Mercado Financeiro

Continuamos observando uma boa ligação entre o DXY e a relação do dólar com o real, conforme podemos observar no gráfico abaixo, que mostra as cotações de fechamento semanal destas duas moedas.

Foto: José Faria Junior
Fonte: Wagner Investimentos

Os 'motores' que atuam em nossa moeda

Motor externo

O DXY segue em tendência de alta no médio prazo e acima de 91,80 - tem espaço para seguir em elevação. Apesar dos últimos eventos (veja abaixo) terem sido favoráveis para deixar o DXY mais fraco, a tendência de avanço segue intacta e tem boas chances de continuar assim enquanto a cepa delta não der claros sinais de que está enfraquecendo nos Estados Unidos.

Motor interno

O momento atual segue conturbado. Há muitas matérias a serem votadas no Congresso e voltamos a chamar atenção para o Senado, casa que tem sido menos amistosa com os projetos defendidos pelo Planalto. Reforma do IR (aprovada na Câmara e está no Senado), passaporte tributário (aprovado no Senado e está na Câmara), reforma administrativa (em processo de votação na Câmara), solução para os precatórios e definição do Auxílio Brasil são as principais matérias que precisam ser rapidamente votadas para dar previsibilidade aos investidores.

É importante lembrar que o tensionamento entre os poderes deve atrasar as votações e manter um clima de eleição polarizada, fatos que deixam os investidores ainda mais defensivos - com menor propensão em aplicar em juros prefixados e vender dólares.

O que ajuda a nossa moeda é a certeza que a Selic, taxa básica de juros do País, continuará subindo para a faixa de 8% e um fluxo cambial ainda positivo, mas é muito pouco para encorajar a venda de dólares no atual ambiente.

Foto: envato
Cenário político local irá influenciar na faixa de preço que o dólar deve alcançar até o fim de 2021 - Foto: Envato

Retrospectiva

27 de agosto - inflação oficial do Fed (Federal Reserve o Banco Central americano) - PCE

A tabela abaixo, elaborada pelo Fed (Federal Reserve, o banco central americano) de Dallas, mostra que o “PCE Trimmed Mean”- inflação por “média aparada” (que retira do cálculo os itens que mais contribuem para elevar ou reduzir a inflação) - segue relativamente bem-comportada e favorece o discurso do presidente da autoridade monetária de que a inflação elevada - que está em 4,2% e bem acima da meta de 2% ao ano - deve ser transitória.

Foto: José Faria Junior

27 de agosto: Jackson Hole

O discurso do presidente do Fed, Jerome Powell, indicou que a autoridade monetária acredita que a inflação nos Estados Unidos é transitória; o avanço da cepa delta atrasa a retomada da economia; que não terá pressa em iniciar o processo de redução de compras de ativos (tapering); o tapering e a alta de juros são processos independentes - ou seja, reduzir e eliminar as compras de ativos não significa que os juros subirão logo em seguida.

03 de setembro: Payroll

O dado mostrou que o número de vagas de emprego criadas em agosto foi três vezes menor do que o previsto, jogando a média móvel de três meses de criação de vagas de 876 mil por mês para 750 mil por mês.

Resumo: PCE + Jackson Hole + Payroll + variante delta = adiamento da retirada de incentivos monetários pelo Fed -isso é favorável a um dólar mais baixo. Porém, caso a situação da Covid se agrave muito, o dólar poderá subir devido a um quadro de aversão a risco.

Próximos eventos relevantes

A reunião do Fomc do dia 22 de setembro (Super Quarta) segue importante, mas é possível que o anúncio do início da redução mensal das compras de ativos seja postergado para a reunião do dia 03 de novembro, devido aos dados mais fracos da economia dos EUA em meio ao avanço da variante delta.

  • 09 de setembro – reunião do BCE e divulgação do IPCA (Brasil)
  • 14 de setembro – CPI (EUA)
  • 22 de setembro (Super Quarta) - reuniões do Fomc (com divulgação de projeções econômicas) e Copom
  • 03 de novembro – reunião do Fomc

Caminhos para a relação entre o dólar e o real

Enquanto o DXY seguir acima de 91,80, provavelmente a relação entre o dólar e o real seguirá acima da região de R$5,15 - talvez um pouco menos, como observado esses dias, quando quase atingiu rapidamente R$5,10. Ainda enxergamos grande potencial de valorização do real, mas a situação política não deve deixar isto acontecer.

Observamos algum enfraquecimento do dólar no exterior, fato que pode nos favorecer. Porém, a relação entre o dólar e o real deve seguir acima da região de R$5,00 e pode voltar com alguma facilidade para R$5,30. Como alertamos anteriormente, se atingir a faixa acima de R$5,30, pode voltar a subir para a faixa de R$5,50. Caso rompa, o próximo alvo será em torno de R$5,75.

Porém, com o nível atual de cotação e taxa de juro Selic indo para 8%, é pouco provável que o dólar suba muito no mercado local, devendo ficar abaixo de R$5,50. A taxa Selic em 8% ao ano significa custo mensal em torno de 3 centavos ao mês com cotação a R$5,20, fato que reduz a atratividade de comprar dólares.

Alertamos que, com a aproximação do fim do ano e a provável aprovação da reforma do IR no Senado, as empresas devem acelerar o pagamento de dividendos e muitas remetem os valores para o exterior tradicionalmente no final do ano.

Além disso, os bancos devem precisar comprar algo em torno de US$15 bilhões para enquadramento de seus balanços (over hedge), fatos que devem pressionar o dólar para cima a partir da segunda quinzena de novembro. O contraponto é o Banco Central, que geralmente atua neste período para dar liquidez ao mercado.

Em resumo, caso não tenhamos trégua entre os Poderes e um avanço relativamente rápido das votações no Congresso, as chances de o dólar cair a R$5,00 são baixas.

Caso o quadro de acirramento da disputa política perdure, alertamos para o risco de o dólar subir. Assim, para quem precisa comprar dólares, e com base nas informações disponíveis neste momento, é interessante analisar o início do processo de aquisição ao menos para curto e médio prazo.

Desejo a todos uma ótima semana e bons negócios!

*Este artigo não expressa necessariamente a opinião do portal Mais Retorno.

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José Raymundo de Faria Júnior é economista graduado pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e mestre em Administração pela Fecap. Sócio desde 2006 da Wagner Investimentos, possui as certificações financeiras CFP®️, CNPI, CGA e é Consultor de Valores Mobiliários.

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