Mercado Financeiro

As preocupações com o equilíbrio das contas públicas têm mantido investidores e gestores com o freio de mão puxado, na defensiva e sem maiores iniciativas, como indicaram o encerramento dos negócios do mercado na véspera.

A Bolsa de Valores de São Paulo, a B3, fechou o pregão quase estável, com discreta valorização de 0,17% e o dólar em alta de 0,21%.

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Investidores estão atentos ao IPCA e Copom nesta terça-feira - Foto: Envato

O avanço do dólar foi modesto, mas é o terceiro consecutivo, que, segundo analistas, reflete a insegurança do mercado frente ao cenário de incertezas fiscais e políticas domésticas.

No front fiscal, causa mal-estar no mercado a proposta de criação do programa Auxílio Brasil, nova versão do Bolsa Família, formalizada na medida provisória que o presidente Bolsonaro levou pessoalmente ao Congresso no dia anterior.

O auxílio não tem ainda valor definido, mas o número de beneficiários do novo programa deverá ser ampliado de 14,4 milhões para cerca de 16 milhões.

Outra indefinição é a fonte de recursos para bancar o benefício, e aí está o principal temor dos investidores, diante da ideia do governo de parcelar o pagamento de precatórios como forma de obter recursos para o programa, visto pelo mercado como forma de burlar o teto de gastos.

O receio do mercado é que o aumento de gastos públicos, sem contrapartida em crescimento de receitas, crie mais instabilidade econômica e pressão inflacionária, em um cenário de elevação da taxa Selic para combatê-la que poderia fragilizar a retomada de crescimento.

Inflação em alta preocupa o mercado

Inflação e juros voltam com mais visibilidade ao radar do mercado financeiro nesta terça-feira, 10. Dois eventos atraem a atenção de investidores nesta manhã.

Um é a divulgação, pelo IBGE, da inflação oficial de julho calculada pelo IPCA, estimado pelo mercado em 0,93%. Uma inflação que vem pressionada, de acordo com analistas, principalmente pela alta dos preços de energia elétrica e dos combustíveis.

O IPCA em patamar elevado deve aumentar o interesse do mercado pela mensagem contida na ata da última reunião do Copom que o Banco Central divulga também pela manhã.

Nessa reunião, na virada do mês, o Copom promoveu uma alta de 1 ponto porcentual na taxa Selic, que subiu para 5,25% ao ano, e adiantou novo ajuste de igual calibre para setembro.

Voto impresso

No cenário local, os ruídos políticos e fiscais seguem na pauta de atenção dos investidores. Nesta terça-feira, a proposta de voto impresso deve ser votada pelo plenário da Câmara, após o parecer do deputado Filipe Barros ter sido derrotado na comissão especial que analisa o assunto.

Segundo o presidente da Câmara, Arthur Lira, a decisão de enviar o texto ao Plenário foi tomada após conversa com muitos líderes, sem que houvesse unanimidade, e visa apaziguar e superar o assunto.

O que precisa haver neste momento é serenidade. Colocar água nesta fervura e que não haja vencedores nem vencidos", disse.

Lira reforçou a ideia de que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e o Superior Tribunal Federal (STF) precisam apresentar nova proposta caso o voto impresso seja derrotado no plenário da Câmara.

"Não legislar é também legislar. Essa discussão passou de todos os limites. Após o resultado, se for de não aceitar o seu prosseguimento, é importante que o STF e o TSE possam encontrar uma maneira administrativa para serenar as dúvidas mais firmes", afirmou

A mudança debatida pelo Congresso com ministros do STF seria ampliar o número de urnas que passam pelo chamado teste de integridade, que é uma votação paralela à oficial feita em algumas urnas para comprovar que o voto digitado é o mesmo que foi recebido pelo sistema.

Em uma ação coordenada com ministros do Supremo, o TSE decidiu, por unanimidade, determinar duas medidas contra o presidente Jair Bolsonaro.

