Mercado Financeiro

O mercado financeiro bem que tem procurado algum fato alentador para tentar reverter a sucessão de jornadas negativas, mas tem sido malsucedido. E a expectativa de especialistas para esta terça-feira, 5, não autoriza animação antecipada, dada à perspectiva de manutenção de fatores externos e domésticos negativos que, combinados, provocaram a queda da Bolsa de Valores e deram fôlego ao dólar, na segunda-feira, 4.

A Bolsa de Valores de São Paulo, a B3, fechou com baixa de 2,22%, aos 110.393,09 pontos, e o dólar avançou 1,44%, para R$ 5,45 na venda.

Pane e instabilidade nas mídias sociais marcaram as negociações no dia anterior - Foto: Envato

A forte valorização do dólar refletiu o sentimento de aversão ao risco, movimento de fuga de ativos de risco em todo o mundo que fez do real a moeda que perdeu mais valor entre seus pares ontem. 

A véspera foi, de resto, um dia marcado por pane e instabilidade nos sistemas de comunicação por mídias sociais e também por novos fatores de incerteza, como a informação, divulgada pela revista Piauí, de que Paulo Guedes, ministro da Economia, e o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, têm ou teriam tido empresas offshore em paraísos fiscais. 4

Para especialistas, um flagrante conflito de interesses, entre gestão pública e o interesse privado, capaz de criar mal-estar nos mercados.

A notícia não chegou a impactar o mercado com muita intensidade - no fim da tarde era apenas mais uma colocada no radar dos investidores, que já convivem com uma série de incertezas, tanto externas como domésticas. A expectativa agora é com os desdobramentos das denúncias.

À noite, o procurador-geral da República, Augusto Aras, informou que determinou a instauração de uma apuração preliminar que consiste no levantamento de informações sobre os fatos, e solicitação de esclarecimentos a ambos.

Bolsa em trajetória cambaleante

Analistas e gestores dizem que o mercado de ações segue trajetória cambaleante, mais inclinado à baixa, como reflexo de um conjunto de fatos e expectativas negativas, como as relacionadas ao crescimento anêmico da economia do País no próximo ano, as elevadas incertezas fiscais e políticas, a crise hídrica, inflação em alta que exige também juros altos.

A esses fatores se têm juntado expectativas e fatos também negativos no cenário externo que tendem a tornar a condução da política econômica mais complicada por aqui.

Dissemina-se cada vez mais no exterior a ideia de agravamento da crise global de energia, cujo risco se elevou, como indicam a escalada dos preços do petróleo e do gás natural. Movimentos que geram um efeito indesejável, a ampliação de pressões inflacionárias e, em sua esteira, a perspectiva de elevação das taxas de juro.

Inflação global e política monetária dos EUA

Elevação de inflação e possíveis mudanças na política monetária estão também no foco de investidores e gestores de mercado que olham para os Estados Unidos.

Uma possível alta dos juros não está no radar do mercado, que acredita que o Federal Reserve (Fed, banco central americano) deve começar a retirada dos estímulos monetários, com a redução da recompra de títulos, já no próximo mês, em novembro. Perspectiva que também é negativa para as bolsas.

As incertezas com a economia americana e possível alteração na política monetária influenciam o comportamento das bolsas dos EUA, que recuaram ontem e contribuíram para a queda da B3. O Dow Jones recuou 0,94%, o índice Nasdaq caiu 2,14% e o S&P 500 perdeu 1,30%.

Outro fator de preocupação dos mercados é o persistente risco de calote da incorporadora chinesa Evergrande, que carrega uma dívida perto de US$ 300 bilhões e, segundo especialistas, não tem quitado a conta semanal de juros que deve aos credores. 

As ações da empresa tiveram os negócios suspensos ontem em Hong Kong. O temor é que um eventual default ou falência da construtora contamine a economia da China, que tem dado sinais de perda de tração a cada divulgação de dados econômicos.

Dólar e juros futuros em caminho inverso

O cenário de instabilidade externa e doméstica tem levado à valorização do dólar em escala global, movimento que atinge principalmente as moedas de países emergentes. No Brasil, o dólar valorizado é considerado uma das principais fontes de pressão sobre a inflação.

Foi essa percepção que levou à nova elevação dos juros futuros ontem. O juro embutido nos contratos de DI futuro para vencimento em janeiro de 2022 fechou em 7,22%; para janeiro de 2023, em 9,20%; para janeiro de 2025, em 10,22%, e para janeiro de 2027, para 10,60%.

Especialistas afirmam que o comportamento dos juros DI futuros, e não a taxa Selic, é o que interessa ao investidor que compara o rendimento da renda variável com a renda fixa. São esses juros que balizam o rendimento dos títulos públicos na plataforma do Tesouro Direto, o rendimento de títulos de crédito privados, como as debêntures incentivadas, além de outros, como os certificados de crédito agrícola e imobiliário.

Na Ásia

Do outro lado do mundo, as bolsas da Ásia e do Pacífico fecharam sem direção única nesta terça-feira, mas várias delas foram pressionadas pelas perdas de Wall Street na véspera.

Em Tóquio, o índice japonês Nikkei caiu 2,19%, aos 27.822,12 pontos, enquanto o sul-coreano Kospi voltou de um feriado com queda de 1,89%, aos 2.962,17 pontos, seu menor nível em sete meses. Já na Oceania, o australiano S&P/ASX 200 recuou 0,41% em Sydney, aos 7.248,40 pontos.

Em Hong Kong, o Hang Seng subiu 0,28%, aos 24.104,15 pontos, graças a petrolíferas como a PetroChina, cuja ação saltou 7,59%, atingindo o maior nível desde janeiro de 2020, em meio a um forte avanço nos preços do petróleo.

Já empresas do setor imobiliário tiveram acentuadas perdas em Hong Kong, após a Fantasia Holdings não honrar o pagamento de um bônus em dólar. Negócios com ações locais da Evergrande, a endividada gigante do setor imobiliário chinês que enfrenta uma grave crise de liquidez, seguem suspensas.

Em Taiwan, o Taiex também garantiu alta moderada nesta terça, de 0,32%, aos 16.460,75 pontos. Na China continental, os mercados seguem fechados em razão do feriado da Semana Dourada.

No começo da madrugada, o banco central australiano (RBA) manteve seu juro básico na mínima histórica de 0,10%, conforme previsto pelo mercado. / com Júlia Zillig e Agência Estado

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Colaborador do Portal Mais Retorno.

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