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Fed, China, eleições presidenciais e petróleo: o que esperar do dólar em 2022

Considerando todos os fatores, moeda americana deve transitar entre R 5,25 e R$ 5,65 ao longo do ano

Data de publicação:01/02/2022 às 00:30 -
Atualizado 8 meses atrás
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Caros leitores,

Este artigo está um pouco mais longo porque vamos explorar questões relacionadas aos Estados Unidos, China, petróleo e Brasil e mostrar como o avanço destes temas devem interferir na dinâmica do dólar frente ao real em 2022.

Dólar em 2022
Alta dos juros americanos é uma dos fatores centrais para o comportamento do dólar Foto: Envato

Estados Unidos

  • O Fed encerrará o “quantitative easing” (QE) em março. O atual programa foi lançado devido à 4 crise da Covid e com valor mensal de US$110 bilhões. QE consiste na compra de títulos do Tesouro Americano ou de títulos hipotecários de propriedade dos bancos pelo Fed, elevando a liquidez do mercado (volume de dinheiro disponível) e elevando o seu balanço, que se aproxima do nível recorde de U$9 trilhões (3 vezes o valor de mercado da Apple, 10 vezes o valor de mercado de todas as ações do Ibovespa ou 6 vezes o PIB do Brasil);
  • O FOMC (comitê de política monetária do Fed) se reuniu no dia 26 de janeiro e indicou que subirá os juros a partir da reunião de março. O mercado está com muita dúvida sobre quantas altas de juros ocorrerão neste ano: entre 3 (última projeção do Fed, em dezembro) e 7 (Bank of America);
  • O FOMC também indicou que iniciará a redução do seu balanço (“quantitative tightening” - QT). O QT é o inverso do QE, ou seja, o Fed retira liquidez do mercado vendendo títulos do seu balanço para os bancos. Há dúvidas sobre quando o programa começará (talvez junho) e o volume mensal de vendas de títulos, que é esperado em US$60 bilhões, mas eventualmente pode ser maior. Até final do ano passado o Fed irrigava mensalmente o mercado com US$110 bilhões e em breve irá retirar US$60 bilhões, uma grande reversão;
  • A inflação ao consumidor (CPI ou PCE, índice oficial) está muito elevada e os juros vão subir. O núcleo do PCE atingiu 4,9% em dezembro e o gráfico abaixo da Picket Asset mostra que: (1) apenas 6% dos itens da cesta de produtos (como aluguel de carros, preços de carros usados, diárias de hotéis, passagens de avião e alguns eletrônicos) é responsável por metade da inflação, que é causada por fatores transitórios (Covid e efeito base); (2) o núcleo da inflação dos bens duráveis está em 10,5%, ou seja, inflação bem localizada;
  • Há sinais nos indicadores PMI da indústria que a inflação está cedendo, que os estoques estão subindo e que há ligeira melhora nas cadeias de produção da indústria (a Omicron não afetou muito). Vamos acompanhar;
  • Os indicadores econômicos (como o PMI e as vendas no varejo) começaram a enfraquecer em parte devido a inflação alta (que corrói a renda) e em parte devido a Omicron, que afeta muito o setor de serviços. A perda de resiliência da economia, mesmo que momentânea, preocupa porque os juros vão começar a subir e a economia pode ser muito afetada se o processo não for bem dosado: o mercado começa a temer que o “pouso suave” da economia (alta de juros sem recessão) pode não ocorrer e isto beneficiaria o dólar e prejudicaria os ativos de risco, como a bolsa;
  • Nossa opinião: é possível que o Fed mude o tom do seu discurso, de mais duro para mais suave, caso as bolsas continuem caindo (veja o que ocorreu em 2018) e caso a inflação esteja fazendo pico. Nossa opinião é que o Fed subirá os juros 4 vezes este ano, abaixo do consenso do mercado.

