam o seu orçamento (basicamente gastos obrigatórios e a indexação dos mesmos).

Em um cenário extremo, surge uma descrença na capacidade do governo de honrar as suas dívidas.  A partir de então, todos os agentes econômicos passam a buscar outros ativos, dentro e fora do país.

Conclusão

O ano de 2021 deixou algumas lições.  A primeira delas, a necessidade de um mínimo de previsibilidade macroeconômica no que diz respeito à alocação de recursos.  Além disso, entender que os ativos locais podem sofrer bastante quando a expectativa de elevação dos juros no exterior se soma às demandas de mais gastos no Brasil.

A verdade é que nenhum processo de aumento de juros no país funciona se não houver responsabilidade fiscal, haja vista a dificuldade de se debelar a inércia inflacionária. Ela inevitavelmente ressurge nos anos de alta inflação, ainda que muitos se esqueçam dela quando ocorre o contrário.

Independentemente da taxa Selic final ou de quem vencer as eleições, o Brasil terá que tomar algumas decisões difíceis para evitar que um novo governo se inicie em condições bastante desfavoráveis.

O crescimento é consequência de reformas e de um ambiente econômico melhor. Esse discurso já era conhecido no início de 2019, mas como o tempo bem mostrou, a execução é o que realmente importa. 

Não por outro motivo, a humildade em aceitar que é impossível dizer onde investir em 2022. A diversificação internacional já foi feita e, no caso das perdas mais recentes, não se trata de apenas mais um hedge fund que explodiu

Assim, só nos resta tentar assimilar que mundo é esse em que estamos entrando.

Sobre o autor
Nohad Harati
Possui MBA em Finanças e LLM em Direito do Mercado Financeiro (ambos pelo Insper/SP). É gestora de uma carteira proprietária, além de ser responsável por um Family Office.

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