Economia

A cotação do dólar frente ao real segue enfraquecendo em meio à continuação do movimento de queda da moeda americana no exterior e com a melhora dos fundamentos da economia brasileira

Foto: acervo
Dólar - Foto: Envato

Observe o gráfico abaixo da Wagner Investimentos: a moeda está rompendo a linha cinza, uma linha horizontal pontilhada que é o suporte do gráfico semanal. Em outras palavras, acima desta linha o dólar tende a subir e abaixo tende a cair.

Desde a greve dos caminhoneiros, no primeiro semestre de 2018, o dólar/real está acima da linha cinza, ou seja, em tendência de alta. Mas, agora, após mais de três anos, as chances de reversão de tendência de alta de longo prazo para baixa de longo prazo é substancial.

Foto: Wagner Investimentos
Linhas pontilhadas verdes horizontais: objetivo inicial do movimento
Linha vermelha horizontal: concentração dos investimentos de médio prazo
Linha marrom horizontal: concentração de investidores de longo prazo

Observe que a linha cinza suportou o movimento de queda por 4 semanas até sofrer um rompimento, que precisa ser confirmado nos próximos dias. Observe também que a cotação bateu um objetivo (linha verde do gráfico), e, por isso, pode ser que ocorra alguma valorização do dólar em direção a R$5,10 / R$5,20.

Confirmando a reversão da tendência, esperamos que o dólar siga em queda ao menos por 6 meses, prazo mínimo de uma tendência de longo prazo (seja esta tendência de alta ou de baixa). Ainda é cedo para estimarmos qual o nível de pausa deste movimento de queda.

Do ponto de vista de fundamento, há muito espaço para a valorização do real. Ao longo das próximas semanas vamos ajustando os ranges de oscilação e verificando a possibilidade de a moeda convergir para o valor justo de longo prazo, que está em torno de R$4,30 neste momento.

Retrospectiva: payroll

O dado mais importante divulgado na semana passada foi o payroll, que mostra não apenas o número de vagas criadas, mas também a taxa de desemprego, o índice de participação das pessoas na força de trabalho e o reajuste salarial.

Naturalmente, as pessoas observam muito mais o número de vagas criadas, mas nem sempre este é o número que de fato mexe com o mercado.

O número total de pessoas empregadas ainda está muito abaixo do número de antes do início da pandemia - em torno de 8 milhões de pessoas a menos com emprego.

A taxa de participação está bem abaixo da observada antes da pandemia, ou seja, menos pessoas dispostas a trabalhar:

É evidente que o mercado de trabalho melhorou e os números de vagas criadas mensalmente nos Estados Unidos são muito elevados - em média 500.000 vagas por mês neste ano.

Há sinais de dificuldade em encontrar mão de obra, fato que gera pressão altista nos salários, e dentre alguns motivos para esse fenômeno estão os cheques elevados que os desempregados estão recebendo do governo e o temor de ficar doente.

Porém, com o avanço da vacinação e a aproximação do fim do período de recebimento de valores extras aos desempregados, esperamos que mais pessoas busquem emprego e que isso reduza a pressão por maiores salários.

Estudos mostram que, somente em meados de 2022, o número de pessoas empregadas de antes da pandemia seja atingido e que somente que ao longo de 2024 os Estados Unidos retornem ao pleno emprego.

Próximos eventos relevantes:

· 10/06 - quinta-feira: CPI (inflação do consumidor) dos Estados Unidos e reunião monetária do banco central da zona do euro (BCE).
· 16/06 - Super Quarta/reunião do Fomc (Copom americano): será divulgado o “gráfico de pontos” com as novas projeções para a economia. O que mais os investidores irão observar nesse sentido é a projeção para a taxa de juros.
· 16/06 - Super Quarta / reunião do Copom
· Final de agosto: Simpósio Jackson Hole, organizado pelo Fed de Kansas City. Em diversas vezes o evento foi palco de importantes discursos sobre política monetária. (https://www.kansascityfed.org/research/jackson-hole-economic-symposium/economic-symposium-conference-proceedings/)

Brasil: Covid + PIB + arrecadação = mais gasto

Nas últimas semanas observamos notícias negativas como alguns anúncios de novas restrições para a atividade econômica, a insatisfação com o ritmo da vacinação, com o valor recebido de auxílio emergencial, o desemprego alto e a inflação alta - puxada principalmente pelo preço dos alimentos, gás de cozinha, gasolina, diesel e energia elétrica.

