Renda Variável

A movimentação na Bolsa em período mais recente aponta, de acordo com especialistas, a atuação de especialmente dois grupos de investidores em lados opostos: um de investidores estrangeiros na ponta compradora e outro de fundos institucionais na vendedora. As estratégias são distintas para cada grupo de atuação.

A bolsa de valores tem um cenário desafiador pela frente que combina, no front econômico, inflação e juros em alta, perspectiva de crise hídrica e, no político, conflitos entre Poderes temperada pela proximidade da corrida eleitoral. Esse quadro, desenhado por analistas e especialistas do mercado, dá ideia do terreno de instabilidade que o mercado de ações poderá percorrer nos próximos meses, possivelmente até as eleições presidenciais de outubro de 2022.

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“O cenário macroeconômico de mais turbulência, que impacta a bolsa como um todo, aumenta a aversão ao risco”, avalia Davi Fontenele, analista de fundos da XP, que aponta também a concorrência da renda fixa, que, segundo ele, volta a ganhar atratividade e competitividade.

A taxa básica de juros, a Selic, considerada juro à vista, está em 5,25% ao ano, mas os juros futuros, que balizam o rendimento de aplicações mais longas de renda fixa, passam de 10% e encostam em 11% ao ano. Um rendimento que estaria acima das perspectivas de desempenho com que a bolsa de valores acena em ambiente de instabilidade.

Saída de fundos institucionais

As dúvidas com a trajetória da bolsa têm contribuído, de acordo com especialistas, para a redução das posições de fundos institucionais na bolsa de valores e estimulado a migração para renda fixa, com juros cada vez mais altos. A procura pela renda fixa doméstica divide espaço na carteira com a alocação de recursos em ativos no mercado internacional, afirma Breno Bonani, analista-chefe da Valor Investimentos Gestora.

O movimento de venda, que se acentuou nos últimos meses, é justamente comandado pelos fundos de pensão, previdência e fundos multimercado. O aumento de vendas coincidiu com o agravamento do cenário de incertezas, alimentadas pela instabilidade política, crise hídrica, alta da inflação e dos juros, entre outros fatores.

São investidores de peso, com capacidade de girar bilhões de reais na bolsa. Alguns deles, como os fundos de pensão, têm compromissos atuariais de alcançar determinadas metas e viram, no processo de elevação dos juros, a perspectiva de chegar a melhor rentabilidade com mais segurança, em ambiente de menor risco, na renda fixa.

Enquanto os fundos institucionais tiram dinheiro da bolsa, gerando um saldo negativo de R$ 53 bilhões no ano, o estrangeiro segue comprando ações no mercado doméstico. “Os gestores de fundos e investidores pessoa física estão mais pessimistas em relação ao cenário fiscal, à crise política, mais receosos em relação à proximidade das eleições, mas o investidor estrangeiro segue ativo na compra”, comenta Bonani. 

Presença relevante dos estrangeiros na bolsa

A presença é relevante porque a participação do investimento estrangeiro chega a 50% do volume da B3. O analista-chefe do Valor Investimentos atribui o interesse principalmente ao preço descontado das ações brasileiras. O saldo positivo da compra de estrangeiros no ano chegou a R$ 46,6 bilhões, até 13 de setembro. O câmbio também favorece as operações desses investidores em ações.

A alta dos juros, com o atrativo limitado por enquanto ao mercado futuro, não parece seduzir suficientemente ainda o investidor pessoa física. A maioria, que receberia como remuneração na renda fixa a Selic, de 5,25% ao ano, inferior à inflação corrente, parece resistir em voltar para a renda fixa, de onde migrou para o mercado de ações quando a Selic passou a despencar para as mínimas históricas. Apenas uma parcela estaria fazendo o caminho de volta, assim como alguns gestores de fundos de ações estão remodelando a carteira com outros ativos, até do exterior.

Após sustentar captação positiva (volume de entradas superior ao de resgates) desde fevereiro, os fundos de ações tiveram saldo negativo de R$ 176,1 milhões em agosto, de acordo com dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima).

Carolina Roveda, especialista em fundos de investimentos da Messem, afirma que os investidores pessoa física que deixam a bolsa partiram para a renda variável sem ter conhecimento real de seu perfil. Estão saindo da bolsa em “um momento de aproveitar a oportunidade de permanecer ou entrar em um fundo”, afirma Carolina.

É uma estratégia de diversificação de investimento interessante, aponta a especialista, mas para isso “é preciso que o investidor conheça seu perfil, já que isso deve ser feito com olhar de longo prazo”.  As recentes quedas, em sua avaliação, deixaram as ações mais baratas.

No ano, mercado tem variação negativa

Desde o início do ano até 15 de setembro, a Bolsa de Valores de São Paulo, a B3, acumula desvalorização de 3,32%, resultado de quedas em quatro meses (janeiro, fevereiro, julho e agosto) e de alta em outros quatro (março, abril, maio e junho).

A especialista da Messem acredita que a sequência de elevação da Selic e outras altas previstas pela frente já estejam atraindo o investidor que quer combinar segurança e rentabilidade para aplicações mais conservadoras. “A renda fixa já começa a entregar alguns bons resultados, quase tanto quanto as ações, que é uma aplicação de mais volatilidade e risco.”

Thomas de Mello e Souza, portfólio manager da Atlas One Investimentos, diz que “a questão é saber quanto de risco já está no preço do juro, que deve ficar entre 10% e 12% ao ano, e na bolsa, que não vejo indo para 70 mil, portanto com pouco espaço para cair”.  Para ele, grande parte da deterioração já está no preço dos ativos e, na comparação, a bolsa teria mais chances de subir e proporcionar rentabilidade que os juros.

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Colaborador do Portal Mais Retorno.

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