Economia

Aumento da taxa real nesse ciclo é o maior do regime de metas, diz carta do BC

Campos Neto afirma que Banco Central vai continuar calibrando os juros para conter a inflação

Data de publicação:12/01/2022 às 00:30 - Atualizado 16 dias atrás
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Para demonstrar que segue no combate à alta de preços no País, o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, destacou em carta do BC ao ministro da Economia, Paulo Guedes, que o atual aumento da taxa real de juros no Brasil é o maior desde a criação do regime de metas para a inflação, em 1999. O IPCA registrou alta de 10,06% em 2021, muito acima do teto da meta de 5,25% estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN).

Considerando as trajetórias da inflação e da Selic pelo Relatório Focus de expectativas de mercado, Campos Neto destaca que a taxa média real de juros passou de -1,3% no último trimestre de 2020 para 4,4% no último trimestre de 2021. O BC projeta que a taxa real de juros chegará a 6,3% no primeiro trimestre de 2022 e a 6,4% no segundo trimestre deste ano.

carta do BC
Presidente do BC, Roberto Campos Neto enviou carta aberta ao ministro da Economia- Foto: Marcos Oliveira/Agência Senado

"O crescimento da trajetória da Selic nominal foi mais acentuado do que o aumento das expectativas de inflação na medida considerada. Esse movimento significou a passagem da política monetária do campo expansionista para o território contracionista (supondo uma taxa de juros real neutra de 3,5% a.a.)", acrescentou Campos Neto, no documento.

Mais uma vez, o BC alerta que questionamentos sobre o futuro do arcabouço fiscal leia-se, do teto de gastos aumentam o risco de desancoragem das expectativas de inflação e elevam a probabilidade de cenários com taxa neutra de juros mais alta.

A carta aberta é uma exigência do sistema de metas, quando a inflação fica fora do intervalo de tolerância, para explicar as razões do descumprimento e indicar providências para o retorno à meta, assim como o prazo para que isso ocorra.

Inflação foi importada, diz carta do BC

O presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, decompôs a influência quantitativa de cada fator determinante para o desvio da inflação de 2021 à meta estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN.

O IPCA, o índice oficial de inflação, terminou o ano passado em 10,06%, 4,81 pontos porcentuais acima da banda superior do objetivo a ser perseguido pelo BC (5,25%) - o maior desvio em quase 20 anos, já que, em 2002, o "estouro" foi de 7,03 pontos porcentuais. O centro da meta era de 3,75%. A última vez que o teto da meta havia sido rompido, em 2015, a distância havia sido de 4,17 pontos porcentuais, quando o IPCA registrou alta de 10,67%.

Na carta, Campos Neto destacou que o principal fator para o desvio de 6,31 pontos porcentuais em relação ao centro da meta de 2021 (3,75%) foi a inflação importada, com contribuição de 4,38 pontos porcentuais, ou cerca de 69% do total.

"Abrindo esse termo, destacam-se as contribuições de 2,95 p.p. do preço do petróleo, 0,71 p.p. das commodities em geral, medidas pelo Índice de Commodities - Brasil (IC-Br), e 0,44 p.p. da taxa de câmbio", explicou ele.

Conforme Campos Neto, a inércia da inflação do ano anterior teve contribuição de 1,21 ponto porcentual e a bandeira tarifária de energia elétrica, de 0,67 ponto porcentual, refletindo a adoção da bandeira escassez hídrica com a seca registrada no País no ano passado. A bandeira escassez hídrica, adotada em setembro, custa R$ 14,20 em tarifa adicional a cada 100 quilowatt-hora utilizados pelo consumidor.

O presidente do BC ainda afirmou que as expectativas de inflação medidas pela pesquisa Focus contribuíram com 0,25 ponto porcentual da inflação em relação à meta. No modelo, ainda são considerados "demais fatores", como a variação do IGP-M, e questões específicas ligadas a medicamentos, plano de saúde e anomalias climáticas, mas que não foram destrinchadas por Campos Neto.

Ele ainda mencionou que, no modelo desagregado de pequeno porte, encontra-se que os preços de bens industriais contribuíram com 1,77 ponto porcentual para o IPCA de 2021, "refletindo os problemas logísticos e os desequilíbrios entre oferta e demanda globais".

