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Economia americana
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A volta da Reaganomics: realidade ou ficção na economia americana?

Juros altos combatem a inflação, mas na coexistência provocam estragos na atividade econômica

Data de publicação:04/10/2022 às 05:00 -
Atualizado 2 meses atrás
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Altos índices de inflação e altos níveis de juros. Enquanto o segundo é usado para combater o primeiro, existe um período em que ambos coexistem, causando estragos na economia.

Por mais que isso possa refletir o contexto atual, esse era o cenário dos EUA em 1981, quando Ronald Reagan, um ator de Hollywood, se tornou presidente, assumindo o comando de um país já em recessão.

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Economia dos EUA teve corte de impostos e aumento de gastos para combater a recessão em 1981 - Foto: Wirestock

Reaganomics

Para contornar a situação, Reagan implementou políticas focadas em 3 elementos:

  1. Corte de impostos;
  2. Aumento de gastos governamentais (inclusive militares);
  3. Desregulamentação.

Na época, havia sérias dúvidas se esses estímulos eram os mais adequados, dado o esforço do Federal Reserve (Fed) em combater a inflação com uma taxa de juros de 19%.  Entretanto, a chamada Reaganomics (política econômica da era Reagan) funcionou.

Entre os anos de 1982 e 1984, a demanda interna, que se beneficiou de uma mudança demográfica via uma maior participação das mulheres no mercado de trabalho, cresceu algo em torno de 15%, uma velocidade supersônica quando comparada com o Japão (5%) e a Europa (menos de 3%).

Para o êxito da empreitada, o câmbio foi determinante. Tal como agora, o dólar se fortaleceu em relação às demais moedas, o que ajudou a controlar a inflação conforme as importações se tornavam mais baratas.

A opção menos pior

Operadores de câmbio experientes categoricamente afirmam que o dólar não é perfeito, mas é a opção “menos pior” quando as coisas vão muito mal. 

Isso pode ser explicado por dois fatores:

  1. A fuga para o dólar nos momentos de incerteza;
  2. As realocações nas carteiras a cada aumento de juros pelo Fed. 

Além disso, um cenário em que os preços do petróleo e do gás natural permanecem elevados favorece o dólar duplamente, visto que os EUA são exportadores de commodities energéticas desde 2019, graças à revolução do xisto.

Outros tempos

Donald Trump lançou a sua própria versão em 2018, aproveitando-se também do dólar valorizado. Com o Fed cada vez mais agressivo, seria o caso de um retorno da Reaganomics?

No início da década de 80, o dólar se valorizou mais de 80% em relação às moedas dos principais parceiros comerciais dos EUA. Com a sua economia robusta, comprou em enormes quantidades do mundo inteiro, criando indesejados desequilíbrios externos.

Os assessores econômicos de Reagan não pareciam muito incomodados com isso. Argumentavam que os altos juros pagos por uma moeda de reserva internacional atraíam capitais de todos os lados do planeta, chancelando a supremacia do modelo norte-americano.

Os primeiros efeitos colaterais desse desajuste foram sentidos nos países da América Latina, com o corte dos empréstimos externos, conforme os países da região se juntavam ao México na fila de calotes.

Manipulação cambial

As coisas mudaram a partir de 1985, conforme o protecionismo ganhou corpo nos EUA. Culpava-se o Japão pelo desmantelamento das indústrias locais e pelo desemprego (algo semelhante à posição da China na gestão de Donald Trump). 

Depois que aproximadamente 100 normas protecionistas foram aprovadas pelo Congresso, James Baker, Secretário do Tesouro de Reagan, propôs um plano onde, com a ajuda dos outros países, se buscaria a desvalorização do dólar.

No dia 22 de setembro de 1985, formalizou-se o Acordo do Plaza, no hotel de mesmo nome em Nova Iorque, com a presença das autoridades dos EUA, Japão, Alemanha, França e Inglaterra. Ao longo dos 2 anos seguintes, alcançou-se o objetivo desejado.

Após sofrer uma queda acumulada de 54% frente ao marco alemão e o iene japonês, tinha chegado então o momento de se estabilizar o dólar, iniciando-se o movimento inverso. 

Com um novo acordo assinado em Paris, chamado de Acordo do Louvre, estipulou-se a atuação no câmbio para que permanecesse dentro de determinadas faixas, não conhecidas publicamente, pelos mesmos agentes.

A tática funcionou, mas gerou novos desequilíbrios na Europa e no Japão. 

O papel dos bancos centrais

Blindar os bancos centrais desses e de outros movimentos de ordem política foi o que levou à independência dos mesmos.

A verdade é que os bancos centrais existem há bastante tempo. O primeiro deles, o banco central sueco, iniciou as suas atividades em 1668. Seu objetivo principal era ser o emprestador do governo e, no caso da crises bancárias, o emprestador de última instância.

Metas de inflação (e de pleno emprego, para os bancos centrais com mandato duplo) foram incorporadas apenas a partir da década de 90. 

Levando-se em conta o poder desestabilizador das mudanças climáticas, há uma preocupação atual em se adicionar metas climáticas ao conjunto de elementos sob sua alçada, juntamente com a estabilidade financeira e cambial.

As experiências com o quantitative easing (QE) e os juros negativos desde a crise de 2008, que foram adaptadas ao contexto da pandemia, juntamente com as criptomoedas de emissão soberana e os novos desdobramentos geopolíticos, serão determinantes para moldar os seus poderes e atribuições no futuro.

Diante disso, o quanto manterão de sua independência e empenho nas suas funções mais básicas é algo a ser observado.

Conclusão

As políticas adotadas pela gestão de Reagan não evitaram que a inflação voltasse poucos anos depois. A situação só foi controlada quando o Congresso norte-americano aprovou um aumento de impostos na década seguinte, retornando a tributação ao patamar anterior.

Além disso, coordenar uma desvalorização ou estabilização cambial na economia americana seria infinitamente mais difícil nos dias de hoje, considerando o peso da China, as regras da União Europeia e os problemas internos do Reino Unido.  

Para reduzir possíveis desequilíbrios decorrentes de um dólar mais forte, duas condições teriam que ser cumpridas. A primeira delas, a diminuição da discrepância no ritmo de crescimento das principais potências globais.

Enquanto isso não for factível, grandes volumes de recursos continuarão entrando nos EUA e gerando mais aperto monetário, o que retroalimenta o processo de contração da economia mundial, nova fuga para o dólar e novos aumentos de juros pelo Fed.  

A segunda, e igualmente importante, depende de quão rapidamente Europa e China se desvencilharão de fatores fora de seu controle (a guerra na Ucrânia e o combate à covid-19 respectivamente), algo que Reagan não precisou se preocupar, haja vista o colapso da União Soviética em 1991.

Sobre o autor
Nohad Harati
Possui MBA em Finanças e LLM em Direito do Mercado Financeiro (ambos pelo Insper/SP). É gestora de uma carteira proprietária, além de ser responsável por um Family Office.

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