Mercado Financeiro

O cenário internacional deve continuar influenciando os mercados nesta sexta-feira, 27.  As expectativas com o simpósio anual de Jackson Hole, evento do Fed (Federal Reserve, banco central americano) que teve início ontem e prossegue até sábado, já pesaram negativamente sobre os mercados na véspera.

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Jerome Powell, presidente do Fed - Foto: Flickr

O principal foco de interesse de investidores é o discurso do presidente do Federal Reserve, Jerome Powell. A expectativa é que o pronunciamento de Powell ou de dirigentes do Fed de vários Estados americanos durante o evento dê pistas sobre o início da redução gradual de recompra de títulos, no âmbito do pacote de estímulos monetários, que injeta US$ 120 bilhões no sistema financeiro americano a cada mês. 

O encontro de Jackson Hole dividirá a atenção do mercado com a divulgação, também nesta sexta-feira, do PCE, núcleo de inflação ao consumidor americano, índice que exclui do cálculo os custos de energia elétrica e transportes.

Segundo especialistas, é o indicador de inflação a que os integrantes do Fed dão muita atenção e podem influenciar decisões futuras de política monetária dos EUA.

Um índice acima das expectativas, de acordo com analistas, pode reforçar o discurso dos que defendem uma antecipação da redução de recompra de títulos, sinalização dada por alguns membros do Fed ontem que deixou investidores e mercados de mau humor nesta quinta-feira.

Volatilidade nos mercados

Após dois dias seguidos de valorização, a Bolsa de Valores de São Paulo, a B3, recuou 1,73%, para 118.723,97 pontos, e o dólar avançou 0,87%, para R$ 5,26, interrompendo uma série de quatro quedas seguidas.

A perspectiva de antecipação do processo de redução da recompra de títulos pelo Fed gera preocupação nos mercados porque tende a levar uma redução do fluxo de capitais para os mercados globais, incluído o doméstico. Menos movimento de capitais para o País, menos recursos para a compra de ações na B3 e mais pressão sobre o dólar.

No cenário interno, continua no radar do mercado financeiro a crise política gerada pelo embate entre os Poderes, embora em temperatura mais baixa, e a crise hídrica provocada pela estiagem que está levando a conta de luz às alturas e com ela a inflação.

A energia elétrica mais cara foi, ao lado da alta de combustíveis e alimentos, a principal fonte de pressão sobre a inflação corrente em agosto que, pela prévia do IPCA-15, está rodando em 0,89%.

Crise hídrica

Ainda que o governo federal se recuse a falar em racionamento, o presidente Jair Bolsonaro reconheceu, na véspera, em transmissão ao vivo nas redes sociais, a gravidade da crise hídrica e pediu à população que reduza o consumo de energia elétrica.

"Em grande parte das represas, estamos com 10%, 15% (da capacidade). Estamos no limite do limite", declarou o chefe do Executivo. "Vamos fazer um apelo para você que está em casa. Apague um ponto de luz", acrescentou. Segundo Bolsonaro, algumas represas do País vão deixar de existir se a crise não der trégua.

O secretário de energia elétrica do Ministério de Minas e Energia (MME), Christiano Vieira, pediu à sociedade "esforço na economia de energia" e disse que o governo dará uma premiação pela redução no consumo. Ainda assim, o chefe da pasta, Bento Albuquerque, disse não entender as medidas como um racionamento.

Durante a live no dia anterior, Bolsonaro ainda tentou explicar o aumento da conta de luz dos brasileiros. "Quando a gente decreta bandeira vermelha, não é maldade, é para pagar outras fontes de energia, no caso termelétricas", disse o presidente. As termelétricas são abastecidas com combustíveis fósseis, como óleo diesel, e tornam a produção de energia mais cara e poluente.

Além disso, como o chefe do Executivo adotou com a energia a mesma retórica utilizada com o aumento dos preços dos combustíveis e do botijão de gás - tentou dividir o ônus com governadores e pediu aos líderes estaduais a redução do ICMS cobrado sobre a bandeira vermelha.

Na última terça-feira, 24, o ministro da Economia, Paulo Guedes, questionou qual seria o problema de a energia, componente de peso na cesta da inflação, ficar um pouco mais cara.

Marco temporal

 Com aproximadamente 6 mil indígenas aguardando a decisão em frente ao prédio do Supremo Tribunal Federal (STF), o julgamento sobre a tese do "marco temporal" das demarcações de terras tradicionalmente ocupadas por povos originários foi novamente adiado. A pauta será retomada na quarta-feira, 1º, mas ainda sem previsão de encerramento a curto prazo.

O presidente Jair Bolsonaro criticou ação no Supremo Tribunal Federal (STF) que contesta o marco temporal para demarcação de terras indígenas e disse que a medida é uma "grande preocupação" do governo.

Segundo o chefe do Executivo, se o marco temporal for reinterpretado, poderá dobrar a quantidade de terras demarcadas para os índios e causar problemas econômicos.

