Economia

A Selic deve subir hoje na reunião do Comitê de Política Monetária muito mais para segurar o câmbio do que a própria inflação. Essa é a opinião de André Perfeito, economista-chefe e sócio da Necton Investimentos.

É preciso acabar com o mal pela raiz. O analista explica que “o câmbio segue pressionado, gerando constrangimentos no nível de preços, especialmente pela ‘porta do fundo’ do IGP-M, que retroalimenta o índice oficial”. É o dólar alto que mantém pressão sobre a inflação.

Alta da Selic deve conter alta do dólar que, por sua vez, segura a inflação

Não há como negar, no entanto, que a inflação demonstra um vigor indesejado: “o IPCA já bateu no teto, e roda em 5,20% em 12 meses, sendo que o teto é de 5,25%. E os IGPs perderam qualquer relação com a realidade nacional e importam inflação a uma taxa de 31,16% em 12 meses, como nos informa o último IGP-10”, argumenta ele.

Perfeito aposta em ajuste de 50 pontos base de alta, o que traria a Selic para 2,50% ao ano. Mas observa que “há quem especule no mercado altas de até 75 pontos base”. É preciso esperar pela definição no fim da tarde, depois de fechamento do mercado.

O economista reconhece a situação difícil e peculiar em que se encontram as autoridades monetárias. Porque a alta é necessária, mas já é possível prever de antemão o mal-estar na esfera política. Uma elevação dos juros em uma economia já raquítica dá panos para a manga para oposição criticar o governo. Seria mais um fator de desaceleração da atividade econômica.

Para o especialista, na reunião de hoje, “o mais importante será menos a alta da Selic em si, mas antes o comunicado. O mercado espera que o BC indique o ciclo total de alta da taxa e como vê a dinâmica da política fiscal para os próximos meses”.

Alta da Selic é remédio amargo

Em uma conjuntura como a atual onde a pandemia persiste e os dados econômicos não encontram ainda a robustez desejada, observa Perfeito, a alta de juros é um remédio amargo.

Ao controlar o câmbio e atacar a inflação de custo se ataca também a demanda, explica ele. “É como que ministrando um remédio com efeitos colaterais severos. A situação só não é pior porque os juros baixos não encontram respaldo na realidade e pouco podem fazer para de fato animar o tecido econômico”.

A alta da Selic não trará apenas um custo político, mas também o aumento da dívida, lembra o economista-chefe. Um aspecto que deve ser analisado com o devido cuidado. Nem sempre as consequências serão lineares. “Por exemplo, se o BCB subir a Selic e isto aumentar a confiança de investidores que a inflação vai cair, os juros mais longos caem tornando o custo da dívida menor. O contrário também é verdadeiro”.

Os últimos dados disponíveis apontam que a Dívida Mobiliária dos Títulos do Tesouro Nacional emitidos – posição de custódia, série 2213 do SGS do BCB –  em janeiro deste ano somavam R$ 6,7 trilhões.

Uma Selic de 2,5% aumenta a dívida pública em R$ 16,7 bilhões no curto prazo

Perfeito faz uns cálculos para mostrar como uma alta de 0,5% vai aumentar a dívida pública: “A alta da Selic impacta na porção desta dívida que é indexada pela própria Selic e as Operações de Mercado Aberto, basicamente as operações compromissadas de curto prazo que rendem o CDI. A soma destes dois grupos resulta, segundo dados de janeiro deste ano, 49,7% do total” relata ele. “Logo se ponderando pelo total da dívida temos que uma elevação de 0,5% irá acrescentar R$ 16,7 bilhões ao total da dívida já no curto prazo.

Como a projeção é a de que a Selic suba até 5% no final do ano, na prática haverá uma alta total de 300 pontos base e 3% do estoque de dívida em Selic e Compromissadas chega a R$ 100 bilhões.

Com Selic a 5% no fim de 2021, estoque da dívida pode chegar a R$ 100 bilhões



A situação poderia ser pior, segundo ele, porque hoje a dívida reajustada em dólar é praticamente zero. Assim, a desvalorização do Real não teve impacto direto na dívida, mas o total da dívida em IPCA é 19,73% e se este continuar a subir poderá ser um problema.

Por essas e outras, “o comunicado de hoje é mais importante que a taxa em si uma vez que deverá tentar controlar via oratória, por assim dizer, o complexo de interações das taxas futuras, afirma o economista. “O Copom não pode fazer um anúncio muito alarmista, uma vez que ele não é exógeno ao sistema, se ele gritar ‘fogo’ o mal-estar pode se instalar de maneira mais aguda nas mesas de operação”.

E para finalizar, André diz que “ o tom tem que ser seguro e apresentar com clareza seu plano. Como se diz: numa batalha, quando um general tem que recuar seu exército, ele não pode recuar nem tão rápido que pareça covardia, nem tão devagar que pareça provocação...”

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