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Economia

Quais os melhores setores para investir em momentos de crise econômica? Especialistas respondem

Renda fixa é uma boa opção, mas há setores na Bolsa que podem oferecer retornos atraentes ao investidor

Data de publicação:27/06/2022 às 05:00 -
Atualizado 2 meses atrás
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As chances de que uma recessão atinja níveis globais parecem cada vez maiores. A começar pela maior economia, a dos Estados Unidos, que dá sinais de retração após elevação dos juro americanos. Movimento que deve reverberar por países que são seus parceiros comerciais.

Goldman Sachs e Bank of America acreditam que as chances do país passar por uma crise econômica estão entre 30% e 40%. Para Robert Shiller, economista ganhador do Prêmio Nobel e professor da Universidade de Yale, as chances são ainda maiores: 50%.

Crise Econômica
Crise econômica é caracterizada pela retração do crescimento de um país | Foto: Envato

As projeções para o crescimento da atividade em todos os cantos do mundo já foram reduzidas. O Fundo Monetário Internacional (FMI) cortou suas expectativas para o Produto Interno Bruto (PIB) mundial de 4,4% para 3,6% em 2022. Com este cenário de retração econômica e perpectivas negativas de crescimento, especialistas afirmam que é necessário proteger a carteira de investimentos.

No Brasil, onde os juros estão em patamares elevados (13,25% ao ano e com perspectivas de pelo menos mais um aumento de meio ponto percentual), essa proteção pode ser facilmente encontrada nos títulos de renda fixa, que passaram a oferecer maior rentabilidade com risco baixo. No entanto, alguns setores da Bolsa de Valores também acenam com perpectivas de proteção e ganhos, como os de energia elétrica e supermercados, por exemplo.

O que caracteriza uma crise econômica?

Antes de falar sobre os setores mais indicados para passar por momentos de aperto financeiro, é importante entender o que de fato caracteriza um período de crise econômica.

Leo Dutra, analista financeiro e especialista em mercado de opções, explica que uma crise é o "período no qual uma economia tem retração das suas atividades". E a régua para isso é o comportamento do PIB: se o que é produzido por um país em bens e serviços tem variação negativa em dois trimestres consecutivos, o cenário já pode ser caracterizado como uma crise.

"A crise é caracterizada por uma grande desestabilização, que gera uma conjuntura econômica indesejada. Em termos econômicos, ela é associada a recessões, que significa encolhimento do PIB. Aquilo que se convencionou chamar de crise, portanto, está atrelado ao nível de atividade propriamente dito. Inflação fora de controle claramente é um fator de desestabilização. Juros altos também podem ser, mas é necessário um conjunto de fatores indesejados para caracterizar uma crise."

Carla Argenta, economista-chefe da CM Capital, e Ariane Benedito, economista da CM Capital

O mundo está passando por uma crise?

Para Fernando Siqueira, Head de Research da Guide Investimentos, o mundo ainda não está passando por uma crise. Ele destaca que "deveria haver mais pânico no mercado (como circuit-breakers ou volatilidade muito acima do normal) para caracterizar uma crise". No entanto, o especialista destaca que o risco de que uma crise existe, "em função do aumento da inflação, aumento dos juros e, consequentemente, risco de recessão".

Stefany Oliveira, Chefe de Análise de Trading da Toro, explica que, com a pandemia, bancos centrais do mundo inteiro adotaram medidas expansionistas, como estímulos monetários e redução das taxas de juros, a fim de conter os impactos socioeconômicos causados pela crise sanitária. "A consequência disso é o cenário inflacionário que é visto no mundo inteiro, não só no Brasil", pontua ela.

A inflação, ressaltam os especialistas, é decorrente tanto do aumento dos gastos do governo, como da retomada da atividade econômica quando a vacinação avançou e as medidas de isolamento social foram flexibilizadas.

Aumentos dos juros

Para conter a escalada dos preços, os bancos centrais elevam os juros - além do Brasil, nas últimas semanas Estados Unidos, Reino Unido, Suíça, Noruega e Austrália foram alguns dos países que adotaram posturas mais contracionistas na política monetária. No país norte-americano, por exemplo, o Federal Reserve (Fed, banco central) elevou a taxa de juros em 0,75 ponto percentual, a maior alta desde 1994.

Com uma pressão inflacionária persistente que corrói o poder de compra da população e a elevação dos juros, que torna torna o crédito mais caro, a consequência direta é uma desaceleração da demanda por diversos produtos e serviços, desaquecendo a atividade econômica.

As economistas da CM Capital destacam que "estamos atravessando um período complicado. Houve revisão para um menor crescimento em praticamente todas as grandes economias do mundo e a inflação elevada deixa os bancos centrais de mãos atadas, sem poder levar a cabo políticas expansionistas que ajudem a reverter esse cenário".

"Na verdade, boa parte da revisão de crescimento se deve justamente ao aperto monetário necessário para conter a inflação. Ainda não estamos atravessando uma crise, mas este cenário é mais provável a cada dia que passa."

