Renda Variável

Num mês marcado por tensões no cenário político, escalada na inflação e perspectivas de risco fiscal, a Bolsa de Valores brasileira, a B3, apresentou muita volatilidade, com ações de diversos setores sendo penalizadas. Empresas ligadas ao varejo, consumo e construção civil foram algumas das que mais caíram em agosto. Mas, o cenário externo também contribuiu para o desempenho negativo de alguns segmentos, principalmente os de mineração e siderurgia.

Em contrapartida, especialistas explicam que o período volátil para a Bolsa beneficiou as companhias que apresentam um perfil mais defensivo, além daquelas que fazem parte do mercado de utilities (sobretudo as de energia). A alta demanda por petróleo em nível global e, por consequência, a valorização no preço da commodity foram destaques positivos do mês.

Foto: B3/Divulgação ações
Sede da B3 em São Paulo - Foto: B3/Divulgação

Empresas ligadas ao minério de ferro lideram as quedas

A maior baixa registrada em agosto até o fechamento do pregão desta segunda-feira, 30, ficou por conta da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), com queda de 17,07%. Todas as principais empresas ligadas ao minério de ferro também apresentaram resultados negativos até aqui. Vale, Usiminas e Gerdau, na sequência, reportaram baixa de 8,01%, 9,38% e 5,16% no mês.

Conforme explica Gustavo Akamine, analista da Constância Investimentos, as companhias que dependem, em certa parte, de decisões vindas da China enfrentaram dificuldades por conta das políticas adotadas pelo país asiático para tentar controlar a alta no preço do minério de ferro no mercado.

No entanto, nos último dias, as empresas do setor de siderurgia passaram por um movimento de leve correção. A recuperação veio quando, na última terça-feira, 24, a China deu sinais de arrefecimento de covid-19 com a diminuição no número de casos e mortes. Com esse quadro e tendo em perspectiva uma retomada econômica mais acelerada no país, o que aumenta a demanda por produtos, o preço das commodities avançou a partir de então.

Consumo: papeis estão entre as 10 maiores quedas

Em agosto, as empresas de consumo também foram bastante penalizadas, seguindo a tendência de alta nos preços, preocupação em relação ao risco fiscal e, consequentemente, elevação da curva de juros. As ações do Iguatemi (-14,70%), Via Varejo (-14,54%), Lojas Americanas (-13,68%) e Americanas (-12,04%) estiveram entre as 10 maiores baixas da Bolsa em agosto.

Com uma inflação mais forte, o poder aquisitivo da população diminui, prejudicando diretamente as varejistas, que dependem do público. Já os ruídos políticos e o ambiente de tensão entre os poderes que se instaurou ao longo do mês, além das próprias perspectivas em relação ao cumprimento - ou não - do teto de gastos pelo governo, traz em uma maior cautela por parte dos estrangeiros na hora de investir no Brasil.

Todo esse cenário, segundo Charo Alves, especialista da Valor Investimentos, contribui para uma abertura mais acentuada da curva de juros. Por sua vez, os juros mais altos são outro fator que interferem no poder de compra das pessoas, tendo em vista que o custo de financiamento e crédito no médio e longo prazo fica mais alto.

Além das varejistas, o setor de construção civil também é bastante impactado com as altas nos juros, explica Alves. Dentre as companhias do setor, a maior baixa do mês é da JHSF, com variação negativa de 10,46%.

O especialista ressalta, ainda, que o setor de varejo vem enfrentando uma concorrência de peso de gigantes internacionais, o que pode ocasionar uma perda de espaço das empresas brasileiras e, por fim, queda nas ações. Há duas semanas, por exemplo, o AliExpress, serviço de vendas internacionais do grupo chinês Alibaba, deu um passo a mais para sua consolidação no Brasil com o anúncio da abertura de sua plataforma para vendedores do País.

Utilities e petróleo ganham força em agosto

No campo das 10 maiores altas da B3 em agosto, seis foram de empresas ligadas ao petróleo ou às utilities. De acordo com Charo Alves isso acontece porque "quando o mercado estressa, os investidores fogem para as empresas mais estáveis e perenes".

O analista da Constância Investimentos compartilha da mesma opinião e destaca que a compra de ações dessas companhias pode ser uma estratégia do investidor em momentos de aversão a risco.

Esse é o caso das empresas de energia elétrica que, mesmo com a crise hidrológica que atinge o País, ainda possuem uma receita estável por conta dos contratos de longo prazo que mantêm com os governos. Vale lembrar que utilities são os bens e serviços considerados essenciais (água, eletricidade e gás), ou seja, independente de crises, a demanda por esses bens e serviços sempre vai existir.

As principais altas nas ações do setor de energia no mês ficaram por conta da CPFL Energia (14,61%), Cemig (10,39%), EDP Brasil (7,65%), Companhia Paranaense de Energia (7,35%) e Equatorial (4,67%). Ainda entre as empresas de utilities, a Sabesp também teve uma valorização significativa no mês em seus papéis, de 3,38%.

Para Gustavo Akamine, os próximos meses podem ser de volatilidade para algumas das companhias de energia elétrica por conta da crise hidrológica, "dependendo de qual ponta do setor a empresa está inserida". Para o analista, aquelas que trabalham com geração de energia, por exemplo, podem ser mais impactadas do que as de distribuição.

