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Economia

Inflação acelera e casas revisam projeções para Selic em 2022

As projeções vão desde 12,25%, em linha com o mercado, e chegam até 14% ao ano

Data de publicação:16/02/2022 às 01:46 -
Atualizado 3 meses atrás
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A Selic, a taxa básica da economia, já está sendo estimada em até 13% ao ano em 2022 por casas consultadas pelo portal Mais Retorno. Um nível que pode chegar a 14% ao ano, caso a inflação não seja controlada, segundo analistas.

A renovação das projeções acontece após a indicação de que a inflação continua em níveis elevados e em ritmo acelerado de alta: nesta terça-feira, 15, saiu uma das prévias do comportamento dos preços em fevereiro, o IGP-10, com elevação de 1,98%, superando o nível de 1,79% de janeiro. Para fazer frente a esse avanço dos preços, o mercado admite a possibilidade de o Banco Central ter de forçar a mão e promover ajustes dos juros por mais tempo.

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Após último Boletim Focus e ata do Copom, especialistas revisam suas projeções para a Selic em 2022 - Foto: Shutterstock

No último Boletim Focus do Banco Central, as estimativas do mercado para a Selic foram revistas de 11,75% para 12,25% ao ano, maior nível desde 2017. No entanto, esses números são médios, no mercado há quem entenda que o juro possa ser alçado a 14% ao ano, em trajetória percorrida entre 2013 e 2015.

O Comitê de Política Monetária (Copom), que elevou a Selic de 9,25% para 10,75% ao ano em fevereiro, indicou em ata de sua última reunião a continuidade de elevação dos juros, mas em ajustes mais brandos, e não mais de 1,5 ponto porcentual, com vinha acontecendo. Portanto, a questão está em saber até quando serão promovidos os ajustes e em que nível chega a Selic para conseguir domar a inflação.

Segundo o Banco Inter, os juros em 12% ao ano colocam o País em um território significativamente contracionista.

“Olhando para frente, com uma estimativa de inflação próxima de 5%, o juro real é de quase 6%, cerca de duas vezes maior que o nosso patamar de juro neutro. No último ciclo entre 2014 e 2015, a Selic foi ainda mais alta - chegamos em 14,25% ao ano - mas vale lembrar que a política monetária não tinha a mesma potência com o mercado de crédito com parcela significativa de empréstimos a taxas subsidiadas pelo BNDES”.

Banco Inter, em relatório de análise sobre a Selic

Para eles, a Selic próxima de 12% deve ser mais que suficiente para reduzir o consumo, desaquecendo ainda mais a demanda.

“Além disso, a economia ainda conta com elevada capacidade ociosa, tanto na indústria como no mercado de trabalho. As famílias já estão com alto nível de comprometimento de renda, o que deve significar uma demanda por crédito ainda menor. Por fim, o câmbio próximo de R$ 5,30 pode também oferecer algum alívio”, enfatizam.

Tudo vai depender da inflação

A elevação da taxa de juros pelo BC tem como objetivo frear a velocidade do avanço da inflação e trazê-la para a meta. Mas dados do Focus demonstram ceticismo dos economistas de mercado em relação à capacidade da autoridade monetária em conseguir arrastar a inflação dentro do limite de 5,0% para este ano. No boletim, o IPCA está estimado em 5,50% e poderá se distanciar ainda mais do teto da meta.

Para Camila Abdelmalack, economista chefe da Veedha, o Banco Central tem alguns desafios para seu plano de pouso em relação à política monetária. Está diante de uma inflação persistente e, ao mesmo tempo, tem que controlar as expectativas inflacionárias, baseadas em um “tripé capenga” e em uma responsabilidade fiscal arranhada.

De acordo com Patricia Krause, economista chefe Latin American da Coface, o pico dessa inflação deve ocorrer no segundo trimestre, com o indicador cada vez mais se afastando da meta do Banco Central de 5,0%, Para fazer frente a essa inflação, segundo ela, a Selic deve terminar 2022 em 12,75% ao ano.

