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Economia

Checklist da economia moderna e os seus impactos inflacionários

Cenário atual indica conflito entre bancos centrais com metas de inflação e governo com aumento de demandas

Data de publicação:11/10/2022 às 05:00 -
Atualizado 4 meses atrás
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Volta e meia os gastos públicos (gastos do governo) preenchem as manchetes, seja por conta dos estímulos dados durante a pandemia, pela questão do aumento da desigualdade ou até mesmo pelo risco que representam para os blocos econômicos. Mas eles podem ter uma nova função dentro da economia moderna.

Porém, existem outros elementos que os pressionam e que, ao contrário do que muita gente imagina, não estão relacionados a políticas meramente populistas. É fato que um maior aumento nos gastos de qualquer governo pode vir de:

  • Uma população que envelhece, elevando os custos de aposentadorias públicas;
  • Uma nação que se defende, incrementando o orçamento bélico;
  • Uma sociedade que se preocupa com o clima, o que exige novos investimentos “verdes”;
  • Um bloco econômico que visa a autossuficiência, o que impõe uma política industrial própria.
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Na economia moderna, os gastos públicos são bem-vindos para gerar crescimento - Foto: Reprodução

O problema não é tanto o impacto isolado de cada um deles, mas a soma de todos ao longo do tempo, desviando recursos que poderiam ser alocados em políticas públicas indutoras da  produtividade, por exemplo.

Mudança de política econômica

O que os elementos acima indicam é que o mundo funcionará com regras diferentes das aplicadas durante a década de 80. Naquela época, a inflação alta e os juros de dois dígitos foram revertidos com a política fiscal e monetária seguindo na mesma direção (com exceção da Reaganomics).   

Nesse novo arranjo que promete predominar na economia mundial, percebe-se um claro conflito entre banqueiros centrais e suas metas de inflação e governos cuja lista de demandas só cresce.

Níveis mais altos de inflação

Independentemente de toda a discussão em torno de como se formam as expectativas inflacionárias, acredita-se que os níveis de inflação permanecerão mais altos.

Por mais que os gastos incorridos pelos governos nos últimos 2 anos sejam conhecidos, avaliar os estragos causados pela ruptura nos mercados de petróleo e gás não é tão simples, haja vista a importância do setor de energia em todas as atividades econômicas.

Uma forma de se mensurar isso seria a variação dos salários vis-à-vis o aumento de produtividade da mão de obra. Ela por si só seria um bom indício para níveis de preços mais altos, tudo o mais constante.

Na cabeça de qualquer banqueiro central, quanto maior a discrepância entre salários e produtividade, maior a taxa de desemprego (“sacrifício”) necessária para trazer a inflação para níveis mais condizentes com o regime de metas

Aula de economia

Independentemente da estratégia fiscal adotada (mais gastos ou menos receitas), quando um banco central decide aumentar os juros, o ideal é que a dívida pública se estabilize em termos de percentual do PIB.

O economista Thomas Sargent, juntamente com um colega, publicou um trabalho em 1981 mostrando que, sem essa ancoragem, aumentos nas taxas de juros geram mais inflação (ao invés do efeito contrário), conforme governos se endividam cada vez mais para honrar os juros mais altos que precisam pagar.

Outros estudos confirmam essa tese. Apesar de muitos darem o crédito a Paul Volcker pelo sucesso no combate à inflação na década de 80, ela só foi efetivamente contida quando a política fiscal se alinhou com a política monetária.

Novos desafios orçamentários

Dito isso, como acomodar dois itens que se tornaram bastante urgentes nas pautas orçamentárias?

Meta imposta pela OTAN

Começando com os gastos militares, países membros da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte) possuem uma meta de 2% do PIB desde 2006, mas que nunca tinha sido alcançada antes. 

Com a invasão da Ucrânia pela Rússia, o foco voltou-se para esse tema, inclusive com metas mais agressivas, como é o caso do Reino Unido, às voltas com o seu próprio caos orçamentário.

Trata-se de um custo que, somado ao envelhecimento da população e à meta de descarbonização, consumirá entre 2% e 3% adicionais do PIB já na próxima década, sem que se possa aumentar a carga tributária na mesma proporção.

Infraestrutura para o “net-zero”

Algo em torno de 90% do planeta já se comprometeu com ela.

Detalhes tecnológicos à parte, a verdade é que boa parte da energia que fará a economia girar dependerá não só cada vez mais de fontes limpas, mas também exigirá uma infraestrutura muito mais parruda para comportar a demanda de tudo que está sendo eletrificado, a começar pelos veículos elétricos.

Grandes projetos estruturantes podem se beneficiar de economias de escala, como é o caso dos painéis solares, e dos incentivos corretos via a precificação do carbono, não fosse a agenda política.

Não havendo um processo gradual para a transição energética, o que inclusive pode contemplar uma política industrial direcionada à regionalização e à autossuficiência, o mais provável é que os governos gastem muito e mal, deixando a conta para a população.

Conclusão

Metas de inflação mais altas dariam mais margem de manobra para que os bancos centrais possam agir, reduzindo os juros, sem causar outros problemas.  O que a última década evidenciou é que nem sempre podem-se prever as consequências de medidas que tecnicamente fazem sentido.

Ao se romper o zero lower bound, a exemplo da Europa, poupadores começaram a sacar os seus recursos dos bancos para guardá-los em casa, minando a força da política monetária.

Já o afrouxamento quantitativo (ou “QE”, na sigla em inglês), que tinha o objetivo de estimular a economia temporiamente, acabou sendo usado por muito mais tempo que o inicialmente previsto, o que inflacionou o valor de todo e qualquer ativo no mundo (criptos inclusive).

O outro lado da moeda é como manter a credibilidade na hora de mudar uma referência que baliza toda a atividade econômica, seja em relação ao preço observado na prateleira do supermercado, seja no impacto da reprecificação de um contrato futuro negociado em bolsa

Nesse ínterim, cabe aos governos gastar e, ao mesmo tempo, gerar mais crescimento para que a relação dívida/PIB se mantenha em níveis sustentáveis, evitando assim que a economia “trave” por conta das forças contrárias entre política monetária (juros como defesa contra a inflação) e política fiscal (que passou a incorporar novas demandas).

Dado o tamanho do desafio, talvez tenha chegado o momento de se despedir dos termos “hawkish” e “dovish”.  Que tal apenas “realistic”?

Sobre o autor
Nohad Harati
Possui MBA em Finanças e LLM em Direito do Mercado Financeiro (ambos pelo Insper/SP). É gestora de uma carteira proprietária, além de ser responsável por um Family Office.

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