Carla Argenta, economista-chefe da CM Capital, e Ariane Benedito, economista da CM Capital

Fatores de incerteza

Carla e Ariane pontuam, ainda, que há outros diversos motivos que podem levar a uma recessão da economia global. Os principais deles são:

  • A guerra da Rússia contra a Ucrânia contribui para o PIB mais baixo das economias europeias;
  • A política de tolerância zero contra covid-19 na China impacta negativamente o PIB dos países asiáticos;
  • A política monetária contracionista para controlar a inflação nos Estados Unidos contribui para um menor crescimento por lá;
  • Os juros elevados no Brasil devem desaquecer a demanda agregada interna de forma intensa no segundo semestre, levando a um PIB menor.

Quais investimentos são os melhores para períodos de crise econômica?

Neste contexto de inflação persistente, juros altos e perspectivas de desaceleração na atividade, é consenso entre os especialistas que o investidor deve ter títulos da renda fixa em seu portfólio. "Vemos o momento como bom para investir em renda fixa no Brasil. Os juros já subiram bastante e uma eventual recessão faria os juros caírem mais rápido aqui, o que favoreceria títulos pré-fixados", afirma Siqueira, da Guide.

No entanto, as economistas da CM Capital pontuam que, caso o cenário exija que o Comitê de Política Monetária (Copom) promova novos aumentos da taxa Selic (a taxa básica de juros), os títulos pós-fixados podem ser uma opção mais interessante, já que eles acompanham a variação dos juros.

Setores da Bolsa

Leo Dutra ressalta também que, em contrapartida "as ações da Bolsa estão sendo negociadas com seus maiores descontos das últimas décadas, então têm muita empresa boa e barata". O analista pontua, porém, que é sempre importante o investidor respeitar o seu perfil, porque "para entrar na renda variável e colher os frutos lá na frente tem que ter estômago para aguentar a pressão de agora".

Utilities

Dentre as muitas opções disponíveis na Bolsa, um ponto comum nas análises dos especialistas é investir nas empresas de utilities, que são aqueles setores da economia que fornecem serviços essenciais para a população e tendem a ser menos impactados em momentos de crise econômica. Energia elétrica e saneamento básico são os principais exemplos dessas companhias.

De acordo com Stefany Oliveira, o setor de energia elétrico, sobretudo, tem se mostrado "muito resiliente", mesmo com as recentes quedas do mercado. "Olhando para os principais índices de ações, temos alguns setores que se destacam. Começando pelo Índice Utilidade Pública (UTIL), que é composto principalmente por empresas do setor elétrico, que acumula alta de 8,10% no ano até aqui", comenta a analista da Toro.

Setor financeiro

Ainda segundo Stefany, outro índice que vem reportando um desempenho positivo em 2022 é o Índice Financeiro (IFNC) - composto por ativos relacionados a serviços financeiros, em especial os grandes bancos -, que já subiu 5,23% até o momento.

As economistas da CM Capital explicam que o setor financeiro tende a se beneficiar do período de juros altos, porque os bancos e outras instituições podem operar com um maior spread (que é a diferença entre os juros que um banco paga para conseguir um empréstimo e os juros que o mesmo banco cobra para emprestar uma quantia).

Empresas defensivas

Outro ponto em comum entre as análises dos especialistas são as chamadas empresas de valor. Ou seja, aquelas companhias que já estão mais consolidadas em seus ramos de atuação e, por isso, podem sofrer menos com a retração, já que contam com as preferência dos consumidores em detrimento de outras que ainda não são tão "consagradas" no mercado.

Para o Head de Research da Guide Investimentos, empresas dos segmentos de supermercados e telecomunicações, por exemplo, podem ser mais defensivas seguindo essa lógica de constituir valor no mercado. Além de tais setores, Siqueira menciona a rede de shoppings Multiplan e a produtora de alimentos SLC Agrícola como boas opções de empresas consolidadas no mercado de ações.

Setores que podem sofrer mais com uma crise econômica

"Na ponta oposta, o Índice de Consumo (ICON) registra queda de 24,35% no ano de 2022, confirmando que o mercado tende a fugir de ativos que dependem de tomada de crédito e ativos alavancados. Além disso, em um cenário inflacionário, o consumidor tende a destinar suas compras a ativos de bem essenciais, então, empresas de bens duráveis e outras empresas de varejo tendem a sofrer."

Stefany Oliveira, Chefe de Análise de Trading da Toro

Sobre companhias ligadas às commodities, os especialistas divergem de opinião. Enquanto Carla e Ariane ressaltam que esses produtos "apresentam persistência da alta de preços", o que pode beneficiar suas receitas e leva mais investidores em busca de suas ações, Siqueira comenta que, com uma recessão, a demanda por commodities pode ser reduzida, afetando os papéis dessas companhias.

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Sobre o autor
Bruna Miato
Repórter na Mais Retorno