No entanto, Akamine ressalta também que o mercado global vem apresentando uma tendência de crescimento na demanda por energia renovável. Dessa forma, as empresas brasileiras, inclusive as de geração de energia, que possuem uma preocupação maior com essas questões ambientais podem se beneficiar do movimento.

Já as petroleiras e petroquímicas surfaram na onda do aumento na demanda por petróleo pelo mundo, o que valorizou o preço da commodity e fez as ações das companhias subirem. Os papéis da Petrobras, PETR4 e PETR3, avançaram 11,43% e 10,50%, respectivamente. Enquanto isso, PetroRio observou um aumento de 8,12% em suas ações até o fechamento do pregão da última segunda, e a Braskem registrou alta de 8,21%.

O especialista da Valor Investimentos considera que o desempenho da Braskem - que tem a maior alta do ano (165,13%) na B3 até aqui - também está relacionado a uma recuperação que veio acima das expectativas do mercado depois de alguns anos "apanhando com os desdobramentos da Lava Jato".

Balanços coorporativos do segundo trimestre

Agosto também marcou o fim da temporada de divulgação dos resultados coorporativos do segundo trimestre de 2021. Os números apresentados por algumas empresas influenciaram o desempenho de seus ativos na Bolsa de Valores.

Entre as baixas, destaque para a Qualicorp e a Ultrapar, que caíram 16,39% e 16,05% no mês, respectivamente.

Braulio Langer, analista da Toro Investimentos, menciona que a empresa da área de saúde teve o cancelamento de cerca de 138 mil planos no trimestre após realizar um reajuste de 23% nos seus preços. Esse aumento mais expressivo veio porque a companhia incluiu nos reajuste, também, a alta de 14,8% do último ano que, por conta da pandemia de covid-19, havia sido adiada.

Neste contexto, o lucro da Qualicorp, de R$ 90,3 milhões, recuou 28,4% em relação ao mesmo período do ano passado.

Já os resultados da Ultrapar, explica Langer, ficaram abaixo das expectativas de mercado, justificando o desempenho negativo das ações da empresa ao longo do mês. A companhia registrou prejuízo líquido de R$ 18,2 milhões no segundo trimestre.

No sentido oposto, a Embraer, que, até segunda-feira, registrava uma alta de 23,99%, a maior da B3 no mês, foi uma das empresas que viu seus papéis avançarem com a divulgação dos balanços trimestrais.

"Os resultados da companhia melhoraram substancialmente, revertendo prejuízo de R$ 900 milhões para um lucro líquido de R$ 212,8 milhões ajustado. Esse foi o primeiro resultado trimestral positivo desde o começo de 2018", afirma o analista da Toro.

As perspectivas para a Embraer nos próximos trimestres é de aumento de lucratividade, depois de momentos turbulentos vividos pela companhia no último ano, em meio ao impacto provocado pela pandemia. Entre os motivos para a boa visão futura estão a redução de custos fixos, melhora na eficiência operacional, perspectivas de aumento de produção e uma redução no cenário de demissões, explica Langer.

Na mesma esteira, a Suzano, empresa de papel e celulose, que viu suas ações valorizarem 14,46% até 30 de agosto, também se beneficiou dos bons números apresentados em seu balanço trimestral.

No período, a companhia reverteu prejuízos registrados nos últimos trimestres e também com relação ao ano passado. "Os bons números da Suzano se dão, sobretudo, por resultados financeiros positivos com variação cambial, além do melhor desempenho operacional, com recordes em EBITDA e geração de caixa", afirma o analista.

As 10 ações que mais subiram em agosto

Até o fechamento do pregão da última segunda-feira, 30, estes eram os destaques positivos da B3.

  • Embraer (EMBR3) registrou alta de 24,53%
  • CPFL Energia (CPFE3) registrou alta de 14,61%
  • Suzano (SUZB3) registrou alta de 13,78%
  • Totvs (TOTS3) registrou alta de 13,12%
  • Petrobras (PETR4) registrou alta de 11,43%
  • Petrobras (PETR3) registrou alta de 10,50%
  • Cemig (CMIG4) registrou alta de 10,39%
  • Braskem (BRKM5) registrou alta de 8,21%
  • PetroRio (PRIO3) registrou alta de 8,12%
  • Tim (TIMS3) registrou alta de 7,95%

As 10 ações que mais caíram em agostou

Até o fechamento do pregão da última segunda-feira, 30, estes eram os destaques negativos da B3.

  • CSN (CSNA3) reportou baixa de 17,07%
  • Qualicorp (QUAL3) reportou baixa de 16,50%
  • Ultrapar (UGPA3) reportou baixa de 16,27%
  • Cielo (CIEL3) reportou baixa de 14,88%
  • Iguatemi (IGTA3) reportou baixa de 14,70%
  • Via Varejo (VIIA3) reportou baixa de 14,54%
  • Lojas Americanas (LAME4) reportou baixa de 13,68%
  • Bradespar (BRAP4) reportou baixa de 13,37%
  • Cosan (CSAN3) reportou baixa de 13,11%
  • Americanas (AMER3) reportou baixa de 12,04%
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