Em sentido oposto, o hiato do produto estimado negativo, ou seja, o nível de atividade econômica abaixo do crescimento potencial, teve contribuição de baixa de 1,21 ponto porcentual em 2021. "Portanto, de acordo com essa decomposição, houve uma combinação de choques de custos que foi contrabalançada parcialmente pelo hiato do produto negativo", sintetizou Campos Neto.

Preços administrados

Na carta aberta, Campos Neto também fez uma análise detalhada dos componentes que mais contribuíram para o desvio. Ele destacou, por exemplo, que a alta dos preços administrados, em meio ao avanço do petróleo e à crise hídrica, só ficou atrás dos anos de 1999 e 2015.

Campos Neto destacou que o aumento dos preços de commodities em reais, o aumento da energia elétrica e os desequilíbrios na cadeia de bens provocados pela pandemia de covid-19, fatores principais para o rompimento da meta, se traduziram em "grandes variações em diferentes componentes" de preços.

O presidente do BC citou que o aumento dos preços administrados (16,90%), com contribuição de 4,34 pontos porcentuais para o IPCA de 2021, só foi menor que nos anos de 1999 e 2015, refletindo os aumentos de combustíveis e energia elétrica. "Os preços de gasolina, gás de bujão e energia elétrica residencial subiram 47,49%, 36,99% e 21,21% (contribuições de 2,33 p.p., 0,41 p.p. e 0,98 p.p.), respectivamente. O preço do etanol subiu 62,24%, acima dos demais combustíveis, refletindo também a quebra na safra de cana-de-açúcar", citou.

Ele ainda mencionou que o aumento de bens industriais (12%) e alimentação no domicílio (8,23%), contribuições de 2,75p.p. e 1,25p.p., respectivamente, foram bastante afetados pelos preços de commodities e os gargalos globais nas cadeias produtivas. Campos Neto também citou o aumento de 4,75% dos preços de serviços, com contribuição de 1,72 ponto porcentual.

No documento, o presidente do BC lembra que a inflação de serviços foi particularmente afetada pela pandemia de covid-19, refletindo em boa medida a evolução do distanciamento social, com o grupo atingindo o mínimo histórico de 0,95% no IPCA em 12 meses até agosto de 2020, fechando aquele ano em 1,73%. Contudo, com a reabertura econômica propiciada pelo avanço da vacinação, os preços de serviços começaram a se recompor este ano.

"Em outras palavras, uma parcela da inflação de serviços em 2021 está relacionada à normalização, em nível, de preços que estavam deprimidos em decorrência dos impactos específicos da crise sanitária", disse Campos Neto, na carta.

A carta aberta é uma exigência do sistema de metas, criado em 1999, quando a inflação fica fora do intervalo de tolerância, para explicar as razões do descumprimento e indicar providências para o retorno à meta, assim como o prazo para que isso ocorra.

A última carta enviada pelo BC para justificar o descumprimento do seu mandato foi relativa ao ano de 2017, mas, daquela vez, o presidente à época, Ilan Goldfajn, teve de explicar o porquê de a inflação ter ficado aquém da meta, em 2,95%. Além de 2015 e 2002, o limite superior da meta também foi rompido em 2001 e 2003.

BC vai continuar calibrando os juros

Após o IPCA ter registrado alta de 10,06% em 2021, muito acima do teto da meta de 5,25% para o ano passado, o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, alegou em carta do BC que tem tomado as devidas providências para que a inflação atinja as metas para a inflação determinadas pelo Conselho Monetário Nacional (CMN).

"O BC tem calibrado a taxa básica de juros, e continuará a fazê-lo, com vistas ao cumprimento das metas para a inflação estabelecidas pelo CMN", destacou Campos Neto, no documento.

A carta aberta é uma exigência do sistema de metas, criado em 1999, quando a inflação fica fora do intervalo de tolerância, para explicar as razões do descumprimento e indicar providências para o retorno à meta, assim como o prazo para que isso ocorra.

Embora tenha mantido a avaliação de que os choques inflacionários eram temporários até junho do ano passado, o BC alega na carta que, desde o fim de 2020, já havia iniciado mudanças em sua comunicação, com o início do ciclo de alta da Selic já no primeiro trimestre de 2021, com a alta da taxa básica de juros de 2,00% para 2,75% ao ano em março. Ao longo de sete reuniões, a Selic foi elevada em 7,25 pontos porcentuais, encerrando o ano em 9,25% ao ano.

