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Economia

Quais impactos a queda do petróleo trará para as empresas do setor e a economia brasileira? Preço da gasolina cai?

Parte do mercado projeta que a commodity deve se desvalorizar nos próximos meses, mas não há certezas sobre o movimento

Data de publicação:12/07/2022 às 05:00 -
Atualizado um mês atrás
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Nas últimas semanas, em meio as crescentes especulações de que o mundo possa passar por um período de forte recessão econômica, a cotação do petróleo viveu dias de bastante volatilidade. Em um mês, a commodity registra desvalorização de cerca de 13% e para algumas instituições financeiras, como o Citi, o preço tende a cair ainda mais.

Neste segunda-feira, 11, após mais um pregão de baixas, o petróleo do tipo Brent encerrou o dia cotado a US$ 106. Para o Citi, até o final de 2022, a commodity energética deve recuar ao patamar de US$ 65, acompanhando a redução da demanda mundial pelo produto. Se essa projeção realmente se concretizar, as empresas petroleiras e a economia do Brasil tendem a sentir diferentes impactos.

petróleo
Plataforma de petróleo | Foto: Envato

Especialistas ouvidos pela Mais Retorno explicam que as companhias exportadoras de petróleo, caso a demanda seja reduzida, podem observar um movimento de baixa em suas ações. Enquanto isso, para a economia de uma forma geral, a desvalorização da principal fonte de energia para as atividades no País pode significar uma desaceleração da inflação ou, até mesmo, uma desinflação.

Não é consenso, no entanto, de que o preço da commodity realmente vai cair nos mercados internacionais ao longo dos próximos meses. Outros fatores, como a guerra da Rússia na Ucrânia e a dificuldade de produção nos países membros da Organização dos Países Exportadores de Petróleo e aliados (Opep+), podem continuar pressionando a cotação. O JP Morgan, por exemplo, estima que o barril de petróleo pode chegar a US$ 380 nos próximos meses.

Projeções para o preço do petróleo

Com a retomada da atividade econômica depois do pior momento da pandemia de covid-19 no mundo, o mercado passou a observar uma pressão sobre o petróleo. As medidas de isolamento social afetaram a cadeia produtiva da commodity e, assim, a oferta foi reduzida. O movimento de retomada da demanda, porém, ocorreu de forma muito mais célere do que o da oferta, explica Ilan Arbetman, analista de Research da Ativa Investimentos.

O analista de equities da Toro Investimentos, Josias de Matos, pontua que, além disso, há vários outros fatores que contribuíram (e ainda contribuem) para a pressão altista sobre a cotação. Os destaques ficam com:

  • Países membros da OPEP+, como Angola e Nigéria, não têm conseguido atingir suas metas de produção estipuladas pela organização;
  • O aperto na oferta russa que se observou após o início da guerra na Ucrânia continua, embora uma grande parte da produção esteja sendo escoada para a China e Índia;
  • Cenário de instabilidade e imprevisibilidade política na Líbia, o que tem gerado impactos negativos na produção do país;
  • Déficit global de refinarias para seus derivados.

Arbetman destaca, porém, que a escalada dos preços da commodity levaram a uma pressão inflacionária importante sobre o mundo. Nos Estados Unidos, por exemplo, a inflação já é a maior em 40 anos. Neste contexto, os bancos centrais de diversos países, emergentes e desenvolvidos, passaram a adotar uma política monetária mais contracionista, aumentando as taxas de juros.

Inflação alta, que corrói a renda da população consumidora, e juros subindo, que encarecem o crédito para pessoas e empresas - têm levado a uma desaceleração da economia em nível global, elevando as perspectivas de que o mundo vai entrar em recessão econômica. Em um momento de crise, com a atividade reduzida, o preço do petróleo realmente pode acabar caindo.

"Embora a perspectiva para uma desaceleração do crescimento global tenha se intensificado nos últimos dias, movimento que reduziu a pressão nos preços de referência do mercado internacional de petróleo, o cenário de exploração e refino de petróleo ainda apresenta um déficit relevante na parte da oferta."

Josias de Matos, analista de equities da Toro Investimentos

Quais os impactos para as ações de petroleiras?

