Mercado Financeiro

A semana inicia com o pé esquerdo para os investidores nesta segunda-feira, 4, com a notícia de que autoridades de primeira linha da equipe econômica teriam ou tiveram contas nas Ilhas Virgens Britânicas. Além disso, o mercado reflete também sobre os“jabutis” de R$ 46,5 bilhões presentes na MP da crise hídrica, o avanço da inflação e o mau humor do exterior.

As novidades fazem com que a Bolsa derreta, deixando de lado o otimismo da última sexta-feira, 1. Às 16h30 , o Ibovespa caía 2,17% perdia os 111 mil pontos - 110.445,92. Já o dólar opera em alta, refletindo o mesmo cenário, e também a alta da moeda no exterior e os juros dos Treasuries em elevação. No mesmo horário, o dólar à vista disparava 1,54%, cotado a R$ 5,452.

Foto: Be/Divulgação
Sede da B3 em São Paulo - Foto: B3/Divulgação

Os juros futuros operam majoritariamente em alta nesta tarde, acompanhando o cenário financeiro desafiador. Às 14h36 desta segunda, a taxa do contrato de depósito interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 marcava 10,66%, de 10,59% no ajuste anterior.

O DI para janeiro de 2025 exibia taxa de 10,28%, acima do ajuste de sexta-feira, de 10,21, e o para janeiro de 2023 estava em 9,235%, acima dos 9,185% registrados anteriormente.

Movimentação das ações na B3

Nesta segunda-feira, as ações dos grandes bancos refletem o clima azedo do mercado financeiro. Às 14h39, o IFNC, índice da B3 que engloba os gigantes do setor financeiro, caía 4,08%. A queda menos acentuada era do Itaú - 1,49% - refletindo a notícia sobre a conclusão da cisão com a XP Investimentos.

Na mesma esteira de queda, a Vale operava em leve baixa de 0,07%, às 14h40, seguida pelas demais siderúrgicas, que apontavam uma desvalorização mais expressiva de seus papéis. Ainda em commodities, a Petrobras operava no caminho contrário, em alta de 1,71%, no mesmo período.

Após comunicar ao mercado a assinatura de acordo para a incorporação de 100% das ações de emissão da Mosaico, que detém as marcas Zoom, Buscapé e Bondfaro, as ações do Banco Pan despencavam 9,53%, às 14h41, depois de ter subido mais de 3% pela manhã. Já os papéis da Mosaico disparavam 10,30% no mesmo horário.

O Banco Inter divulgou sua prévia operacional do terceiro trimestre, que trouxe a notícia de que a instituição alcançou 14 milhões de clientes, um crescimento de 16% na base trimestral e 94% anual. Mesmo com os números positivos, as ações da companhia derretiam 12,49%, às 14h42.

A Embraer anunciou uma carta de intenções com a Avantto, empresa de compartilhamento de aeronaves. Na parceria consta um pedido de 100 eVTOL - aeronaves elétricas - da subsidiária Eve, com entrega prevista para 2026.

Além das aeronaves, o acordo envolve colaboração para desenvolver uma nova operação do veículo aéreo no Brasil e na América Latina. Às 14h43, as ações da Embraer caíam 0,99%.

No último fim de semana, a CVC foi alvo de um ataque cibernético. A empresa comunicou que ativou prontamente todos os protocolos de segurança e o embarque de clientes com viagens marcadas e as reservas confirmadas não foram impactadas. No mesmo período, os papéis da companhia de turismo desvalorizavam 6,70%.

Offshores de Guedes e Campos Neto

De acordo com a reportagem divulgada pela revista Piauí e pelos sites Poder 360 e Metrópoles, o ministro Paulo Guedes, da Economia, e o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, abriram e mantiveram as contas offshore mesmo após assumir as funções atuais no governo Bolsonaro.

Uma conduta que vai na contramão da legislação que veda que funcionários de alto escalão de equipe econômica façam parte do estafe dessas contas para evitar conflito de interesses.