"Durante o ano, o Copom recalibrou seu orçamento e ritmo do ajuste de política monetária, em resposta aos desenvolvimentos econômicos que impactaram negativamente suas projeções e à deterioração das expectativas de inflação, com vistas a garantir a convergência da inflação para as metas ao longo de seu horizonte relevante. Vale notar que o cenário econômico de recuperação posterior à pandemia de covid-19 tem sido marcado por incerteza e volatilidade acima das usuais, o que tem se refletido nas surpresas inflacionárias de todo o mundo", argumentou Campos Neto, no documento.

A última carta enviada pelo BC para justificar o descumprimento do seu mandato foi relativa ao ano de 2017, mas, daquela vez, o presidente à época, Ilan Goldfajn, teve de explicar o porquê de a inflação ter ficado aquém da meta, em 2,95%.

Além de 2015 e 2002, o limite superior da meta também foi rompido em 2001 e 2003.

Depreciação do câmbio

As incertezas fiscais também estiveram presentes no rol de explicações do presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, sobre o rompimento da meta de inflação de 2021, via efeito na taxa de câmbio. Na carta do BC endereçada ao ministro da Economia, Paulo Guedes, para justificar o descumprimento da meta inflacionária, Campos Neto destacou que a depreciação cambial no segundo semestre do ano amplificou o encarecimento dos preços de commodities, em particular do petróleo no ano passado.

"A tendência de depreciação na segunda metade de 2021 refletiu principalmente questionamentos em relação ao futuro do arcabouço fiscal vigente e o aumento dos prêmios de risco associados aos ativos brasileiros, diante da maior incerteza em torno da trajetória futura do endividamento soberano", disse Campos Neto.

No trecho, o presidente do BC pondera que a contribuição da taxa de câmbio para inflação de 2021 foi menor que o impacto em 2020, mas frisa que a quebra no padrão histórico de apreciação da moeda durante ciclos de elevação nos preços das commodities, como o ocorrido nos últimos dezoito meses.

"Como resultado, o crescimento do IC-Br Índice de Commodities do Banco Central e do preço do petróleo medidos em moeda local foi amplificado, atingindo 50,3% e 82,9% no ano, respectivamente, na comparação da média do último trimestre de 2021 com o mesmo período de 2020, ambas as maiores variações desde o início de suas séries históricas", justificou Campos Neto.

Em relação às commodities, Campos Neto afirmou que o aumento de preços foi afetado por diversos fatores, como o aumento da demanda global por bens, o crescimento nos custos de transportes, o anúncio de programas de infraestrutura nos EUA e o aumento modesto da oferta, especialmente de petróleo, commodity com maior repasse no IPCA.

Quanto à atividade econômica, Campos Neto destacou que 2021 foi "marcado pelo avanço da campanha de vacinação e o processo de normalização da atividade econômica iniciado ainda no segundo semestre de 2020". O presidente do BC ainda mencionou que a extensão de auxílios fiscais de 2020 sustentou a demanda, especialmente por bens, no ano passado, "reforçando as pressões de preços em segmentos com limitações de oferta ou gargalos logísticos."

Nesse âmbito, ele citou problemas "como esgotamentos de estoques de insumos, escassez de semicondutores e aumentos de prazos de entrega e de preços dos fretes internacionais." Referente a isso, citou o aumento da demanda global por bens, sem reação tempestiva da oferta, interrupções na produção ligadas à pandemia e pressões no mercado de energia, mais demandado pela produção de bens e com parte da expansão da oferta limitada pelas "políticas de limitação de emissão de gases de efeito estufa em diversos países".

Na carta, também foram mencionados o acionamento da bandeira de escassez hídrica, com a seca histórica do País no ano passado, assim como as projeções do BC e do mercado. "As projeções condicionais do BC para a inflação de 2021, depois de atingirem mínimo de 2,9% na reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) de setembro de 2020, entraram em trajetória ascendente, ultrapassando a meta na reunião de março de 2021 e o limite superior do intervalo de tolerância na reunião de junho./Agência Estado

Sobre o autor
Regina Pitoscia
Editora do Portal Mais Retorno.
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