Piter Carvalho, economista da Valor Investimentos – que também aposta em uma Selic de 12,75% ao ano para o fim de 2022 – pontua que a inflação atingiu em janeiro o maior patamar dos últimos quatro anos, além do fato de que o índice de difusão chegou a 67%, indicando que a pressão inflacionária continua se espalhando pela economia.

“A inflação atingiu 10,06% em 2021 e mais 0,54% em janeiro. O mercado financeiro brasileiro sempre tem a memória da inflação passada, o que vai virando uma bola de neve, difícil de ser derrotada. Principalmente se ela atinge o núcleo e registra um índice de difusão alto, ela acaba se espalhando”, analisa.

Aumento dos juros globais

Outro fator de pressão sobre a inflação doméstica é a própria inflação global, que segue em curva ascendente. Os principais BCs mundiais – incluindo o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) - estão aplicando medidas restritivas, como a alta dos juros, para segurar a inflação.

Para Nicola Tingas, economista chefe da Associação Nacional das Instituições de Crédito, Financiamento e Investimento (Acrefi), o ajuste que ocorrerá nos Fed Funds (equivalente à Selic brasileira), vai mexer com as finanças e fluxos globais lá na frente.

“Hoje há uma queda de braço entre fazer um ajuste mais contundente e mais forte no curto prazo ou fazer um ajuste mais gradual. De qualquer forma seremos impactados com isso”.

Nicola Tingas, da Acrefi

Tingas prevê que o País deve encerrar 2022 com uma Selic de 13,00% ao ano. Até como forma de evitar a saída de recursos do País em direção aos títulos americanos. Movimento que pressionaria o câmbio e, portanto, gerando mais inflação por aqui.

Confira as apostas de seis casas de análise para a Selic no fim de 2022

Casa de análiseProjeção para a Selic final em 2022
Banco Interentre 11,50% e 12,25%
Blue312,25%
Veedha Investimentos12,50%
Coface12,25%
Valor Investimentos 12,75%
Acrefi13%
Fonte: Mais Retorno

‘Para onde vai a inflação?’

Para Davi Lelis, economista da Valor Investimento, a pergunta “certa” a se fazer não é para onde vai a Selic e sim a inflação.

“Se conseguirmos controlar a inflação e ela começar a cair, teremos uma taxa de juros na casa dos 12,25% e 12,50% ao ano e veremos queda na Selic no próximo ano. Agora se houver descontrole, é possível que os juros cheguem entre 13% e 14%”, avalia Lelis.

Na opinião do economista da Valor, a grande preocupação é que a Selic no patamar de 14% ao ano, somada à dívida pública que representa mais de 80% do PIB não é sustentável para o País. “A gente não consegue manter o pagamento e uma manutenção básica da dívida com uma taxa de juros a 14% ao ano. A economia pode quebrar em pouco tempo”.

O que esperar daqui para frente?

Para os especialistas do Banco Inter, o impacto da mudança no patamar de juros do País nos últimos 12 meses ainda não foi sentido em sua grande parte. Porém, os sinais de desaquecimento da economia indicam que a política monetária já faz efeito, reduzindo o crédito e a demanda, o que reflete na baixa expectativa de crescimento do PIB, de 0,30% para 2022, segundo o Focus.

“Considerando o já elevado patamar de juros, o BC foi prudente em comunicar que a próxima alta será menor, indicando que estamos próximos do fim do ciclo. Com a recente alta das commodities, a inflação ainda deve continuar elevada nesse primeiro trimestre, cerca de 10% no acumulado em 12 meses, e uma desaceleração mais célere deve acontecer somente a partir de abril”.

Banco Inter, em relatório sobre a Selic 2022

As expectativas de mercado para a inflação, porém, devem ser acompanhadas de perto pelo BC, o que pode resultar em uma elevação residual da Selic além de março. “Ao que tudo indica, deveremos ter uma taxa Selic no final do ciclo entre 11,50% e 12,25%”, destaca o banco em relatório.

Já para o fim de 2023, o mercado financeiro prevê que a taxa de juros diminua para 8% ao ano, de acordo com os dados do último Focus.

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Sobre o autor
Julia Zillig
Repórter do Portal Mais Retorno.