Economia

Nas últimas semanas, temos comentado sobre a possibilidade de o dólar ficar mais forte contra o real devido o avanço do DXY (Dollar Index). O gráfico abaixo é semanal e compara a evolução da variação do dólar ante o real e do DXY.

Foto: MR

Observe que se o DXY continuar subindo, o dólar sobre o real poderá retornar para R$5,30 ou mais. A nossa moeda não deve performar muito melhor do que o dólar no mundo.

 Apostar no aumento da distância das linhas do gráfico acima (DXY subir, e a relação entre dólar e o real cair) é arriscado. Observe que divergências são propícias para comprar dólar no Brasil, como as ocorridas em meados de junho e meados de julho (valorização do real enquanto DXY subia).

Foto: envato
dólar

Forte agenda econômica

Há quatro eventos que merecem muita atenção até o próximo dia 11 de agosto:

· 28/07 - Reunião do Fomc (EUA): provavelmente não deveremos ter muitas novidades, mas é um evento que sempre se destaca. Os investidores acreditam que Jerome Powell, presidente do Fed (Federal Reserve, o banco central americano), anuncie no Jackson Hole (final de agosto) ou na reunião de 22 de setembro a redução do tapering - compras de ativos.
Até o momento, o Fed compra mensalmente US$120 bilhões em Treasuries e em títulos hipotecários. Quando o Fed adquire títulos, ele entrega dinheiro aos bancos, gerando um aumento da liquidez na economia, o que significa mais dinheiro em circulação.
Com o tapering, o Fed passará a comprar menos títulos por mês, ou seja, haverá menos dinheiro em circulação. Os investidores acreditam que a redução das compras tenha início logo no começo de 2022 e, quanto mais distante isto ocorrer, melhor para os ativos de risco como bolsas e moedas de países emergentes - como é o caso do Brasil.
Por isso será muito importante interpretar a mensagem do comunicado da reunião monetária e a coletiva de imprensa de Jerome Powell.

· 04/08 - Reunião do Copom (Brasil): até a divulgação do IPCA-15 - prévia da inflação oficial - na semana passada, os investidores acreditavam que o Copom subiria a taxa Selic de 4,25% para 5,00%. Porém, com um dado de inflação mais alto, a aposta mudou para 5,25%.
Acreditamos em alta para 5,00% e, caso isto ocorra, deverá haver uma forte reação no mercado - queda da taxa de juros de curto prazo e alta do dólar contra o real.
· 06/08 - payroll (EUA): os dados sobre criação de vagas de emprego, taxa de desemprego e de reajuste dos salários são de grande importância para analisar os próximos passos do Fed. Quanto mais fortes forem os números, mais o mercado apostará na antecipação do aperto monetário, favorecendo o dólar no mundo.

· 11/08 - CPI (EUA): apesar de não ser a inflação oficial - que é o núcleo do PCE - o dado é divulgado na primeira quinzena do mês, enquanto o PCE é divulgado no final do mês. Para que a tese de inflação transitória continue de pé, será necessário que a inflação ao consumidor arrefeça - caso contrário, será benéfico para o dólar.

Após esses eventos, vamos reavaliar o mercado de moedas à luz da agenda entre final de agosto e 22 de setembro.

Próximos eventos relevantes:

· 28 de julho - Reunião do Fomc (Copom americano)
· 29 de julho - 1ª prévia do PIB dos EUA do 2º trimestre
· 30 de julho - PCE (EUA), a “inflação” do Fed
· 02 de agosto - PMI Manufacturing (EUA, Europa e China)
· 04 de agosto - PMI Service (EUA, Europa e China) e Reunião do Copom
· 06 de agosto - Payroll (EUA)
· 11 de agosto - CPI (EUA)
· 26 a 27 de agosto: Simpósio Jackson Hole, organizado pelo Fed de Kansas City. O evento foi palco diversas vezes de importantes discursos de política monetária. (https://www.kansascityfed.org/research/jackson-hole-economic-symposium/economic-symposium-conference-proceedings/)
· 09 de setembro - reunião do BCE
· 22 de setembro - Reunião do Fomc, com divulgação de novas projeções econômicas

Caminhos para a relação dólar e real

Há sete semanas, o Dollar Index está sendo negociado em torno de 92,50. Caso a cotação ganhe força e rompa a taxa máxima do ano (93,50), deveremos ter um dólar mais forte no mundo. Porém acreditamos que o DXY não suba muito - talvez até 95 - devido à tendência de alta das commodities.

Dólar e commodities para cima ou para baixo simultaneamente não “combina” - a correlação historicamente é inversa e isso pode ser explicado pelo fato das commodities serem cotadas em dólar.

Apesar de a perspectiva de um crescimento global mais fraco no próximo ano - em parte, devido à reversão das políticas de injeção de dinheiro pelos governos, notadamente pelo governo dos Estados Unidos - ainda é cedo para acreditar na reversão da tendência de alta das commodities. Por isso, é muito provável que o dólar não suba muito.

É importante comentar que há um temor dos investidores com o futuro dos Estados Unidos devido a uma nova onda de contaminação com a nova variante delta da covid-19.

Devido à possibilidade de um aperto mais rápido da política monetária, são fatos com potencial de restringir ainda mais o crescimento do país.

E também há uma apreensão com relação ao crescimento da economia da China, que tem apertado suas políticas regulatórias - observe o que aconteceu com a Alibaba, a Didi e as empresas de tecnologia ligadas ao setor educacional.

Esses medos provocam a busca por proteção e o ativo preferencial para ter em carteira são os títulos do Tesouro americano.

Em resumo: aversão ao risco gera compra de Treasuries e o aumento da procura pelos títulos faz com que os seus preços subam e, consequentemente, a taxa de juros caia. Lembre-se sobre como se calcula o valor presente em matemática financeira: é uma aplicação direta desta fórmula!

No momento, é provável em que a relação entre o dólar e o real siga no intervalo entre R$5,05 e R$5,30. Nossa moeda depende dos eventos acima comentados para tomar uma direção.

Observando o gráfico que compara a relação do dólar com o real e o DXY, uma subida do Dollar Index para 95 pode levar a cotação do dólar no Brasil para algo entre R$5,30 e R$5,40.

Ainda seguimos otimistas no longo prazo em relação à nossa moeda por quatro motivos: o modelo da Wagner Investimentos indica tendência de baixa do dólar contra o real; os fundamentos melhores da nossa economia; a boa chance de aprovação das reformas tributária e administrativa; a depreciação do real nos últimos dias foi causada por um fenômeno local, mas por um fenômeno global.

Porém é possível que a janela favorável ao real se feche entre seis e nove meses devido ao aumento da temperatura política com a aproximação das eleições presidenciais de 2022.

Desejo a todos uma ótima semana e bons negócios!

*Este artigo não reproduz necessariamente a opinião do portal Mais Retorno.

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José Raymundo de Faria Júnior é economista graduado pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e mestre em Administração pela Fecap. Sócio desde 2006 da Wagner Investimentos, possui as certificações financeiras CFP®️, CNPI, CGA e é Consultor de Valores Mobiliários.

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