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Economia

Paridade da libra esterlina: desvalorização e fundamentos    

A moeda da, agora, terra do Rei Charles III já foi a principal do mundo

Data de publicação:13/09/2022 às 05:00 -
Atualizado 12 dias atrás
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A libra esterlina já foi a principal moeda do mundo.  No seu auge, o império britânico representava 1/3 da população mundial, mais de 25% dos países membros da Organização das Nações Unidas (ONU), 20% de toda a extensão territorial do planeta e 1/3 de todas as águas do mundo.

Ela deixou o posto em algum momento entre a primeira e a segunda guerra mundial, quando começou a ser substituída pelo dólar norte-americano.  Atualmente, é uma das cinco moedas mais negociadas no mercado internacional, juntamente com o dólar (já citado), o euro, o iene japonês e o franco suíço.

libra esterlina
Imagem da Rainha Elizabeth II será substituída pelo Rei Charles III nas moedas e cédulas de libra esterlina | Foto: Reprodução

Diferentemente de seus pares, a libra tem tido um desempenho bastante volátil, que mais se assemelha às moedas de economias emergentes.  A título de exemplo, ela caiu mais que o euro no início da pandemia e, desde então, tem oscilado bastante em função dos problemas internos do Reino Unido.

Com liquidez suficiente para trocar de mãos a qualquer momento, não se trata de uma moeda que sofre distorções por conta de controles de capitais (Rússia e China), políticas populistas (Argentina) ou experimentos macroeconômicos (Turquia).

Muito pelo contrário.  Apesar da Grã-Bretanha ser responsável por 3% do PIB mundial, algo em torno de 10% de todas as transações em moedas estrangeiras possuem a libra como referência.  Dada a sua importância, o que explica essa perda de valor?

Brexit e a libra esterlina

Na véspera de 24 de junho de 2016, todas as pesquisas apontavam para a permanência (“Remain”) dentro da União Europeia (UE).  Com o resultado desfavorável no plebiscito (“Leave”), a libra sofreu uma queda livre frente as outras moedas.

Curiosamente, alguns meses depois, a moeda inglesa foi vítima de um “flash crash” durante o pregão asiático. 

Por mais que se possa culpar o papel dos algoritmos nas negociações de ativos, que automaticamente executam ordens a partir de um determinado nível de preços, outros fatores, não ligados à tecnologia, tiveram um maior peso.

Uma questão de confiança

O quanto que os investidores confiam na habilidade de um governo em debelar uma crise é a questão principal. 

Discursos desfavoráveis ao ambiente de negócios, sem nos esquecer das questões ligadas à imigração, jogaram contra a imagem de cidade cosmopolita e aberta que Londres desfrutava desde a era Thatcher.

Não por outro motivo, naquele ano, a libra esterlina estreava sua posição entre as piores do mundo em um ranking de 154 moedas compilado pela Bloomberg.

Hard Brexit ou Soft Brexit?

Desde então, não se recuperou, muito por conta das idas e vindas para se desvencilhar de vez das regras impostas por Bruxelas. 

Uma vez cortado de seu principal mercado, as expectativas de crescimento para o Reino Unido não poderiam ser piores.  Ainda assim, nem sempre os problemas estão apenas dentro de casa.

A quebra do Banco da Inglaterra X libra esterlina

Como todo trader sabe bem, o valor de uma moeda (ou até mesmo a sua “tendência”, no linguajar dos entusiastas de Forex), nada mais é do que o reflexo de seus fundamentos econômicos.

Mesmo antes da implementação do euro, a Europa já conduzia alguns experimentos cambiais.  Em 1987, a libra entrou no chamado European Exchange Rate Mechanism (ERM) onde várias moedas da região eram atreladas ao marco alemão. 

Reunificação alemã

Com a queda do Muro de Berlim dois anos depois, o marco se tornou a moeda de ambos os lados da Alemanha (ocidental e oriental). 

Como forma de favorecer a reeleição de Helmut Kohl, o Östmark (moeda da Alemanha Oriental) foi mantido em uma taxa mais alta em relação ao marco alemão, ainda que às custas de um endividamento maior em função dos gastos com a reunificação.

Uma vez concluída a eleição, o Östmark alcançou a paridade com o marco alemão.  A injeção maciça de marcos no lado oriental, conforme a moeda antiga era trocada pela nova, gerou um movimento inflacionário dentro do país.

Duplo mandato

O Bundesbank, que ao mesmo tempo lastreava o ERM e conduzia a política monetária na Alemanha, se viu obrigado a aumentar os juros enquanto as demais economias europeias (e a Inglaterra especificamente) estavam em recessão

Naquele momento, ficou claro que o ERM, tal como concebido, tinha se tornado um objetivo secundário.

Vender moedas europeias a descoberto, apostando que não manteriam as suas respectivas cotações, passou a ser a principal estratégia para se tentar ganhar dinheiro e, com a libra esterlina, não foi diferente. 

Porém, como as autoridades nunca anunciam previamente a desvalorização de sua moeda, manter-se no jogo até que ela efetivamente aconteça foi o que diferenciou George Soros dos demais.

Em 1992, o Banco da Inglaterra (banco central do país) quebrou ao tentar defender a sua moeda, que caiu de uma relação de 2,95 libras por marco alemão para 2,50 libras por marco alemão, gerando um lucro de US$ 2 bilhões ao lendário Quantum Fund de Soros.

Mudando o comando

Apesar da Rainha Elizabeth II, Chefe de Estado também de suas ex-colônias, ter comemorado o seu jubileu de 70 anos de reinado antes de falecer, Boris Johnson, que prometia concluir o Brexit (“get Brexit done”), renunciou no meio do ano. 

Ele é o terceiro primeiro ministro a sair em um período de apenas 6 anos. 

Tal como em outras partes do mundo, o Reino Unido convive com a inflação mais alta de todos os tempos, o que propiciou uma onda interminável de greves, além do baixo crescimento econômico.

A disputa entre Rishi Sunak, um ex-aluno de Stanford e que recentemente ocupou o cargo de ministro das finanças, e Liz Truss, secretária de relações exteriores, se concentrou nas soluções que vislumbravam para temas como:

  • Tributação e gastos públicos;
  • Política energética;
  • Atração de investimentos;
  • Mercado de trabalho e qualificação de mão de obra.

Ao final da campanha, Truss prevaleceu, tendo o privilégio de se despedir de Sua Majestade, sempre isenta em um mundo tão polarizado, quando foi convidada a formar o seu gabinete.

Conclusão sobre libra esterlina

O mercado de moedas vai muito além do que governos, empresas e pessoas pagam ou recebem do exterior. 

Ele também reflete mudanças econômicas e geopolíticas, como o exemplo do euro (que já alcançou a paridade com o dólar norte-americano) e da libra esterlina bem mostram.

A pior cotação alcançada pela moeda inglesa desde 1985 coloca no centro do debate o papel que o Reino Unido, pertencente ao G7, terá no mundo.

O mercado de apostas, seja no futebol ou na política, é um dos esportes favoritos dos ingleses.  Quem se habilita a apostar no 1:1?

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Sobre o autor
Nohad Harati
Possui MBA em Finanças e LLM em Direito do Mercado Financeiro (ambos pelo Insper/SP). É gestora de uma carteira proprietária, além de ser responsável por um Family Office.