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Fundos de Investimentos

Fundos de Infraestrutura ganham competitividade na renda fixa com emissão crescente de debêntures

O estoque de debêntures incentivadas no mercado está em torno de R$ 160 bilhões

Data de publicação:14/12/2021 às 05:00 -
Atualizado 7 meses atrás
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O Brasil é um país de baixa e ineficiente infraestrutura, em que o setor privado tem respondido à falta de capacidade de investimento do setor público para bancar projetos de desenvolvimento. Um dos indicadores de participação da iniciativa privada nesse processo é o forte aumento das operações de oferta de debêntures incentivadas. Títulos que vão compor as carteiras dos Fundos de Infraestrutura.

O estoque de debêntures aumenta continuamente, com “crescimento anual de pelo menos 40% desde 2018”, calcula Caio Magano, gestor do fundo de Infraestrutura da Western Asset.

A emissão neste ano até outubro chega a R$ 38 bilhões, em cerca de 100 operações, superando o total de ofertas anual dos últimos três anos. Dados do Boletim de Debêntures Incentivadas apontam que em 2018 as emissões somaram R$ 21,3 bilhões; em 2019, R$ 33,7 bilhões, e em 2020, R$ 16,6 bilhões. Os dados são compilados pela Secretaria de Política Econômica (SPE), ligada ao Ministério da Economia.

fundos de infraestrutura
Emissão de debêntures é crescente para financiar projetos de infraestrutura

Megano não acredita, contudo, em uma alta forte para ano que vem, mesmo com necessidades de estímulo à economia. Segundo ele, isso se deve ao cenário eleitoral e às dificuldades de ampliar projetos de crescimento.

“O estoque de debêntures incentivadas no mercado está em torno de R$ 160 bilhões”, estima Magano.

Mais debêntures depois de mudanças no BNDES

As operações de emissão de debêntures ganharam impulso na esteira de mudança nas linhas de financiamento pelo BNDES, com o fim do crédito subsidiado e alteração nas taxas de juros cobradas nas operações de crédito do banco. Foi aí que as empresas se voltaram para o mercado de capitais, atraindo os investidores com as debêntures incentivadas, que são isentas de imposto de renda para investidores pessoa física.

“As emissões são crescentes desde 2018 e deve aumentar ainda mais”, prevê Magano, sobretudo com as concessões no setor de “saneamento, rodoviário e energia elétrica”. Um setor que deve ganhar força em concessões é o de saneamento, com a aprovação do marco regulatório. Um processo de universalização do serviço básico que prevê “investimentos entre R$ 600 bilhões a R$ 700 bilhões até 2033”. Boa parte do projeto deve ser financiada com emissão de debêntures incentivadas.

O setor de saneamento é um dos três que devem gerar mais emissões de debêntures, para investimento em infraestrutura, ao lado de setor elétrico e de concessões de rodovias, em planos de investimento de longo prazo.  A estimativa da Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica) é de investimento perto de R$ R$ 300 bilhões, para geração e transmissão, até 2029, e outros R$ 200 bilhões para distribuição de energia.

Os valores também não são nada modestos para a concessão de rodovias, em torno de R$ 250 bilhões, incluindo alguns projetos estaduais.

Por que investir em debênture

O gestor do fundo de Infraestrutura da Western Asset diz que as debêntures incentivadas, como instrumento de financiamento de projetos de infraestrutura, vieram para ficar. Mas, de acordo com ele, “não é possível linkar esse processo diretamente com o eleitoral”. E tampouco afirmar que o esforço para dar tração ao PIB do País vai impulsionar as privatizações ou concessões, com reflexos nas emissões de debêntures.  

As debêntures incentivadas, que em geral concorrem em rentabilidade com a dos títulos da dívida pública federal, é uma opção de investimento das mais competitivas na renda fixa, segundo especialistas. Um meio de investir nesses papeis são os fundos de investimento em infraestrutura.

Embora não sejam ainda tão conhecidos e, portanto, popularizados, são produtos que podem render até mais que os títulos do Tesouro, sem que o investidor abra mão de liquidez e segurança. Dão lastro aos papeis projetos de longo prazo, em setores de energia, saneamento, transporte, entre outras áreas prioritárias para o desenvolvimento do País.

“São fundos ainda mal analisados e com pouca visibilidade, até porque é uma classe de ativos nova”,

RICARDO PROPHETA - ceo DA bzr

Privatizações e concessões geram novas emissões, um processo que pode passar por certa redução no cenário eleitoral, mas sem interrupção, avalia o executivo da BRZ, uma gestora independente com foco no setor de infraestrutura, sobretudo portos e logística. Sinal de que novas oportunidades de investimento em papeis de infraestrutura permanecem a caminho.

O principal produto da gestora é o BRZ Infra Portos FIP IE (BRZP11), que investe no porto de Itapoá-SC.

Autoridades portuárias, entidades que cuidam dos terminais de determinada região, como a de Santos e Itajaí, “mantêm o processo em andamento”, uma dinâmica que independe da vontade de governos federal ou estaduais. Propheta aponta ainda as perspectivas de licitação de empresas de saneamento básico no Rio de Janeiro.

