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Futebol e economia: 4 livros explicam a relação

Mundo dos esportes é único para testar teorias econômicas com a quantidade de dados hoje disponíveis

Data de publicação:22/11/2022 às 05:00 -
Atualizado 6 dias atrás
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Uma Copa do Mundo em novembro, sediada por um país sem tradição alguma no futebol e localizado no Golfo Pérsico. Por mais “estranha” que possa ter sido a escolha, alguns fatores ajudam a elucidar os fundamentos econômicos por trás dos bastidores do futebol, como os livros abaixo mostram.

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Big Data

Expected Goals (“Objetivos Esperados”, em tradução livre), de Rory Smith, ilustra como os dados podem ser utilizados em benefício do esporte, seja para determinar o valor do passe de um jogador, a influência de um técnico sobre os resultados de seu time ou até mesmo de que forma um jogador deve chutar quando batendo um pênalti (o que justifica o trocadilho “goals” com “gols” em inglês, no título do livro). 

A partir dos anos 2000, tornou-se muito mais fácil, rápido e barato coletar dados, o que permitiu uma série de aplicações práticas para o futebol. No caso dos times europeus, não é incomum que um campeão de xadrez, um cientista de dados e um astrofísico auxiliem na tomada de decisões.

Para Smith, um clube é aquilo o que ele representa, o que se reflete inclusive na decisão de abrir o capital (IPO). Entre ganhar a taça e reduzir o endividamento, o que pesa mais?

Economia comportamental

Scorecasting: The Hidden Influences Behind How Sports Are Played And Games Are Won (“Scorescasting: as Influências Ocultas por Trás de Como os Esportes são Jogados e os Jogos Vencidos”, em tradução livre), é um livro escrito por dois apaixonados por estatística (Tobias Moskowitz, um economista da Universidade de Chicago e Jon Wertheim, um jornalista da Sports Illustrated).

Ambos defendem a tese de que o mundo dos esportes é único para se testar teorias econômicas sobre como as decisões são tomadas, haja vista a enorme quantidade de dados disponíveis, conforme já explicado anteriormente.

Como curiosidade, relatam como os times da casa ganham, desmistificando a importância da torcida organizada ou do local onde estão habituados a treinar. De acordo com os autores, pode-se dizer que a culpa é do juiz, que nem sempre é imparcial, principalmente nos momentos mais importantes do jogo. 

Percebe-se então que fenômenos como ancoragem e aversão a perdas também estão presentes onde a bola rola.

Política e futebol

Publicado em 1994, Soccer Against the Enemy (“Futebol Contra o Inimigo”, em tradução livre) de Simon Kuper, detalha a relação entre ambos.

Trata-se de uma mistura que os países de origem latina conhecem bem. Mauricio Macri foi presidente do Boca Juniors antes de governar a Argentina enquanto Silvio Berlusconi, dono do Milan, chegou ao cargo de primeiro ministro na Itália. 

É fato que o futebol traz visibilidade. Se o país não vai bem, por que não chamar alguém que já comandou um time de sucesso para “arrumar a casa”? 

Independentemente do espectro político, todos se aproveitam de alguma forma do futebol.  Se a seleção se destaca, os governantes relaxam, deixando de lado a implementação de políticas públicas importantes, que poderiam colocar qualquer país na rota do desenvolvimento.

Pertencimento e respeito

Para países pequenos como o Catar, que perdeu o jogo de abertura para o Equador e possui o time menos valorizado da Copa, o exemplo dos países africanos é ilustrativo. 

Além do senso de pertencimento, o esporte é visto como meio de se alcançar algum prestígio. Em 1990, por exemplo, Camarões derrotou a Argentina.

É óbvio que a importância geopolítica do Catar hoje é outra mas, quando houve o anúncio em 2010 de que sediaria a Copa do Mundo de 2022, a Europa ainda importava o seu gás da Rússia e pouco se falava sobre a transição energética.

O custo do legado

Circus Maximus: The Economic Gamble Behind Hosting the Olympics and the World Cup (“Circus Maximus: A Aposta Econômica por Trás de se Sediar as Olimpíadas e a Copa do Mundo”, em tradução livre), de Andrew Zimbalist retrata o “antes” e o “depois” da festa.

As cidades que sediam esses eventos atendem a uma série de exigências impostas pelos órgãos organizadores. Como recompensa, recebem parte dos direitos de transmissão, da venda de ingressos, dos licenciamentos e dos patrocínios. Mesmo quando tudo termina, esses locais tendem a se tornar pontos turísticos, provendo uma renda adicional ao longo dos anos.

Receita menor

Por outro lado, as relações entre autoridades e organizadores já não são mais as mesmas. Se há 40 anos o Comitê Olímpico Internacional (COI) ficava com 4% da receita gerada pelos direitos de transmissão, hoje esse percentual é de 70%.  

O caso da FIFA não é muito diferente. Apesar de patrocinar os custos para a Copa do Mundo, toda a infraestrutura é bancada localmente. Não por outro motivo, a escolha pelas cidades mais dispostas a gastar, ainda que às custas dos impostos que serão cobrados da população.

Estourar o orçamento original em até 10 vezes é praxe. Além disso, os “elefantes brancos” precisam ser mantidos, competindo com outras demandas importantes.  Isso explica porque governos democráticos se sentem menos propensos a lançarem as suas candidaturas no futuro.

Conclusão

A Copa do Mundo sediada pelo Catar é a mais cara de todos os tempos.

Levando-se em conta os aspectos econômicos, alguns elementos justificam as grandes somas que giram em torno do esporte mais popular do planeta: o uso inteligente dos dados e a profissionalização do futebol. 

Dito isso, os investimentos se concentram cada vez mais nos países ricos, considerando que o dinheiro de um punhado de clubes não é suficiente para reverter a pobreza, decorrente da falta de políticas públicas mais consistentes, nos lugares de onde saíam os jovens talentos de antes.  

Para qualquer um que já tenha visitado o Oriente Médio, não é incomum ver um time de garotos usando camisas de vários clubes, inclusive do Santos. O Catar, que se desenvolveu depois dos seus vizinhos do Golfo Pérsico, trouxe o espetáculo para os seus estádios de última geração, contando com os países que, com muita tradição no futebol, agora fazem fila para comprar o seu gás.

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Sobre o autor
Nohad Harati
Possui MBA em Finanças e LLM em Direito do Mercado Financeiro (ambos pelo Insper/SP). É gestora de uma carteira proprietária, além de ser responsável por um Family Office.

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