Logo Mais Retorno
Economia

Quais as oportunidades que a China oferece em um cenário de desaceleração econômica?

Nova onda de covid-19 e guerra na Ucrânia impactaram no ritmo de crescimento da segunda maior potência do mundo

Data de publicação:26/05/2022 às 00:30 -
Atualizado um mês atrás
Compartilhe:
  • Facebook
  • Linkedin
  • Twitter Mais Retorno
  • Telegram Mais Retorno
  • WhatsApp Mais Retorno
  • Email Mais Retorno

A economia da China, locomotiva que influencia e tem puxado a atividade global, não resistiu aos efeitos de dois eventos recentes: a guerra na Ucrânia e a onda de novos surtos de covid-19.

O baque, contudo, não abalou o otimismo de investidores em relação às oportunidades do mercado chinês. O que mudou, de acordo com os especialistas, foi o sentimento.

China
Oportunidades de investimento ainda existem na China, mesmo com desaceleração econômica - Foto: Reprodução

Os gestores reforçaram, na esteira dos novos focos de covid-19 na China, uma visão pouco mais cautelosa em relação ao país, analisa Fernando Fenolio, economista-chefe da WHG Asset. Um sentimento conservador que vem de antes, desde o início da guerra na Ucrânia, ressalta.

Nas primeiras semanas do conflito, que começou em 24 de fevereiro, o temor de sanções dos EUA contra a China diante de suposto ou possível alinhamento chinês com a Rússia impactou o fluxo de capitais.

Incertezas já levaram à saída de investidores

“Houve uma saída pouco maior de recursos na renda fixa e na renda variável da China”, comenta Fenolio. A WHG é gestora de um fundo macro com metade da carteira formada por renda fixa e metade por ações da China.

O temor do mercado de punições contra a China não se materializou, mas os efeitos do conflito sobre a economia lançaram e deixam um ponto de dúvida entre gestores e investidores.

Readequação política na China traz dúvidas à economia em baixa

A guerra e a pandemia levaram a uma revisão para baixo na previsão de crescimento chinês e o choque negativo vindo da China afetou o resto do mundo, aponta Fenolio.

“O crescimento chinês no segundo trimestre desacelerou e deve ficar entre 1% e 2% negativo na comparação com o primeiro”.

Fernando Fenolio, economista-chefe da WHG Asset

O cenário se turva ainda mais pela perspectiva de que a pandemia não se resolva tão cedo e as ações de combate à covid-19, em regime de tolerância zero, persistam pelo menos até meados do segundo semestre.

O mês de outubro deve ser marcado por uma readequação política na China, com a recondução do presidente Xi Jinping para novo mandato, e a expectativa é que até lá a ações de combate à covid-19 devam conter a economia.

Aposta em estímulos do governo, mas covid-19 atrapalha

O economista-chefe da WHG diz que, para conter a desaceleração, o governo tem dado muitos estímulos, fiscais e monetários, para dar suporte à economia.

A meta do governo chinês - de um crescimento de 5,5% para este ano - já está sendo considerada improvável pelos analistas por causa do PIB negativo projetado para o segundo trimestre.  A previsão do mercado é que a China feche o ano com crescimento em torno de 2%.

Fenolio prevê alguma reação e sustentação de crescimento no segundo semestre.

“O terceiro trimestre deve ser melhor, com alguma recuperação cíclica, ainda que com algum freio de mão”

Fenolio, da WHG

Os setores mais favorecidos pela política de estímulos do governo são os de infraestrutura, seguido de construção civil, que demora pouco mais para reagir aos lockdowns. “O desemprego aumentou e a renda caiu.” Apenas uma reabertura da economia poderia vir a estimular o consumo.

Perspectivas do mercado chinês em novo cenário

Nesse ambiente, o investidor está menos confiante na apreciação da moeda chinesa, o yuan. “Não parece a melhor aposta ficar na moeda”, avalia Fenolio. Tanto na chinesa quanto no euro, que vem de seguidas quedas.

O cenário chinês de estímulos econômicos, segundo Fenolio, sugere que o melhor upside é a bolsa de valores.

“Ao colocar estímulos voltados à reativação da economia, o governo está se colocando ao lado dos ativos de risco, portanto ao lado do investidor em ações.”

Fenolio, da WHG

Política econômica na China segue direção contrária à americana

O economista-chefe da WHG destaca que a política de estímulos do governo chinês segue direção contrária à adotada pelo Fed (Federal Reserve, banco central americano). “Nos EUA, o banco central sobe os juros para desacelerar a economia e conter a inflação”, ressalta, com reflexos negativos no mercado de trabalho e de investimentos.

Ao contrário do que o corte dos juros, uma das medidas adotadas pelo governo chinês, pode sugerir, “a renda fixa está indo muito bem na China”, comenta o economista-chefe da WHG.

Pelo sistema de taxas de juro prefixadas com que o mercado opera, a redução dos juros valoriza o título, cujo preço sobe e beneficia o investidor que está de posse dele.

O investidor em renda fixa na China ficou no zero na rentabilidade, com a redução dos juros, e ganhou no carrego, no valor do título, enquanto nos EUA houve uma perda com a alta dos juros, com queda no valor dos títulos prefixados.

O fundo da WHG, de acordo com Fenolio, ganhou com esse movimento dos juros, o que compensou a queda da bolsa chinesa.

De olho nas oportunidades da China, sem baixar a guarda

O economista-chefe da WHG diz que o cenário de investimentos na China mescla oportunidades e riscos.

A correlação ou a prevalência de cada um dependeria do peso que teriam no prato da balança as ações do governo em relação à política de covid zero e à política de estímulos à economia.

O mercado, diz Fenolio, vai monitorar e avaliar a dosagem de estímulos com que a China pretende dar sustentação à economia e medidas para pôr em prática a política de covid zero.

“O principal risco, se houver, é o governo continuar com uma política muito restritiva contra a covid-19 que leve à perda de dinamismo e reação da economia chinesa.”

De uma coisa, o economista-chefe da WHG está convencido, para não dizer convicto: “Se houver a descoberta de uma vacina que acabe com a covid-19, os ativos de risco, como a bolsa, vão subir, disparar na China.”

Leia mais

Sobre o autor
Tom Morooka
Colaborador do Portal Mais Retorno.