O que são Fundos de infraestrutura

Kaique Grossmann, especialista de Fundos Imobiliários e Listados da XP, explica que os fundos de infraestrutura são produtos indexados à inflação. Algo como uma versão privada do Tesouro IPCA, título público ofertado na plataforma do Tesouro Direto. A rentabilidade média desses fundos gira em torno de variação do IPCA mais juro em torno de 8% ao ano, mais que a taxa de juros do Tesouro IPCA.

O investidor recebe juros mais correção monetária calculada pela variação do IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) durante todo o período.  “E uma aplicação que, além de remunerar com juro atraente, oferece proteção contra a inflação”, destaca Grossmann.

Uma diferença positiva, em favor dessa classe de ativos em relação aos títulos do Tesouro, é que “o prêmio nos fundos de infraestrutura é maior”, destaca, “porque aqui o rendimento é o líquido”. O investidor não tem tributação nem sobre os dividendos nem sobre o ganho de capital, porque há isenção de imposto de renda, que é “a cereja do bolo”, pontua.

O analista reconhece que é uma classe de ativos que tem uma liquidez menor, “comparada com os fundos imobiliários”, por exemplo, porque o ambiente em que o produto é movimentado não tem ainda o trânsito de maior número de investidores. A liquidez estreita, contudo, seria uma restrição relativa, em sua avaliação.

A dificuldade de negociação de cotas “depende muito do valor”. Se o volume de recursos for muito alto, o investidor vai demorar mais para entrar ou sair do fundo. Mas, de qualquer modo, “cedo ou tarde vai encontrar liquidez”. Pode ser até um momento de oportunidade, segundo ele, para escolher um fundo descontado (com as cotas baratas) para entrar, uma condição que torna o fundo ainda mais atraente.

Para os que temem o risco, considerado mais elevado que os de títulos públicos, Grossmann afirma que os ativos de infraestrutura gerados sob regime de concessão dispensam preocupação com a segurança.

Uma empresa que obtém concessão, explica, ganha o direito de fornecer serviço garantido por meio de contrato de longo tempo, que pode ter duração média de 35 a 40 anos. É uma compra garantida por uma concessão do governo, “um negócio seguro, com previsibilidade de caixa e valor corrigido pela inflação”.

Quais as categorias de fundos de infraestrutura

Os fundos de investimento em infraestrutura listados na B3 estão divididos em três categorias, de acordo com os ativos em carteira: os que carregam ativo final, como uma planta de parque eólico ou de energia, ou títulos incentivados, como debêntures, ou ainda papeis de dívida na categoria Fidcs (Fundo de Investimento em Direitos Creditórios).

Um fundo em que o investidor compra diretamente o ativo é o Fundo de Investimento em Participações (FIP IE). Um dos produtos, por exemplo, é o listado na B3 com o ticker XPIE11, com o portfólio ancorado em planta de energia, formado por quatro empresas: duas do setor de energia solar e duas de linhas de transmissão. Há também os que investem em parque solar, em infraestrutura portuária, dentre outros. “Em vez de comprar a dívida (título representativo de dívida), compra o ativo em si.”

Dados de levantamento da Economatica e da XP investimentos não explicitam o desempenho dos fundos, mas sugerem o potencial de rentabilidade embutida no preço das cotas, bastante desvalorizadas.  “É aí que está a atratividade desses fundos, no momento”, aponta Grossmann.

O especialista da XP explica que a cota do fundo dessa categoria FIP IE com ticker BRZP11, por exemplo, está com desconto em torno de 60%, na comparação do valor de mercado com o valor patrimonial. Esse é o tamanho do ganho potencial com que o fundo acena no longo prazo.

“As cotas estão baratas e quem entrar nesses fundos de infraestrutura com visão de longo prazo poderá estar fazendo grande negócio, aproveitando uma boa oportunidade”, reforça Grossmann, lembrando que “é sempre de longo prazo o retorno de investimentos em projetos de infraestrutura”.

Outra classe de fundos de infraestrutura é o Fundo Imobiliário de Infraestrutura (FI Infra). São produtos que compram basicamente debêntures incentivadas, de empresas de infraestrutura, isentos de imposto tanto sobre os dividendos quanto sobre o ganho de capital.

Fundos com debêntures de empresas de saneamento, de energia e outras em carteira, com receita lastreada em concessão, chegam a render mais de 8% de juro, além de correção monetária, com a distribuição de receita gerada aos cotistas de fundos. “Isso livre de imposto.”

A terceira classe de fundos de infraestrutura é o Fundo de Investimento em Direitos Creditórios (Fidc Infra). Nele, o investidor compra dívida, mas na categoria Fidc, com classes de cotas diferentes, assim como são diferentes as dívidas, a estrutura e os riscos.

Dependendo da estrutura que monta, o gestor diversifica e pulveriza mais os ativos na carteira. “E uma classe de ativos que está com retornos e dividendos bastante atraentes”, destaca Grossmann.

Sobre o autor
Tom Morooka
Colaborador do Portal Mais Retorno.