Economia

Os diretores do Banco Central ficaram entre a cruz e a caldeirinha para definir a nova Selic. No fim, a taxa básica da economia contemplou o nível mais elevado de apostas do mercado e ficará em 2,75% ao ano até 5 de maio, quando o Comitê de Política Monetária (Copom) se reúne novamente e define o rumo dos juros.

Havia elementos suficientes que reforçavam a decisão de alta, a questão era saber de quanto. A maioria do mercado, no entanto, jogava suas fichas em uma Selic de 2,5%.

Alta do dólar e da inflação levaram a Selic para 2,5% ao ano - Foto Agência Brasil

Não deve ter sido nada fácil arredondar esse número. Tanto é que a divulgação da taxa só aconteceu às 18h50h. O que mais pesou nessa decisão nada conservadora do BC foi o desconforto de um dólar alto gerando e alimentando a inflação; a divulgação de dados recentes que indicam que a alta de preços não dá trégua e empurra a inflação para perto do teto; e a alta dos juros no mercado futuro refletindo o cenário de incertezas.

Ao analisar a combinação desses três fatores é possível entender essa atitude mais agressiva e a mão mais pesada do Copom para definir a nova Selic. Por isso havia também projeções mais ousadas, de uma Selic a esse nível de 2,75% ao ano.

O que puxava para baixo a perspectiva de uma Selic mais baixa, de 2,50% ou até 2,25%, era o cenário dramático da pandemia no País. O agravamento com a explosão de novos casos e de mortes, e a lentidão com a vacinação, estão levando à adoção de medidas mais restritivas de isolamento social. Por conta dessa situação, a economia que já vinha patinando deve levar novo tombo.

Daí por que acreditar que a calibragem de um aumento maior dos juros também estaria fora de propósito. Mesmo que essa elevação da Selic para 2,75% resulte em maior deterioração da atividade econômica, e haja um custo político do governo em adotar medidas que tendem a aumentar o desemprego, a autoridade monetária sinalizou que não pensou duas vezes em frear o câmbio e a inflação.

Nos negócios de amanhã ficará mais claro se essa alta foi convincente para o mercado, na abertura do mercado futuro de juros, do câmbio e das bolsas.

Se a crença for a de que os 2,75% serão capazes de esfriar o câmbio ao atrair a entrada os investidores estrangeiros e, portanto, retirar gás da inflação, os juros futuros poderão se mostrar mais sossegados, e o dólar em queda.

Já as bolsas tendem a reagir negativamente em um primeiro momento, porque rivalizam com a alta dos juros. No entanto, a perspectiva de controle da inflação e a firmeza do controle da política monetária tendem a tranquilizar o mercado.

Ao contrário, se houver desconfiança em relação a essa elevação, uma vez que os juros em 2,75% ao ano estão muito abaixo das projeções de inflação, sem aceno de ganho real, os juros futuros devem iniciar os negócios desta quinta-feira pressionados.

Existe ainda a preocupação do impacto dessa Selic em 2,75% ao ano na dívida pública. A alta maior do que a esperada deve gerar um aumento da dívida pública, já que a taxa básica é o indexador de boa parcela os títulos públicos. O aumento de custo com a dívida agrava a preocupação com o ajuste fiscal, já posto em dúvida com os gastos para o combate à crise provocada pela pandemia. Ao mesmo tempo, uma queda dos juros futuros pode resultar em redução de custo na rolagem da dívida.

Segundo cálculos do economista André Perfeito, da Necton Investimentos, se a taxa ficasse em 2,5% ao ano, o aumento da dívida seria de R$ 16,7 bilhões no curto prazo. Portanto, com uma Selic mais alta ainda esse número será ainda maior. O mercado deve se basear nesses cálculos para a precificação dos ativos nesta quinta-feira.


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Editora do Portal Mais Retorno.

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