Além do inquérito sobre as denúncias falsas feitas por Bolsonaro contra o sistema eleitoral, o TSE pediu ao Supremo que o investigue no caso das fake news.

Trata-se de um inquérito conduzido pelo ministro do STF, Alexandre de Moraes, que já tem provas de participação de aliados de Bolsonaro em ataques orquestrados às instituições. Moraes acatou a solicitação para incluir o presidente.

O desfecho dessas investigações pode tornar Bolsonaro inelegível, caso ele seja responsabilizado criminalmente, além de levar à impugnação de eventual registro de sua candidatura a um segundo mandato.

NY: futuros próximos da estabilidade

No cenário externo, os contratos futuros negociados nas bolsas de Nova York operam estáveis, com o mercado monitorando notícias sobre a variante delta do coronavírus, cujo avanço tem provocado uma onda de volatilidade nos mercados.

"Se a variante delta continuar a levar a medidas mais restritivas globalmente, os problemas da cadeia de suprimentos podem não desaparecer tão cedo", diz o analista da Oanda, Edward Moya.

"O Nasdaq pode se tornar a negociação preferida neste mês, enquanto Wall Street discute quando o Fed (Federal Reserve, o banco central americano) sinalizará uma redução gradual das compras de ativos e, mais importante, por que a autoridade monetária não será capaz de aumentar tanto as taxas de juros", reforça Moya.

O economista relembra ainda que o S&P 500 fechou 44 vezes em nível recorde até agora em 2021, sem uma retração significativa desde novembro.

Além disso, o mercado acionário tem acompanhado as sinalizações do Fed sobre o processo de 'tapering', como é conhecida a retirada de estímulos monetários, e a elevação de taxa de juros. O presidente da distrital de Richmond da entidade, Thomas Barkin (vota), disse hoje que, apesar de achar que houve avanço na meta de inflação, o mercado de trabalho ainda tem espaço para melhorar.

O presidente do Fed de Atlanta, Raphael Bostic (vota), por sua vez, adotou postura mais dura e disse que a instituição pode iniciar o tapering entre outubro e dezembro. No entanto, Bostic ponderou que a cepa delta pode apresentar desafios à retomada e adiar a retirada de estímulos.

Bolsas asiáticas fecham sem sinal único

Os mercados acionários da Ásia fecharam sem sinal único nesta terça-feira. Entre os principais mercados, Xangai e Tóquio registraram ganhos, mesmo que a variante delta da covid-19 e seus riscos à atividade tenham continuado no radar de investidores.

Na Bolsa de Tóquio, o índice Nikkei teve ganho de 0,24%, aos 27.888,15 pontos, na volta de um feriado com mercados fechados no Japão na segunda-feira. A fraqueza do iene ajudou ações de exportadoras, contrabalançando os temores com a covid-19.

Na China, a Bolsa de Xangai terminou em alta de 1,01%, aos 3.529,93 pontos, e a de Shenzhen, de menor abrangência, subiu 0,85%, aos 2.598,99 pontos. Ações ligadas a bebidas alcoólicas e as do setor financeiro estiveram entre as que avançaram hoje.

No caso das empresas de bebidas, houve recuperação, após recuos na semana passada por temores de uma eventual investida regulatória no setor.

Em Hong Kong, o índice Hang Seng terminou em alta de 1,23%, aos 26.605,62 pontos, com ações de tecnologia e consumo em destaque. Em Taiwan, o índice Taiex caiu 0,92%, aos 17.323,64 pontos.

Na Oceania, o índice S&P/ASX 200 fechou com ganho de 0,32%, aos 7.562,60 pontos, novo recorde histórico da Bolsa de Sydney. Ações ligadas a tecnologia e finanças se destacaram, mesmo com os riscos da covid-19 e seus impactos ainda em foco. / com Júlia Zillig e Agência Estado

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Colaborador do Portal Mais Retorno.

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