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Fundos de Investimentos

Criptomoedas dispararam na última semana, mas entre os fundos do segmento só um está positivo em 2022; confira

No ano, apenas um fundo de criptomoeda tem desempenho positivo

Data de publicação:21/07/2022 às 05:00 -
Atualizado um mês atrás
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Depois de meses em forte baixa, na última semana as principais criptomoedas disponíveis no mercado apresentaram um movimento de valorização acentuada para a alegria dos investidores. O bitcoin subiu 13,46% e o ethereum disparou 61,80%, enquanto a polygon, um dos principais criptoativos de segunda camada, avançou 32,81%. Este não é o mesmo cenário observado nos fundos de criptomoedas.

No mês de junho, apenas três dos dez fundos com maior número de cotistas tiveram uma rentabilidade positiva: Titanium Cripto Structure, Bohr Arbitrage Cripto e Vitreo Cripto Metals Blend. Em 2022, somente o fundo da gestora Titanium oferece um rendimento positivo até aqui. Segundo especialistas ouvidos pela Mais Retorno, isso ocorre porque os fundos de criptomoedas disponíveis no Brasil ainda têm uma composição limitada aos ativos de alta capitalização.

criptomoedas
Maior parte dos fundos de criptomoedas estão com rentabilidade negativa em 2022 | Foto: Reprodução

Caio Villa, CIO da Uniera, explica que, por ser um mercado relativamente novo no País, a maioria desses fundos ainda opta por investir nas principais criptomoedas do mercado, como o bitcoin e o ethereum. O especialista pontua que, dessa forma, os fundos acabam ficando de fora de muitas oportunidades que surgem com moedas de menor capitalização, caso da polygon, que vive um período bastante positivo.

Em contrapartida, a forte desvalorização dos fundos de criptomoedas em 2022 também está relacionada à aversão ao risco generalizada pelo mercado financeiro em nível global, o que afetou também o mercado cripto. Fatores do cenário macroeconômico e geopolítico, principalmente a guerra da Rússia na Ucrânia, e alta dos juros globais trouxeram incertezas aos investidores, o que penalizou a renda variável.

Desempenho dos fundos de criptomoedas com mais cotistas

No estudo, foram considerados fundos abertos ao público em geral e em operação há, pelo menos, um ano.

FundoNº de
cotistas
Rendimento em junhoRendimento em 2022Rendimento em 12 meses
BTG PACTUAL REFERENCE BITCOIN 20 FIM22.955-6,05%-11,32%-1,81%
HASHDEX BITCOIN FIC FIM20.433-33,85%-62,62%-42,06%
VITREO CRIPTOMOEDAS FIC FIM INVESTIMENTO EXTERIOR19.896-22,85%-64,88%-36,35%
VITREO CRIPTO METALS BLEND FIC FIM14.299+0,74%-21,91%-2,94%
VITREO CRIPTO DEFI FIC FIM IE 3.382-13,14%-71,43%-70,34%
BTG PACTUAL REFERENCE BITCOIN 100 FIC FIM IE 636-32,58%-60,17%-40,75%
HASHDEX OURO BITCOIN RISK PARITY FIC FIM 629-2,54%-21,59%-4,25%
BOHR ARBITRAGE CRIPTO FIM IE 55+9,80%-5,05%+8,95%
TITANIUM CRIPTO STRUCTURE FIM IE 22+1,66%+8,74%+21,59%
VTR QR CRIPTO FIM IE 4-23,35%-63,94%-34,74%
Fonte: Mais Retorno | Dados acessados em 19/07/2022 às 13h40

Movimentação na cotação das criptomoedas

De acordo com Villa, o movimento de alta nas criptomoedas nos últimos dias pode ser visto como um período de capitulação. Ou seja, após um momento de baixas expressivas, os investidores "cansaram de vender" seus ativos e passaram a buscar oportunidades dentro do mercado cripto, já que muitas dessas moedas despencaram nos últimos meses e estão descontadas.

Felipe Vella, analista de renda variável da Ativa Investimentos, pontua que esse "respiro" pôde ser observado no mercado como um todo, principalmente naqueles mais relacionados à tecnologia, como a Nasdaq, o S&P 500 e os próprios criptoativos. Além disso, o CIO da Uniera destaca que, no caso do ethereum e da polygon outros fatores também contribuíram para a escalada de suas cotações.

Sobre o ehtereum, Caio Villa afirma que a rede finalmente apresentou uma possível data, prevista para setembro, para sua migração do proof of work para o proof of stake. Estes são processos dentro das cadeias de blockchain que garantem o funcionamento da rede. No entanto, enquanto o proof of work é um modelo mais caro e demorado, o proof of stake tem melhor escabilidade e menor custo, possibilitando a entrada de mais integrantes à rede ethereum com tecnologias mais simples.

Essa notícia, de acordo com o CIO da Uniera, animou os investidores, contribuindo para o bom desempenho da moeda digital nos últimos dias.

No caso da polygon, Villa ressalta que a criptomoeda vem se consolidando cada vez mais no mercado como um dos principais protocolos de segunda camada, além de firmar parcerias importantes. Na última semana, por exemplo, a polygon foi a única criptomoeda escolhida pela Disney para passar pelo programa de aceleração da companhia, o que os investidores enxergam com bons olhos.

Perspectivas para o mercado cripto

Sobre as perspectivas para os próximos meses, Felipe Vella afirma que as criptomoedas tendem a continuar sendo afetadas pelo cenário de incertezas globais, assim como todo o mercado. O analista explica que isso só não aconteceria se os criptoativos eliminassem a correlação com o mercado tradicional, o que não tem acontecido.