Um consórcio internacional de veículos de imprensa trouxe à luz o novo escândalo, fruto do vazamento de informações de mais de 11 milhões de documentos sobre o universo das empresas offshore abertas em paraísos fiscais. O caso foi batizado de Pandora Papers e é o maior do gênero.

A lista dos proprietários dessas empresas inclui chefes e ex-chefes de Estado de diversos países, ministros, banqueiros, empresários e criminosos internacionais. 

De acordo com o jornal O Globo, para alguns integrantes da ala política do governo, as eventuais consequências da revelação da existência de offshore de Guedes ativa nas Ilhas Virgens dependerão das explicações que o ministro dará se for convocado a ir ao Congresso prestar explicações.

A chave, de acordo com essa ala, é saber se ele fez ou não movimentações na sua empresa no período em que está no governo. Guedes sustenta que não houve atuação sua na empresa desde 2019.

O fato de a ala política aguardar mais explicações dá o tom da atual situação do titular da Economia no governo: a menos de um ano das eleições, existe pressa, impaciência e ansiedade para soluções que ajudem a tirar Jair Bolsonaro das cordas nas pesquisas.

Guedes hoje é visto por esse grupo como um entrave a soluções consideradas mais certeiras para que o presidente melhore sua situação eleitoral, como a prorrogação do auxílio emergencial (o que encurtaria o caminho e não traria a necessidade de aprovação de receita que justifique nova despesa permanente) ou a fixação do benefício em valores superiores aos R$ 300 que deverão ser oferecidos pelo time do ministro.

'Jabutis' na MP da crise hídrica

Soma-se a isso notícias sobre a “bomba” de R$ 46,5 bilhões nas contas de luz que surgiu no relatório da Medida Provisória 1.005 da crise hídrica.

Segundo reportagem do jornal O Estado de S.Paulo, o tema despertou reações de surpresa e indignação entre ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e do Tribunal de Contas da União (TCU).

Integrantes das duas cortes avaliaram em conversas reservadas durante o fim de semana ser necessário reagir aos “jabutis” incluídos no parecer do deputado Adolfo Vianna e que podem trazer maior pressão sobre a inflação.

De acordo com a reportagem, os cálculos da Associação dos Grandes Consumidores Industriais de Energia e Consumidores Livres (Abrace), apontam um custo de R$ 33 bilhões nas contas de luz apenas com o artigo que prevê o rateio da construção de novos gasodutos para usinas termelétricas entre todos os consumidores.

A prorrogação do fim do subsídio para o carvão mineral de 2027 para 2035 custará outros R$ 2,8 bilhões nas tarifas de eletricidade. Na avaliação de membros das duas cortes, a manobra teria o objetivo de beneficiar grandes empresários do setor de gás, às custas de todos os consumidores de energia elétrica.

Projeções altistas da inflação

Soma-se a esse cenário a divulgação da edição semanal do Boletim Focus, pelo Banco Central, nesta manhã, que aponta que os economistas do mercado seguem apostando em uma inflação cada vez mais alta e longe da meta da autoridade monetária.

De acordo com o documento, as projeções para o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) para 2021 subiram de 8,45%, na última semana, para 8,51%. E foram alteradas levemente para 2022: de 4,12% para 4,14%. E mantidas em 3,25% para o ano seguinte.

Em relação à Selic, taxa básica de juros do País, as estimativas para o indicador se mantiveram em 8,25% para este ano, em 8,50% para o ano seguinte e em 6,75% para 2023.

Inflação e juros têm sido, na cesta de dados econômicos, a principal preocupação de investidores, porque são influenciadores do ritmo de crescimento do País em 2022. Inflação e juros em alta, segundo especialistas, tendem a frear a evolução do PIB, já modesta, que vem passando por seguidas revisões para baixo no relatório do Banco Central.