Porém, também observamos notícias positivas, como o aumento da arrecadação de impostos (ao menos para o governo), os dados do Caged que mostram contratações de pessoas acima do previsto, o PIB acima do esperado e a redução da importante relação dívida bruta /PIB, que deve cair para 85% ao final do ano.

Com isso, fica a pergunta: como avaliar o grau de satisfação das pessoas em meio a um cenário tão complexo?

Uma das formas de avaliar é utilizar o Índice do Mal-Estar Econômico, criado por Arthur Okun, economista que presidiu o conselho de consultores econômicos do Presidente Lyndon Johnson ao final dos anos 1960.

Há outras versões deste índice, mas a versão original é simples e intuitiva: soma da taxa de inflação e da taxa de desemprego. Quanto maior esse número, maior a insatisfação. Abaixo o gráfico com a evolução deste índice desde 2002:

PNAD oficial até março de 2021. IPCA oficial até abril de 2021. Dados até dez/2022 estimados

Abaixo as minhas interpretações e dois alertas: não há absolutamente nenhum viés político, apenas a interpretação do indicador com base nas últimas eleições e acontecimentos políticos no Brasil. Não há como interpretar com este índice a tragédia humanitária provocada pela covid-19.

  1. Aparentemente o desemprego é percebido como o indicador de insatisfação mais importante, já que panela vazia não reelege ninguém. Os governos do PT deram mais ênfase ao emprego do que ao combate a inflação, conforme destacado no gráfico (observe a média entre jan/2003 e dez/2014 dos dois dados).
  2. Quando este indicador está abaixo de 15%, é mais razoável acreditar na manutenção do governo. Observe o nível do índice nos círculos verdes: Lula foi reeleito, Dilma eleita e posteriormente reeleita;
  3. Quando o indicador está acima de 15%, geralmente há troca de governo devido à alta insatisfação. Observe o nível do índice nos círculos vermelhos: vitória de Lula em 2002, impeachment de Dilma em 2016 e vitória de Bolsonaro em 2018.
  4. No período eleitoral do próximo ano há um grande risco deste índice estar elevado e isso tende a favorecer uma troca de governo (o índice em torno de 17% é uma estimativa).
  5. Para Bolsonaro ter chances de ganhar a próxima eleição será preciso criar relativamente rápido milhões de vagas de trabalho e baixar a inflação para que a população perceba que a vida está melhorando.
    Em relação à inflação, a queda do dólar deve amenizar a situação, porque os preços dos produtos relacionados às commodities (como alimentos e combustíveis) devem ao menos parar de subir.

O momento atual parece ser o mais desafiador dos últimos anos. Apesar do avanço da vacinação, as projeções indicam que as pessoas entre 18 e 60 anos serão vacinadas em sua grande maioria entre julho e novembro e, com isso, a reabertura total da economia deve demorar.  

O setor de serviços, que gera a maioria dos empregos, sofre com as medidas de restrição impostas devido aos números preocupantes da covid. Além disso, o índice de mal-estar econômico segue muito elevado em meio a escassez de empregos.

Observe que o PIB irá crescer ao menos 5% este ano (e talvez 5% no próximo ano), mas isso não garante uma queda rápida na taxa de desemprego. Por isso, o item de maior peso no índice de mal-estar econômico ficará elevado e acima de dois dígitos por muitos e muitos meses.

Em resumo: o processo de reabertura da economia se arrastará por mais alguns meses, a popularidade do governo está caindo e a eleição no próximo ano será acirrada.

Assim, há grandes chances do auxílio emergencial ser estendido, talvez com um valor maior, e do programa Bolsa Família ser reformulado, até mesmo para atender exigência do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre um programa de renda básica.

Com a maior arrecadação de impostos e menor dívida (relação dívida bruta x PIB), as condições para elevar os gastos sociais estão dadas.

Maior gasto com programas de renda em meio a reabertura da economia tende a gerar mais empregos e reduzir a sensação de mal-estar e isto deve amenizar o principal motivo de insatisfação da população.

Do ponto de vista legal, há algumas alternativas para o governo elevar os gastos, e do ponto de vista do mercado financeiro, o eventual anúncio de mais gastos deve gerar alguma pressão negativa na cotação do dólar e nas taxas de juros mais longas.

Desejo a todos uma ótima semana e bons negócios!

*Este artigo não reproduz necessariamente a opinião do portal Mais Retorno.

Imagem do autor

José Raymundo de Faria Júnior é economista graduado pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e mestre em Administração pela Fecap. Sócio desde 2006 da Wagner Investimentos, possui as certificações financeiras CFP®️, CNPI, CGA e é Consultor de Valores Mobiliários.

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