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Economia

IPCA+6: esse é o melhor investimento da atualidade?

Voltamos a ver oferta de títulos públicos atrelados à inflação (o popular “Tesouro IPCA”) pagando o nosso principal índice inflacionário e garantindo ainda um prêmio adicional…

Data de publicação:11/07/2022 às 09:47 -
Atualizado um mês atrás
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Voltamos a ver oferta de títulos públicos atrelados à inflação (o popular "Tesouro IPCA") pagando o nosso principal índice inflacionário e garantindo ainda um prêmio adicional de 6,0% ao ano. Seria essa a oportunidade dos sonhos do investidor?

Não foram poucos os investidores que, durante o último ciclo de baixa de renda fixa, suspiravam pela volta de taxas de juros mais atrativas. A Taxa Selic, afinal, chegou a bater apenas 2% ao ano no período recente — movimento que, naturalmente, fez crescer o interesse pelos ativos de renda variável.

No entanto, em um ano marcado por eleições polarizadas, guerra na Europa, aumento do risco fiscal e dificuldade em controlar a inflação, o risco-país do Brasil se elevou, algo que acaba impactando diretamente o prêmio exigido pelos investidores para comprar títulos de dívida do nosso governo.

Tesouro IPCA + 6,0% ao ano: o que representa esse título?

Pois é, investidor! Os dias de glória da renda fixa estão de volta com a oferta de títulos públicos atrelados à inflação pagando um prêmio adicional na casa de 6,0% ao ano. Essa é uma oportunidade aguardada por muitos e, para confirmar, veja abaixo a relação de alguns títulos da categoria listados na plataforma do Tesouro Direto.

Tabela de relação de títulos da categoria Tesouro IPCA somado ao seu ano de resgate | Fonte: Tesouro Direto

Agora vamos entender um pouquinho melhor esse título público. A grande razão pela qual ela faz os olhos dos investidores brilharem está na garantia de juros reais — uma característica do Tesouro IPCA — sendo ele emitido por um dos credores mais confiáveis do país: o próprio governo.

Vale lembrar que, quando investimos, nós buscamos não apenas ganhar dinheiro, mas principalmente superar a inflação para garantir um aumento no poder de compra. Um resultado positivo, entretanto, não é suficiente para ter a certeza de acompanhar o aumento dos preços, ainda mais aqueles que possuem a cobrança do Imposto de Renda.

No entanto, veja que neste ativo, nós temos um retorno real de 6,0% ao ano somado ao IPCA, que é o nosso principal índice inflacionário. Ou seja, mesmo em um cenário de forte pressão inflacionária, um investimento no Tesouro IPCA com essas condições representa um ganho de 6,0% ao ano acima da inflação. Ou seja, o poder de compra estaria protegido.

E não é só isso! Note que os vencimentos dos títulos são de longo prazo: 2035, 2045 ou 2055. Ou seja, é uma chance de garantir essa rentabilidade real por mais de 20 anos.

Quanto eu vou ganhar com IPCA + 6,0%?

É claro que o ganho financeiro com um investimento depende diretamente do total de dinheiro que você aporta no ativo. No entanto, é possível projetar o ganho de capital em termos percentuais — e o resultado não é nada ruim.

O investidor que comprar títulos públicos pagando um prêmio de 6,0% ao ano sobre a inflação terá, ao longo de trinta anos, multiplicado o seu poder de compra em praticamente cinco vezes. É um resultado realmente impressionante para quem busca acumular capital ao longo do tempo.

E podemos ir além comparando esse investimento com outras classes de ativos. É o que vamos fazer na sequência, observando diferentes horizontes temporais.