China

  1. A China há alguns meses está tomado medidas para relaxar a sua política monetária e dar maior sustentação para a economia. Observamos corte de juros, redução do nível dos depósitos compulsórios, aumento do crédito e PMI da indústria em torno de 50 pontos (prejudicado devido a política “Covid zero”). Recuperação chinesa é positiva para os emergentes, principalmente para o Brasil;
  2. A inflação está cedendo. Abaixo gráfico comparativo entre o PPI chinês e o CPI dos Estados Unidos. Vamos explicar: a China é o maior exportador global e os preços industriais estão subindo menos (PPI) e, assim, a China está exportando menos inflação. O gráfico mostra uma boa correlação entre os preços industriais chineses e a inflação do consumidor nos Estados Unidos, que deveria ficar mais fraca.
  • É provável que a China abandone a política de “Covid zero”, caso contrário, será muito difícil regularizar as cadeias produtivas, incluindo a questão logística, e a inflação continuará resistente no mundo todo.

Brasil

  1. A taxa Selic subirá para aproximadamente 12% e o juro real (acima da inflação) ficará entre 5% e 7% ao ano por muito tempo, fatores que historicamente beneficiaram a nossa moeda;
  2. A posição comprada de dólar, principalmente pelos estrangeiros. Ficar comprado em dólar com custo anual de 2% abaixo da inflação, era confortável. Mas, isso mudou e custo anual agora é de dois dígitos, equivalente a duas vezes a inflação projetada. Para ficar comprado em grande volume será preciso ou o dólar cair para patamar mais baixo e/ou mudança no cenário, que sugira que o dólar/real seguirá subindo no longo prazo;
  3. Eleições: o gráfico do mal-estar econômico mostra que Bolsonaro não deve ganhar as eleições, mas nada está definido: lembrem-se que Verstappen ganhou o mundial de Fórmula 1 na última volta da última corrida e tudo pode acontecer. Este gráfico foi publicado em junho (https://maisretorno.com/portal/entenda-por-que-o-dolar-esta-caindo-e-o-real-esta-se-valorizando) e será atualizado em breve. Como Lula deve ter Alckmin como vice e como a eleição deve ser decidida em segundo turno, forçando Lula a fazer composições com o centro, provavelmente as eleições não devem trazer muita volatilidade para os mercados já que os candidatos são conhecidos.

Petróleo

A alta do petróleo ocorre por alguns motivos:

  1. Transição rápida para energias renováveis (como eólica e solar) com o avanço do conceito ESG, que provoca o fechamento de usinas nucleares e que reduz o interesse das petroleiras investirem em novos projetos;
  2. Temor de eventual conflito na Ucrânia;
  3. Redução da produção da OPEP, que está 10% abaixo da sua média dos últimos 10 anos e não indícios que a produção voltará para a média histórica rapidamente;
  4. Crise do gás na Europa;

Nossa opinião: muitos bancos projetam petróleo subindo em direção a $100 ou mais neste ano e conforme o gráfico abaixo da Picket Asset, petróleo em torno de $100 / $105 é gatilho para recessão e, para agravar, o Fed iniciou ciclo de aperto monetário. Assim, juros subindo e petróleo caro gerariam uma recessão, forçando o Fed a mudar o seu discurso, de aperto para pausa ou corte nos juros.

Abaixo elenco os principais eventos que devem ser observados com muita atenção:

Estados Unidos:

  • Reunião do FOMC e ata da reunião
  • Payroll (relatório de emprego)
  • Inflação. CPI e PCE (inflação do Fed): a vantagem do CPI é que divulgado 15 dias antes do que o PCE
  • ISM Manufacturing

China:

  • Decisões do PBoC (BC), principalmente quanto à taxa de juros e depósitos compulsórios
  • Inflação. CPI (consumidor) e PPI (produtor)
  • Dados econômicos: PMI, PIB, vendas no varejo, produção industrial e evolução do crédito

Brasil:

  • Confiança da Indústria FGV e PMI
  • Índice do Mal-Estar Econômico (inflação + desemprego)
  • Copom
  • Relação dívida bruta / PIB

Caminhos para o dólar/real

Na primeira coluna do ano comentamos que o dólar/real deveria cair para a faixa de R$ 5,40 devido a grande posição comprada dos estrangeiros (”não é trivial manter-se comprado em dólar com custo aproximado de R$ 0,04 ao mês, ainda mais com taxa de câmbio em torno de R$ 5,70.”) e devido a taxa de juros Selic, que vai ficar por muitos meses em 2 dígitos e com juro real em torno de 7%. Dito e feito!