"Vai inviabilizar e causar sérios transtornos para todos no Brasil", afirmou o presidente durante transmissão semanal ao vivo na véspera. Entre os problemas que poderiam ser causados, Bolsonaro destacou obstáculos para a produção, possibilidade de desabastecimento e avanço do preço de alimentos, que já puxam a inflação para cima.

A medida pode influenciar a demarcação de mais de 300 terras indígenas em andamento no País.

CPI da Covid

Na véspera, o colegiado da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid ouviu o empresário Ricardo Santana, que estava na mira por ter marcado presença em jantar realizado em Brasília em 25 de fevereiro, quando teria sido feito um suposto pedido de propina em cima da oferta de doses da vacina contra covid-19 da AstraZeneca pela empresa americana Davati.

O depoente, que chegou ao Senado como convidado e saiu na lista de investigados da CPI, terminou a reunião sendo criticado pelo relator, senador Renan Calheiros (MDB-AL) pela sua "amnésia".

Durante o depoimento, Santana irritou senadores. Beneficiado por um habeas corpus, hora não respondia as perguntas do colegiado, e, nos momentos em que optava responder, relatava não ser capaz de lembrar de detalhes referentes às perguntas.

O jantar contou com a presença do ex-diretor do Departamento de Logística do Ministério da Saúde Roberto Ferreira Dias - apontado como responsável pelo pedido de propina -, do ex-assessor do Departamento de Logística coronel Marcelo Blanco, e do policial militar Luiz Paulo Dominghetti - que acusou Dias do pedido.

Essa relação dos presentes foi uma das poucas respostas que os senadores conseguiram do depoente.

O empresário atuou como ex-secretário-executivo da Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos da Agência de Vigilância Sanitária (Anvisa). Logo após deixar a agência reguladora, em março de 2020, afirmou que foi convidado por Roberto Dias para integrar o Ministério da Saúde, uma participação rápida, disse.

Wall Street: futuros em alta

Em Nova York, os contratos futuros negociados nas bolsas locais operam em alta, com os investidores atentos ao Simpósio Jackson Hole do Fed, que contará com o discurso do presidente da instituição, Jerome Powell.

Enquanto o mercado aguarda por sinalizações do representante do BC americano, falas de outros dirigentes da autoridade monetária em defesa do início da redução dos estímulos nos Estados Unidos foram acompanhadas.

O evento pode dar pistas mais claras sobre o que o Fed pretende para o futuro da política monetária nos EUA, em meio às discussões sobre o início do tapering, como é chamado o processo de retirada gradual da acomodação.

Analistas esperam que os dirigentes do BC americano que discursarão na ocasião, entre eles o presidente Jerome Powell, deem sinalizações sobre os próximos passos do Fed, mas sem fazer um anúncio oficial de uma data para começar o tapering.

No dia anterior, três dirigentes do Fed reforçaram suas defesas pela retirada dos estímulos ainda este ano. Presidente da distrital de Dallas da entidade, Robert Kaplan estimou que o tapering pode começar em outubro ou pouco tempo depois.

Com visão similar, James Bullard, chefe do Fed de St. Louis, alertou contra uma potencial "bolha" no mercado imobiliário residencial nos EUA.

Já a presidente da distrital de Kansas City da instituição, Esther George, afirmou que prefere a redução dos estímulos "antes cedo do que tarde", alertou para a alta inflacionária nos EUA e projetou um impacto limitado da variante delta do coronavírus sobre a economia norte-americana.

Bolsas asiáticas fecham mistas

 As bolsas da Ásia e do Pacífico fecharam sem direção única nesta sexta-feira, com investidores à espera de novos sinais sobre o futuro da política monetária do Fed.

O índice acionário japonês Nikkei caiu 0,36% em Tóquio hoje, aos 27.641,14 pontos, e o Hang Seng ficou praticamente estável em Hong Kong, com ligeira perda de 0,03%, aos 25.407,89 pontos.

O sul-coreano Kospi avançou 0,17% em Seul, aos 3.133,90 pontos, e o Taiex subiu 0,84% em Taiwan, aos 17.209,93 pontos.

Na China continental, o Xangai Composto valorizou 0,59%, aos 3.522,16 pontos, e o menos abrangente Shenzhen Composto teve leve alta de 0,10%, aos 2.439,69 pontos.

O bom humor prevaleceu apesar de dados mostrarem desaceleração no avanço do lucro da indústria chinesa e de relatos de que Pequim poderá proibir a abertura de capital de algumas empresas de tecnologia nos EUA.

Na Oceania, a bolsa australiana terminou o pregão em baixa marginal, pressionada por ações de tecnologia e de consumo. O S&P/ASX 200 caiu 0,04% em Sydney, aos 7.488,30 pontos. / com Júlia Zillig e Agência Estado

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Colaborador do Portal Mais Retorno.

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