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Economia

Sanções econômicas na prática: o que podemos aprender com elas?  

Algo em torno de 100 países, ou 40% do PIB mundial, não estão seguindo as sanções impostas à Rússia ao pé da letra

Data de publicação:05/09/2022 às 05:00 -
Atualizado 20 dias atrás
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Dois dias depois da invasão pela Rússia, o governo ucraniano decidiu postar nas redes sociais os endereços das suas carteiras de bitcoin, ethereum e tether com o objetivo de receber doações.

Com as suas atividades bancárias já reduzidas, tratava-se de um meio rápido e barato para se levantar dinheiro enquanto o socorro formal seguia os trâmites burocráticos em Bruxelas e nos Estados Unidos

sanções econômicas
Com o início da guerra no leste europeu, países do Ocidente passaram a impor sanções econômicas contra a Rússia | Foto: Reprodução

A iniciativa vingou, o que promoveu uma série de outras ações. 

Apesar do baixos valores quando comparados aos programas de auxílio de instituições supranacionais, US$ 6,5 milhões foram levantados via o leilão de um token não fungível (NFT) da bandeira ucraniana. 

Plataformas de crowdfunding foram colocadas no ar para arrematar impressoras 3D, usadas para a fabricação de peças para drones. 

A Ucrânia, mesmo não estando exposta a sanções, improvisou no seu esforço de guerra.  O que dizer então da Rússia?  Seis meses após o início do conflito, a “Fortaleza Rússia” tem resistido melhor que o esperado. 

Sem polícia 

Algo em torno de 100 países, ou 40% do PIB mundial, não estão seguindo as sanções ao pé da letra.

As medidas que mais ganham destaque são justamente as menos efetivas.  Por mais que vídeos mostrando os confiscos de bens de oligarcas façam sucesso na internet, as sanções contra a elite russa em nada influenciam a forma como se faz política no Kremlin.

Além disso, dizer a outros países o que devem fazer dentro de seus próprios territórios exige uma certa destreza operacional, principalmente quando se leva em conta legislações e interesses distintos.

Não com o meu dinheiro

O que poucos se atentam é que impedir a transferência de recursos ou suspender a negociação de ativos traz danos a ambos os lados da mesa.

Ao se excluir os bancos russos do sistema de mensageria SWIFT, logo nas primeiras semanas da guerra, danificou-se um dos principais links financeiros da Europa.  A parte alemã do sistema Target 2, que faz a liquidação de transações entre os bancos da zona do euro, ficou com as suas atividades comprometidas.

Qualquer um poderia alegar que o problema respingaria no resto do continente, não fosse o ímpeto dos norte-americanos de fazerem o papel de xerife do mundo, proibindo que os seus bancos atuem como intermediários para outras instituições financeiras. 

Algo próximo a 40% de todas as transações entre fronteiras são feitas via cédulas verdes estampadas com uma faixa azul, as mesmas que facilitam as transações entre outras moedas, menos negociadas no mercado internacional.

Execução é tudo, até contra sanções econômicas

Se tem alguma coisa que os países que compõem os BRICS possuem são os seus notáveis banqueiros centrais. 

Elvira Nabiullina, responsável pela gestão das reservas do Banco Central da Rússia, elevou as taxas de juros de 9,5% para 20%, visando conter a queda livre do rublo, sem dar muita bola para a impopularidade da medida.

Isso permitiu que os juros voltassem a um patamar inferior, de 8%, já no final do mês de julho, mesmo com o país não honrando um pagamento de US$ 100 milhões devido a bondholders estrangeiros. 

Não há dúvidas de que a cotação oficial do rublo é “artificial”, dado o controle de capitais imposto.  Porém, mesmo com as reservas congeladas, o país ainda recebe muitos recursos do exterior, haja vista o quanto exporta em combustíveis fósseis. 

O setor de petróleo, sozinho, responde por nada menos que 36% do orçamento russo.

Novos mercados para driblar as sanções econômicas

Se desvencilhar das armadilhas impostas pelas sanções econômicas implica em atender outros mercados, como a China (que possui o sistema de pagamentos CIPS e cuja moeda é negociada na Bolsa de Moscou) e a Índia. 

Ambas compram petróleo russo a um preço US$ 25 inferior ao preço de referência do mercado (Brent), o que ainda é vantajoso considerando que os altos preços de petróleo deixaram de ser uma realidade desde 2014, quando se encerrou o último super ciclo de commodities.

Upgrade

Apesar de ter diversificado a sua economia, diferentemente da situação em que se encontram outras economias emergentes, boa parte da infraestrutura do país de Putin é suprida pela tecnologia de outros países.   

Sem o recebimento de novos componentes, não há como se fazer a manutenção e a atualização de máquinas e equipamentos, justamente em um momento em que a Rússia enche os cofres com um adicional de receitas petrolíferas de US$ 265 bilhões.

Na ausência de fornecedores, proibidos de suprir peças por conta das sanções, a saída pode ser o mercado de segunda mão.

Souk, o mercado árabe

Um vizinho cuja moeda se desvalorizou 75% em um período de 4 anos pode ser bastante atrativo para quem está com os bolsos cheios de dólares.

Esse é caso da Turquia. Ao se tornar um fornecedor barato de várias mercadorias, como em um típico mercado árabe, Erdogan favorece a sua reeleição e garante recursos em moeda forte, sem se preocupar em atrair capital de outros lugares do mundo, via elevação de juros.

Dessa forma, terá condições de manter o crédito farto e estimular o crescimento.

Conclusão sobre sanções econômicas

Os custos políticos das sanções econômicas se tornarão mais evidentes para os europeus quando o inverno chegar. 

Por mais que alguns países tentem amenizar o impacto dos preços mais altos de energia, estudos econômicos mais recentes apontam que estratégias de controle ou limite nos preços aumentam o consumo, indo exatamente na direção contrária da intenção desejada, que é reduzir a dependência dos recursos naturais da Rússia.

Os membros da União Europeia (UE) são atendidos de formas diferentes no que diz respeito às suas necessidades energéticas e os seus fornecedores, o que torna mais complexo qualquer plano de redução de consumo coordenado pela Comissão Europeia.

Enquanto Putin resiste, terão os 27 países do bloco o mesmo jogo de cintura, considerando que devem defender os interesses da UE acima de todos os demais?

Contrariando as expectativas iniciais, a morte súbita não veio para a Rússia, algo que a China está observando e também aprendendo.

Sobre o autor
Nohad Harati
Possui MBA em Finanças e LLM em Direito do Mercado Financeiro (ambos pelo Insper/SP). É gestora de uma carteira proprietária, além de ser responsável por um Family Office.