"Quanto mais instrumentos do mercado tradicional são criados para os criptoativos, como ETFs (Exchange Traded Funds), contratos futuros e opções, mais os criptoativos estão relacionados ao mercado tradicional", diz Vella.

Para Theodoro Fleury, gestor da QR Asset Management, o pior momento para os criptoativos pode já ter passado, mas ainda é cedo para dizer. "Não se sabe ao certo até onde os juros americanos podem subir, e isso afeta ativos de risco", comenta. Em contrapartida, o especialista ressalta que olhando para o bitcoin sob a ótica de alguns indicadores cíclicos, o ativo se encontra perto das mínimas históricas versus o custo médio da rede como um todo.

"Não é garantia que vai subir, mas historicamente, e pensando em um horizonte de pelo menos dois a três anos, o que se viu após momentos como esse foram altas muito fortes. Não podemos dizer que, para esse ano o pior já passou, mas que o mercado agora oferece um ponto de entrada muito atrativo para quem tem um horizonte de investimento de alguns anos."

Theodoro Fleury, gestor da QR Asset Management

Caio Villa destaca, ainda, que o risco de uma recessão já é precificado pelos investidores e, além disso, o mercado já tem a guerra da Rússia na Ucrânia no radar. Assim, o futuro, apesar de incerto, não tem mais tantos fatores completamente desconhecidos como uma grande ameaça, o que pode, de certa forma, diminuir a aversão ao risco que domina os mercados desde o começo do ano.

Fatores de risco

"O cenário macroeconômico e geopolítico global ainda é desafiador, esse é o ponto negativo para o mercado de criptomoedas", afirma Felipe Vella. Dessa mesma visão compartilham Caio Villa e Theodoro Fleury, além de apontarem como fatores de risco os desdobramentos da guerra no leste europeu e uma possível trajetória de aperto monetário nos Estados Unidos com juros mais altos do que os já precificados.

Fleury comenta, também, que há um fator inerente ao setor que pode afetar o desempenho dos ativos e dos fundos de criptomoedas. A Mt Gox, corretora falida que chegou a ser a maior do mercado cripto em 2013, tem um processo judicial em tramitação, assim, os clientes podem receber bitcoins que estavam parados ainda em 2022.

"Vale lembrar que, na época da falência, o valor do bitcoin era uma fração do que é hoje. Então, quem receber poder resolver vender, o que vai gerar uma pressão de venda negativa", explica o gestor.

Pontos positivos

Para Felipe Vella, o principal fator positivo que pode resultar em um bom desempenho para as criptomoedas é a escassez dos principais criptoativos. Os destaques são o bitcoin, que tem uma escassez definida - conforme explica o analista, podem ser minerados cerca de 22 milhões desses ativos -, e o ethereum, que com a migração para o proof of stake está realizando um programa de "queima" de moedas, o que traz mais pressão compradora.

Sobre o espaço para que as criptomoedas continuem crescendo, Fleury pontua que talvez isso não aconteça em 2022, "mas a adoção da tecnologia ainda se encontra em estágio praticamente embrionário, comparável ao que era a internet no final dos anos 90", o que pode gerar boas oportunidades. Vella compartilha da mesma opinião e comenta que, atualmente, é mais arriscado o custo de oportunidade de não estar nessa classe de ativos do que o risco de estar.

"A longo prazo, a tendência é que os principais protocolos tenham valorizações expressivas de preço conforme a tecnologia vai sendo adotada. E quem entra em momentos como o de agora tende a obter retornos maiores, mas é importante ter a cabeça de longo prazo."

Theodoro Fleury, gestor da QR Asset Management

Desempenho das criptomoedas

Bitcoin (BTC)Ethereum (ETHE)Polygon (MATIC)
Variação em uma semana+13,46%+61,80%+32,81%
Variação em um mês+14,98%+50,77%+112,50%
Variação em 2022-50,49%-29,99%-66,96%
Variação em um ano-20,67%-37,77%+23,37%
Fonte: Google Finanças e Investing | Dados acessados em 20/07/2022 às 16h40

Investir nos fundos de criptomoedas ou nos próprios ativos?

Caio Villa comenta que o principal ponto negativo de um investidor optar por um fundo de criptomoedas em vez de montar uma cesta com os próprios ativos é, justamente, o mercado ainda não tão desenvolvido que é disponibilizado no Brasil. Assim, os investimentos tendem a passar, em sua grande maioria, apenas por aquelas moedas de alta capitalização.

O que os fundos podem oferecer, no entanto, é uma maior facilidade para o investidor que não tem tanto tempo ou conhecimento.

Entretanto, o especialista destaca que é importante estudar sobre as teses dos criptoativos antes de realizar um investimento. Há criptomoedas com bons fundamentos e boas oportunidades, mesmo em momentos de maior estresse no mercado. Villa usa a polygon como exemplo: mesmo em um período de baixa, o ativo continuou buscando parcerias e entregando resultados aos seus investidores, porque tem bons fundamentos.

"O que não pode é investir em memecoins, ativos sem nenhum fundamento, porque aí a chance de perder dinheiro é muito grande", afirma ele, que ainda pontua que é importante saber priorizar os investimentos e "investir o dinheiro do whisky no mercado cripto, não o dinheiro do leite".

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Sobre o autor
Bruna Miato
Repórter na Mais Retorno