Renda Variável

A queda do Índice Bovespa nesta segunda-feira, 23, em ambiente conturbado pela política e economia, foi puxada especialmente pelas empresas ligadas ao varejo. Elas estiveram entre as que mais sofreram no pregão, liderando as maiores baixas da Bolsa.

A alta da inflação e dos juros, que reduz o poder de compra da população, e temor com a variante Delta, que pode trazer de volta medidas restritivas de circulação de pessoas, estão entre os principais motivos para o comportamento do setor.

Foto: Arquivo maiores baixas da b3
Empresas varejistas lideram as quedas da Bolsa no começo desta semana | Foto: Arquivo

Os economistas do mercado seguem ajustando para cima as estimativas da inflação para 2021. As perspectivas do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) subiram de 7,05%, na última semana, para 7,11%. Há 30 dias, era de 6,56%. Este é o vigésimo ajuste positivo feito nas expectativas do índice.

"As empresas estão caindo mais agressivamente com o maior temor em relação à inflação um pouco acima da expectativa previamente analisada pelos especialistas. Esse temor atua ainda mais fortemente nas empresas relacionadas ao consumo", avalia Vírgilio Lage, especialista da Valor Investimentos.

Varejo liderando as quedas

A maior queda do dia ficou por conta dos papéis da Lojas Americanas (LAME4), que caíram 6,08%, seguidos pela Americanas (AMER3), que registraram desvalorização de 4,25%. Via Varejo (VIIA3) e Magazine Luiza (MGLU3) também tiveram perdas expressivas de 4,17% e 3,87%, na sequência, estando entre as 10 maiores baixas desta segunda-feira na Bolsa.

Para Maria Cândida Naegele, sócia da HCI Invest, o que vem puxando a queda do setor de varejo nos últimos pregões é, principalmente, o cenário político brasileiro, que vem estressando a curva de juros. O especialista em finanças da Toro Investimentos, Túlio Nunes, compartilha da mesma opinião e destaca que "as incertezas macroeconômicas, como alta nas taxas de juros e inflação, que afetam o poder de compra das famílias, afetam as ações das varejistas".

Nem mesmo os números de Intenção de Consumo das Famílias (ICF), divulgado nesta segunda pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), que subiu 2,1% em agosto ante julho, foi o suficiente para sustentar os papeis do setor. O índice registrado no mês é de 70,2 pontos, o maior desde abril deste ano.

Vale lembrar também que no último IBC-Br (Índice de Atividade Econômica do Banco Central), que apresenta dados de junho, o consumo foi o destaque negativo, com queda de 1,7% nas vendas no varejo restrito e de 2,3% nas vendas de varejo ampliado. O mercado esperava para esses segmentos, respectivamente, um aumento de 0,5% e um recuo de 1,7%. Esses números ajudaram a estressar os investidores com papéis de empresas do setor.

Ao mesmo tempo, o mercado ainda caminha receoso com os possíveis efeitos do avanço da variante delta do coronavírus pelo mundo. Segundo Pedro Palmezani, analista CNPI da CM Capital, os investidores temem que "a economia brasileira sofra um regresso na fase de reabertura, assim como vem acontecendo em diversos países da Europa".

A volta de medidas restritivas mais duras pode impactar diretamente os setores mais ligados ao público, caso de varejo e serviços.

Construção e energia entre as maiores baixas da B3

O setor de energia fechou o pregão da segunda-feira majoritariamente no vermelho, com destaque para as ações da Eneva (ENEV3). A empresa, que atua nos setores de geração, exploração e produção de petróleo e gás natural e comercialização de energia elétrica, viu seus papéis caírem 4,21%, ocupando o terceiro lugar no pódio das maiores baixas do dia.

De acordo com a especialista da HCI Invest, o movimento de desvalorização no setor de energia está intimamente relacionado à crise hídrica que atinge o Brasil.

Já com as empresas de construção, os analistas enxergam que a queda no último pregão está mais relacionada a um movimento de correção.

O Grupo CCR (CCRO3), empresa brasileira de concessão de infraestrutura, transportes e serviços, está entre as 10 maiores quedas do dia, com uma desvalorização de 3,78% em seus papéis. Para Túlio Nunes, da Toro Investimentos, esse resultado pode estar ligado à realização de lucros no curto prazo por parte dos investidores, tendo em vista que as ações da companhia apresentaram alta na semana passada.

Outras duas empresas do setor de construção, a Gafisa (GFSA3) e a MRV (MRVE3), também devolveram quase todo o movimento de recuperação dos últimos dias e fecharam perto das mínimas recentes, com variação negativa de 3,23% e 2,88%, respectivamente, explica Palmezani, analista da CM Capital. Para ele, o receio com o avanço do número de casos de covid-19 pela variante delta também mexeu com o humor dos investidores, impactando o desempenho das empresas.

Unidas e Localiza

Ainda no bloco das maiores baixas da B3, cabe destaque para as ações da Unidas (LCAM3) e Localiza (RENT3), que caíram 4,19% e 3,92%, na sequência.

Na última semana, uma notícia divulgada pelo portal de notícias Valor Investe balançou os papéis das companhias. De acordo com o site, o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) tem "grandes chances" de barrar a fusão entre as duas empresas, solicitada em setembro de 2020.

O negócio, que criaria uma gigante do segmento de locação de veículos com valor de mercado avaliado em R$ 53 bilhões, deve ser barrado pelo órgão antitruste. O Cade enxerga sérios riscos à competitividade com a fusão das duas empresa, apurou o Valor.

Segundo o especialista em finanças da Toro Investimentos, as expectativas em torno da aprovação ou não do negócio podem estar afetando o desempenho dos papéis da Unidas e da Localiza.

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