De acordo com Romero de Oliveira, head de renda variável da Valor Investimentos, as empresas exportadoras de commodities, de forma mais abrangente, têm seus papéis muito correlacionados à cotação do produto que exporta. Assim, se no curto prazo os preços do petróleo caírem, a tendência é que as ações das petroleiras também passem por um momento de baixas.

A forma como a cotação impacta a Petrobras e as outras petroleiras, entretanto, é diferente. "A queda nos preços internacionais do petróleo trazem uma redução nas expectativas de receitas das empresas do setor, que são beneficiadas no cenário de alta. Em contrapartida, a redução nos preços acaba por reduzir a pressão política na Petrobras, muito relacionada ao repasse dos aumentos de preço pela companhia", aponta Matos.

Petrobras X Outras petroleiras

Além disso, Fabiano Vaz, analista da Nord Research, comenta que sem um grande aumento de produção ou a redução significativa de custos, a queda da commodity pressiona as margens e consequentemente os resultados das empresas. "Como a Petrobras não possui nenhuma expectativa de crescimento relevante da sua produção, o impacto para ela é mais significativo", explica.

Já para as empresas menores do setor como PetroRio, PetroReconcavo e 3R Petroleum, o analista pontua que "o impacto não deve ser tão relevante, já que essas companhias vêm reportando um crescimento significativo das suas produções".

Embora possam haver impactos negativos, Ilan Arbetman destaca que essas companhias são "muito grandes e bem estruturadas". Dessa forma, uma queda nas ações pode ser vista no curto prazo, mas no médio e longo prazo, as perspectivas para os papéis continuam boas e, por isso, a Ativa Investimentos mantem recomendação de compra para Petrobras e PetroRio.

"As pequenas e médias petroleiras são sim uma boa opção no setor. Empresas como PetroRio e PetroReconcavo conseguem reduzir os impactos da volatilidade do petróleo nos seus resultados através do crescimento da sua produção. Ao contrário da Petrobras, que não tem grande capacidade de expandir de forma relevante sua produção e ainda possui o risco de uma estatal."

Fabiano Vaz, analista da Nord Research

Dólar pode compensar desvalorização do petróleo

Segundo o líder da área de análise da Warren, Fernando Nobre, a taxa de câmbio pode ser um impeditivo para que as exportadoras sofram com uma possível desvalorização do petróleo. Com o dólar em alta (no fechamento de segunda, a moeda americana ficou cotada em R$ 5,37, após subir 1,96%), a receita dessas companhias - que é dolarizada - tende a ter uma compensação e, assim, o impacto não é tão sentido.

O especialista da Warren ressalta, ainda, que os efeitos do movimento de baixa podem demorar algum tempo até serem sentidos e, por isso, a próxima temporada de balanços corporativos ainda deve ser bastante positiva para as petroleiras.

Nobre ressalta que, com base nessas perspectivas, a casa de investimentos mantém suas posições em empresas petroleiras. Ele considera que, mesmo que o petróleo caía um pouco, até a casa dos US$ 90, as exportadoras tendem a continuar com bons resultados e entregando bons dividendos, com destaque para a Petrobras.

Como a queda do petróleo vai mexer com a economia brasileira?

Segundo os especialistas, se a queda da cotação da commodity for mais longa e não apenas de curto prazo, os preços dos combustíveis podem passar por uma redução. Caso isso aconteça, Vaz afirma que "a queda dos preços dos combustíveis pode desacelerar a inflação, influenciar os juros e consequentemente a atividade econômica do país".

Além das ações exportadoras de petróleo, outras companhias também podem ser impactas pela baixa do produto no exterior. Para Romero de Oliveira, da Valor Investimentos, algumas das principais empresas a sentir essa variação serão aquelas ligadas à aviação e turismo, como Azul, Gol e CVC. Parte significativa dos custos dessas companhias vem da querosene, combustível a base de petróleo. Assim, com a queda da commodity, as despesas também caem.

No mesmo sentido, o analista comenta que muitos outros setores também podem ter uma redução de custos, tendo em vista que a energia fornecida pelo petróleo é usada em praticamente toda a cadeia produtiva da indústria nacional. Com a redução generalizada das despesas, a inflação de produtos e serviços não administrados também pode desacelerar.

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Sobre o autor
Bruna Miato
Repórter na Mais Retorno