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Economia

Baixa produtividade e baixo crescimento: essas são as mazelas do século XXI?

Mundo moderno gira em torno dos setores de logística, telecomunicações e financeiro

Data de publicação:20/09/2022 às 05:00 -
Atualizado um ano atrás
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Não há crescimento econômico sem produtividade. Uma das frases do economista Paul Krugman, vencedor do prêmio Nobel de Economia de 2008, resume isso muito bem: “Produtividade não é tudo, mas no longo prazo, é quase tudo.”

O aumento da produtividade, ocasião em que se faz o melhor uso dos recursos (“trabalho” e “capital”) disponíveis na sociedade, é a forma de se aumentar a renda e, consequentemente, o padrão de vida da população. Não por outro motivo, as diferenças na renda per capita entre os países.

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Produtuvidade está associada a mais educação, investimentos e uso de novas tecnologia | Foto: Reprodução

Como alavancar esse elemento mágico da economia é mais arte do que ciência. Entretanto, sabe-se que ele é uma combinação de mais educação, mais investimentos e o uso em larga escala de novas tecnologias. 

Trabalho remoto

A possibilidade do trabalho remoto (e das reuniões via Zoom) prometia ganhos de produtividade há muito tempo não vistos. Afinal, se as pessoas podiam se desvencilhar do trânsito e das distrações do ambiente de trabalho, poderiam também desenvolver melhor as suas atividades.

Como ficou evidente com essa experiência, o crescimento da produtividade exige novas formas de se produzir bens ou se oferecer serviços, o que implica em até mesmo se encerrar determinados negócios, para que os recursos (sempre escassos) possam ser alocados em oportunidades mais promissoras.

Sem impulso

Pelas estatísticas norte-americanas, a produtividade cresce a um ritmo menor há pelo menos uma década, diferentemente de meados dos anos 90, quando o mundo se apropriava das inovações conforme se integrava ao comércio internacional e às cadeias globais de valor. 

Estaria então a sociedade condenada com a falta de novas ideias de cunho prático, mesmo com as possibilidades oferecidas pela inteligência artificial e pela computação em nuvem?

De acordo com Larry Summers, economista e ex-Secretário do Tesouro dos EUA, trata-se de uma questão de políticas públicas. Se os governos são incapazes de provocar um aumento de gastos e, consequentemente, de investimentos, não há como se gerar crescimento.

Isso explica o baixo PIB mundial nos anos que antecederam a covid-19.

Investindo no futuro

Se a oferta aumenta via produtividade, há menor pressão inflacionária. Essa afirmação pode parecer óbvia, não fosse por alguns detalhes.

Os benefícios desse tipo de investimento só são percebidos após um período entre 3 e 5 anos. Isso se deve à curva de aprendizado necessária para o uso das novas tecnologias nos diversos setores da economia.

Conforme são incorporadas aos negócios, geram o chamado “capital intangível”.  Ele altera permanentemente a forma como operam, deixando um legado de conhecimento (“know-how”) que propulsiona a produtividade conforme se torna mais disseminado (“curva J de produtividade”).

Dito de outra forma, erra-se muito até que se torne padrão.

Sobrevivência

Mas esse não foi o caso dos últimos 2 anos, o que explica parte do problema.

Os “investimentos” feitos pelas empresas mais recentemente visavam garantir os seus estoques, em função de um grande desarranjo das rotas logísticas, e não necessariamente alterar o modo como os seus negócios funcionam. 

Assim considerados nas contas nacionais, não incluem as ineficiências geradas pelo caos que se instalou com os lockdowns. Nesse ambiente, a verba que antes era reservada para pesquisa e desenvolvimento (P&D) foi redirecionada para a gestão de crises.  

A receita da OCDE

Há algum tempo atrás, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) compilou uma série de dados que levou à publicação do “Futuro da Produtividade”. 

Entre os elementos apontados por ela para gerar maior crescimento global:

  • Uma maior integração entre os países;
  • Um ambiente onde as empresas podem experimentar as novas tecnologias e os novos modelos de negócios;
  • O direcionamento de recursos para as empresas mais produtivas;
  • Mais investimentos em inovação, para que as economias possam aprender e se adaptar.

Como órgão formulador de diretrizes para os países membros do grupo, é bastante evidente o foco dado às políticas públicas indutoras desses elementos, em linha com o que defende Larry Summers, citado anteriormente, pois, se deixadas a cargo dos agentes privados, as inovações se concentram em poucas empresas.

Além do incentivo à pesquisa, a recomendação de um mercado de capitais desenvolvido, para que os recursos sejam alocados nas melhores oportunidades, e um arcabouço jurídico que contemple leis de falência mais aderentes ao mundo onde as empresas experimentam (e falham) até acertarem.

No que diz respeito à competição, a redução das barreiras de entrada e das leis trabalhistas que restringem a mobilidade de mão de obra, além de recursos para o aprendizado contínuo de atuais e futuros trabalhadores.

Um ponto pouco lembrado, mas que também é sugerido pela OCDE, é a mudança nas regras de planejamento e desenvolvimento urbano, que inevitavelmente encarecem a moradia nas grandes cidades, onde normalmente a inovação se difunde mais facilmente.  

Conclusão

O setor de serviços, dadas as limitações em alcançar uma certa escala, foi amplamente favorecido pela inovação no pós-pandemia. Basta pensar no ensino à distância e na telemedicina. 

Porém, maiores saltos de produtividade dependem de outros fatores, como investimentos em infraestrutura, via a concessão de serviços públicos, e regulamentação.   

Enquanto alguns debatem que as tecnologias atuais são menos transformativas que as do passado (uma tese defendida por Robert Gordon, em seu livro “The Rise and Fall of American Growth”), outros argumentam que a forma como se mede a produtividade não necessariamente captura uma economia cada vez mais relacionada ao componente intangível da fórmula.

Seja qual for a resposta, é fato que em muitas partes do mundo a mão de obra não está só envelhecendo, mas também diminuindo (redução do recurso “trabalho”).

O mundo moderno gira em torno dos setores de logística, telecomunicações e financeiro, sendo que os últimos anos foram de enormes desafios com a pandemia, as tensões geopolíticas e o aumento de juros no mundo.

Percebe-se que fatores como “the great resignation” (a grande renúncia) e o “quiet quitting” (demissão silenciosa) nada mais são que sequelas desse fenômeno de baixa produtividade e de baixo crescimento, onde as qualificações obtidas ao longo da vida não dão “match” com o modus operandi das empresas.

De acordo com a publicação da OCDE, pessoas com qualificação acima da exigida para o trabalho são mais comuns do que a situação contrária.

Sobre o autor
Nohad Harati
Possui MBA em Finanças e LLM em Direito do Mercado Financeiro (ambos pelo Insper/SP). É gestora de uma carteira proprietária, além de ser responsável por um Family Office.

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