Agora essa tese é bem divulgada, mas fomos um dos primeiros a comentar. Aliás, comentamos sobre isso na coluna de novembro do ano passado, da dificuldade de ficar comprado em dólar com juro alto e nível de taxa elevado.

Para Edmar Bacha (um dos “pais” do Plano Real) “a taxa de câmbio foi criada por Deus apenas para humilhar os economistas”, ficando estigmatizado que câmbio é uma variável sem qualquer perspectiva de projeção.

Para Simon Potter, ex-vice-presidente do Federal Reserve de Nova York, “a profissão do economista foi devidamente criticada por sua incapacidade de prever a grande queda dos preços dos imóveis norte-americanos e de sua subsequente propagação, primeiro em uma crise financeira sem precedentes e, em seguida, para a Grande Recessão (2008).” (https://libertystreeteconomics.newyorkfed.org/2011/11/the-failure-to-forecast-the-great-recession/).

Para efeitos práticos, convido você leitor a pesquisar no site do Banco Central o primeiro relatório Focus de qualquer ano e comparar com o que de fato aconteceu, não apenas no câmbio, mas também nos juros, inflação e PIB. Convido a observar as projeções sobre qual o nível do Ibovespa ou qual a cotação de uma determinada ação daqui um ano.

Não é possível acertar, salvo por sorte, com tanta antecedência o preço de algum ativo ou a variação do PIB. Assim, um acompanhamento sério e sistemático deve ser feito e devemos mudar de opinião se a situação assim exigir. Foi assim no ano passado, resultando em projeções muito assertivas. Porém, alerto novamente que esta coluna tem apenas caráter informativo, nunca de sugestão de investimento.

Acreditamos que o dólar/real ainda está muito caro e que o valor justo é em torno de R$ 4,50 ou menos. Isso não significa que convergirá para o valor justo no curto ou médio prazo, mas o mais provável é que o pior tenha passado (dólar em R$ 5,75 em dezembro).

Nosso cenário base indica que o dólar deve ficar entre R$ 5,25 e R$ 5,65, range oscilatório de acordo com o modelo baseado em redes neurais da Wagner Investimentos. E, à medida que o ano avançar, trazendo novidades na área econômica e política, e seguindo o modelo da Wagner Investimentos, poderemos mudar o nosso cenário.

Desejo a todos uma ótima semana e bons negócios!

Abraços,

José Faria Júnior

Disclaimer: este material foi elaborado com a exclusiva finalidade de apresentar conteúdo meramente indicativo, não devendo, em nenhuma hipótese, ser interpretado como um texto, relatório de acompanhamento, estudo ou análise sobre câmbio ou valores mobiliários que possam auxiliar ou influenciar no processo de decisão. As informações utilizadas para a sua elaboração foram obtidas de fontes públicas consideradas confiáveis e de boa fé, porém não há nenhuma garantia, expressa ou implícita, sobre mudanças, que não implica na obrigação de qualquer comunicação no sentido de atualização ou revisão com respeito a tal mudança. Desta forma, a Wagner Investimentos e o analista envolvido em sua elaboração não aceitam responsabilidade por qualquer perda direta ou indireta decorrente da utilização do conteúdo deste documento.

Sobre o autor
Jose Faria Júnior
José Raymundo de Faria Júnior é economista graduado pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e mestre em Administração pela Fecap. Sócio desde 2006 da Wagner Investimentos, possui as certificações financeiras CFP®️, CNPI, CGA e é Consultor de Valores Mobiliários.

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