IPCA+6% em 30 anos

Falando em 30 anos, vamos usar a nossa ferramenta de comparação de ativos para traçar alguns cenários para os investimentos disponíveis no Brasil. Veja abaixo o desempenho dos seguintes indicadores desde o distante ano de 1994 (um período de 28 anos):

  • IPCA + 6,0%
  • IPCA (inflação sem prêmio)
  • CDI (principal indexador de juros)
  • Ibovespa (principal representação do mercado de ações)
Gráfico de comparação de rentabilidade IPCA+6% junto ao CDI, IPCA e Ibovespa | Fonte: Mais Retorno

Note que, neste período de quase 30 anos, o IPCA + 6,0% ao ano acaba perdendo para o CDI, mas oferece uma remuneração muito acima do Ibovespa, que representa um mercado muito mais arriscado do que emprestar o dinheiro para o governo — que, em essência, é o que acontece quando compramos títulos públicos.

Além disso, a valorização de 3.703,37% no período é mais do que suficiente para cobrar a inflação, que foi de 644,31%. Ou seja, o poder de compra não apenas foi preservado, como acabou multiplicado no longo prazo.

IPCA+6% em 20 anos

Na primeira análise, o principal destaque em termos de rentabilidade foi o CDI. No entanto, vale observar que o início do período ainda é marcado por uma pressão de inflação muito elevada — algo que exigia a prática de altíssimas taxas de juros por parte do Banco Central por meio da sua política monetária.

Como sabemos, ainda que o cenário atual seja desafiador para o Brasil, nem de longe ele se assemelha com aquele momento econômico. Dessa forma, trazendo a análise para um período de 20 anos, já percebemos a atratividade de garantir juros reais de 6,0%: esse é o principal ativo, ainda batendo o Ibovespa.

IPCA+6% nos últimos 20 anos | Fonte: Mais Retorno

IPCA+6% em 10 anos

Trazendo para um momento ainda mais próximo da nossa economia, os resultados se mantém próximos. Ou seja, o título público pagando IPCA + 6,0% ao ano é mais do que capaz de superar outras classes de ativos, inclusive aquelas com maior risco como o mercado de renda variável.

IPCA+6% nos últimos 10 anos | Fonte: Mais Retorno

É hora de ficar na renda fixa e fugir da renda variável?

Como vimos ao longo do artigo, é difícil encontrar um ativo que supere a atratividade de um investimento no IPCA + 6,0% como prêmio de risco. Portanto, sem dúvidas, é uma oportunidade que vale muito a pena pensando no acúmulo de capital para o longo prazo.

Apesar disso, é importante mencionar que o mercado financeiro é cíclico e, além disso, há uma certa imprevisibilidade sobre o futuro da economia. A oferta de juros reais na casa de 6,0% ao ano é fruto de um pessimismo talvez exagero, mas não há como garantir que as condições não se tornem ainda piores.

Dessa forma, ainda que seja inegável a atratividade de um título com essa rentabilidade oferecida, precisamos fazer duas ressalvas. A primeira delas é que, embora os períodos longos se mostrem negativos para a renda variável, não será sempre assim.

Veja abaixo como, no período entre 2015 e 2019, o Ibovespa valorizou mais de 118%, contra pouco mais de 62% do IPCA + 6,0% ao ano. Praticamente o dobro de retorno, mais do que compensando o risco corrido. E o cenário em 2015, com a crise que se aproximava, era similar ao que vivenciamos atualmente.

Comparação IPCA+6% com Ibovespa no período | Fonte: Mais Retorno

Isso sem falar que o Ibovespa é um índice muito concentrado em poucas empresas — Vale, Petrobras, B3, Itaú e Bradesco, por exemplo, representam quase 50% do resultado. Assim, com uma seleção caprichada de ações, esse resultado poderia ser ainda melhor.

Ademais, apesar de ter liquidez diária, a marcação a mercado do Tesouro IPCA oferece sim risco maior ao investidor que precisa antecipar resgates. Dessa forma, como é costume, a diversificação segue recomendada como a melhor forma de equilibrar uma relação entre risco e retorno no mercado financeiro.

Sobre o autor
Stéfano Bozza
Formado em Administração pela PUC-SP. Trabalhou em empresas do segmento financeiro (Itaú BBA) e varejo (BRMALLS) até 2016, quando iniciou a jornada de produção de conteúdo para a internet com foco em finanças.