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Economia

Gestão de fortunas: curiosidades e fatos

Data de publicação:11/07/2023 às 14:11 -
Atualizado 7 meses atrás
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“Como chama a sua gestora?  Posso investir com você?”  Bastante comuns, as perguntas ilustram uma certa confusão.  Com a proliferação de gestoras independentes, todos acham que os single family offices, assim chamados os escritórios de gestão de fortunas familiares, recebem recursos de terceiros.

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 (Getty/Getty Images)
 

O fato de haver outros participantes além dos tradicionais bancos também não ajuda.  Não se trata de um escritório de agentes autônomos que só atende contas milionárias e muito menos de uma corretora de ações.  Por conta disso, se organizam com objetivos próprios, sem ter que cumprir regras do Banco Central ou da Comissão de Valores Mobiliários (CVM).

Bastante reservados, esses escritórios não são necessariamente novos.  Multiplicaram-se com os “eventos de liquidez”, o que significa “administrar a bolada que receberam de uma única vez”, seja ela decorrente da venda de uma empresa, de uma propriedade, ou até mesmo de um IPO.

Estrutura

Não existe um tamanho específico para esse tipo de arranjo, mas uma característica se destaca: sua estrutura é enxuta.  O motivo é um tanto óbvio.  Para se rentabilizar o patrimônio, é preciso atenção aos custos fixos.  

Excluindo-se as pessoas responsáveis pelas atividades rotineiras, como pagamentos e organização de documentos, boa parte da equipe é terceirizada.  Os trabalhos são divididos de acordo com 3 premissas: finanças pessoais, investimentos e planejamento patrimonial.

Contadores e advogados são acionados conforme a demanda.  Havendo a necessidade, um profissional do mercado financeiro é contratado.  Do contrário, o mais apto da família assume o comando, prestando conta aos demais.

Estratégia

Diferentemente de uma gestora de fundos, não há a preocupação com resgates por parte dos cotistas.  Afinal, o compromisso é com as futuras gerações da família, motivo pelo qual predomina a visão de longo prazo e a diversificação internacional.

Os investimentos mais líquidos (aplicações financeiras) ocupam parte representativa da carteira, principalmente quando se leva em conta a grande valorização dos ativos desde a crise de 2008.  Além disso, investimentos na economia real (empresas, imóveis e infraestrutura) e no exterior (até 30% do patrimônio).

A composição do patrimônio não financeiro segue uma lógica, definida pela “vocação” familiar.  Sendo mais empreendedora, dará preferência para investimentos em empresas.  Se estiver focada em geração de renda, optará por imóveis.

Já os investimentos no exterior são um caso à parte.

A volta do home bias

As sanções decorrentes da guerra na Ucrânia tornaram o processo de alocação internacional muito mais complexo.  

A área de compliance de um banco estrangeiro pode recusar a abertura de uma conta, sem ter que dar muitas explicações ou até mesmo devolver qualquer quantia depositada pelo cliente se houver o menor risco de descumprimento de normas, cada vez mais arbitrárias.

Hoje, o cenário é bem diferente do vigente no auge da globalização, quando havia a possibilidade de ir a qualquer lugar, a qualquer hora, o que permitia outros tipos de vínculos.  Nova Iorque sempre foi interessante nesse sentido, ainda que Londres também pudesse ser escolhida.  

A ilusão da estabilidade 

Monarquias, como a inglesa, sempre deram a ideia de continuidade, algo que traz um certo conforto para quem transfere altos valores para além de suas fronteiras.  

Investimentos alternativos e um fuso horário “central” (em Londres, negocia-se nos mercados asiático, europeu e americano em um único dia) são outros atrativos daquela que já foi a capital financeira da Europa.

Adicionalmente, seu sistema jurídico se encaixa como uma luva nos planejamentos patrimoniais e sucessórios, provendo soluções além das holdings, das doações e do testamento, contemplados pela lei brasileira.

Mesmo assim, situações típicas de economias emergentes, como desvalorizações cambiais, acontecem.  Na ocasião do Brexit, quando o povo inglês, respondendo a um plebiscito, decidiu por sair da União Europeia, a libra esterlina simplesmente despencou.

A questão da inflação

Mesmo nos locais onde não há uma catástrofe cambial, uma questão mais mundana preocupa: núcleos de inflação, justamente aqueles que desconsideram itens voláteis como combustíveis e alimentos, impactados pela guerra na Ucrânia.  

Ainda que países emergentes tenham elevado as suas taxas de juros com bastante rapidez e antecedência, existe um debate acadêmico, principalmente dentro do Federal Reserve e do Banco Central Europeu, sobre os motivos para essa inflação insistentemente alta.  

Enquanto isso, o Fundo Monetário Internacional (FMI) se arrisca com a sua própria tese: a culpa é das empresas, sempre gananciosas.  

Na dúvida, é melhor buscar um hedge (proteção).  Ativos como imóveis e projetos de infraestrutura, com os seus respectivos mecanismos de reajuste, inclusive desempenham melhor a partir de um determinado patamar de níveis de preço.  

A tributação de offshores

Por fim, existe a mudança nos impostos.  Com a MP 1171/23, os investimentos no exterior passarão a ter, a partir de 2024, uma tributação desvantajosa em relação às opções dentro do país.  

Sequer haverá a possibilidade de se compensar os ganhos com os prejuízos.  Offshores, que adiavam eternamente o pagamento do imposto, tendem a ser penalizadas duplamente.  

Primeiro, pela tributação automática a cada ano, com base no balanço de 31 de dezembro.  Segundo, porque arcarão com os 10% referentes à diferença entre o valor de mercado de seus ativos, utilizando como data base 31 de dezembro de 2022, e o respectivo custo de aquisição.

Voltando ao início do artigo, onde se cita a alta valorização dos ativos a partir da crise de 2008, trata-se de uma diferença e tanto.  Faz lembrar de uma hipótese já aventada anteriormente: a tributação de estoques aplicável aos fundos exclusivos e às holdings (PL 2.337/21).

Conclusão 

Por todos os elementos apontados, é bastante provável que os single family offices sigam na direção contrária dos demais, que se tornaram investidores graças à “democratização” dos investimentos e dos Exchange Traded Funds (ETFs).

Na ordem do dia, entender o papel fundamental das teses de investimento, principalmente quando se leva em conta o quanto o mundo mudou, acompanhar os negócios mais de perto e usar a experiência para limitar alguns riscos.

Ainda que ninguém possa investir comigo, lembrando as perguntas que iniciam este artigo, sempre haverá a opção dos co-investimentos pois, diferentemente dos demais agentes do mercado financeiro, os escritórios de gestão de fortunas familiares não disputam carteiras de clientes, motivo pelo qual não se enxergam como concorrentes.

Isentos, os single family offices compartilham seus desafios financeiros, contábeis e jurídicos e avançam com suas estratégias, longe da vaidade ou de qualquer conflito de interesses.

    

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Sobre o autor
Nohad Harati
Possui MBA em Finanças e LLM em Direito do Mercado Financeiro (ambos pelo Insper/SP). É gestora de uma carteira proprietária, além de ser responsável por um Family Office.

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