Comprovando essa premissa, os economistas que participaram do Focus não acreditam em novos avanços para o Produto Interno Bruto (PIB). Segundo o documento, as expectativas para o avanço do País ficaram em 5,04%, mesmo patamar do boletim anterior, ante 5,15% há quatro semanas. E para o ano que vem, foram mantidas em 1,57%.

Ajuste fiscal

Ainda no campo doméstico, os focos de interesse do mercado financeiro seguem voltados à definição de critério de pagamento dos precatórios e de fonte de financiamento do novo programa social do governo, o Auxílio Brasil, substituto do Bolsa Família.

Os gastos com o programa social, que o governo pretende bancar com valor maior, serão custeados com o aumento do IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) até dezembro e a partir do próximo ano com mudanças no imposto de renda negociadas no Congresso no âmbito da proposta de reforma tributária.

O desafio do governo é obter recursos para esses pagamentos sem furar o teto de gastos, uma das maiores preocupações do mercado, porque pode colocar em xeque o compromisso com o ajuste fiscal das contas públicas.

Wall Street e o mundo

Além de acompanhar os principais indicadores econômicos e o cenário político local, os investidores estão atentos a eventos e expectativas no mercado internacional.

Em Nova York, as bolsas operam em forte queda, com a persistente crise da incorporadora chinesa Evergrande, o vaivém de dados econômicos da China, principalmente relacionados ao crescimento, e das commodities, e a sinalização de possível novidade no programa de recompra de títulos pelo Federal Reserve (Fed, banco central americano).

Às 14h44, os índices S&P 500, Dow Jones e Nasdaq 100 caíam 1,51%, 1,08% e 2,46%, respectivamente.

Sobre o tema da retirada dos estímulos, os presidentes do Fed de Filadélfia, Patrick Harker, e de Minneapolis, Neel Kashkari, defenderam que o início do tapering, processo de redução de compra de ativos, se dê "em breve".

Quanto à elevação da taxa básica de juros, o primeiro espera que ocorra em 2022 e o segundo, apenas em 2024. Na distrital de Cleveland, a presidente Loretta Mester apoiou que o anúncio do tapering se dê em novembro e disse que, em sua visão, a inflação americana deve ficar acima de 2% em 2022 e em 2023.

Os investidores monitoram os novos passos do desenvolvimento de um medicamento para a Covid-19 pela Merck. Segundo um estudo, a nova descoberta reduz em 50% o risco de hospitalização ou morte.

A farmacêutica informou que seu antiviral experimental, conhecido como molnupiravir, também funciona contra as variantes do vírus.

Do outro lado do mundo, as bolsas asiáticas fecharam em baixa, enquanto investidores seguem acompanhando a situação da Evergrande e o cenário político no Japão, após a confirmação de Fumio Kishida como novo primeiro-ministro do país.

Em Hong Kong, o Hang Seng teve queda de 2,19% hoje, a 24.036,37 pontos, na volta de um feriado. O tombo veio após a suspensão de negócios com ações do grupo Evergrande e da subsidiária Evergrande Property Services, que revelou esperar receber uma proposta de aquisição.

Em Tóquio, o Nikkei caiu 1,13%, aos 28.444,89 pontos, pressionado por ações de tecnologia e de transporte marítimo. No mercado taiwanês, o Taiex também ficou no vermelho, com baixa de 0,98%, aos 16.408,35 pontos. Já na China continental e na Coreia do Sul, não houve negócios nesta segunda-feira em razão de feriados.

Na Oceania, a bolsa australiana ignorou o tom negativo da Ásia e mostrou bom desempenho, com ganhos liderados por empresas que devem se beneficiar mais com a gradual retirada de restrições motivadas pela pandemia de covid-19. O S&P/ASX 200 avançou 1,29% em Sydney, aos 7.278,50 pontos. / com Tom Morooka e Agência Estado

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Repórter do Portal Mais Retorno.

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