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Economia

Perspectivas para a economia do Brasil e do mundo no segundo semestre não são animadoras; saiba por quê

Especialistas esperam inflação ainda elevada, políticas monetárias contracionistas e desaceleração das economias

Data de publicação:07/07/2022 às 05:00 -
Atualizado um mês atrás
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Os primeiros seis meses de 2022 foram marcados por um ambiente macroeconômico coalhado de incertezas: de uma guerra na Europa até milhões de pessoas em lockdown na China, passando por todas as consequências que vieram na esteira desses eventos, com destaque para o avanço desenfreado da inflação no mundo. E as perspectivas não são nada otimistas nessa virada de semestre para a economia global.

Especialistas alertam que os próximos meses ainda devem ser de turbulências. De um lado, uma pressão inflacionária persistente em nível mundial, de outro, os bancos centrais não poupando esforços para segurá-la e adotando medidas de política monetária mais contracionistas, com a elevação das taxas de juros. Neste contexto, as indicações são de que o mundo não escapará de uma recessão econômica.

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Cenário macroeconômico é repleto de incertezas em todo o mundo | Foto: Reprodução

Principais expectativas para a economia no segundo semestre

De acordo com Matheus Pizzani, economista da CM Capital, para o segundo semestre, "a principal expectativa está voltada para as consequências mais palatáveis da política monetária no campo interno, que deve começar a fazer efeito e ajudar no processo de controle da inflação".

No entanto, segundo ele, as atenções estarão focadas na meta de inflação proposta para o ano de 2023, uma vez que o controle dos preços dentro do que foi proposto pelo Regime de Metas de Inflação (RMI) já se tornou algo inatingível nas condições atuais.

Já para o cenário externo, o mundo olha com atenção uma provável desaceleração das economias desenvolvidas, especialmente nos Estados Unidos e na Zona do Euro.

Nas últimas semanas, manifestações dos bancos Goldman Sachs, Bank of America e do economista Robert Shiller referem-se às possibilidades de que o país norte-americano passe por uma crise econômica estão entre 30 e 50%.

"Vale destacar também a necessidade de acompanhamento da economia chinesa, em especial depois das recentes declarações de seu presidente, Xi Jinping. Ele se mostrou comprometido em alcançar as taxas de crescimento propostas pelo planejamento do Governo Central, o que deve impulsionar a demanda por commodities do país asiático. Além disso, deve fornecer algum alívio para o mercado internacional, tendo em vista o papel central que a China exerce dentro das cadeias globais de produção."

Matheus Pizzani, economista da CM Capital

Inflação deve continuar elevada no mundo

Igor Cavaca, head de gestão de investimentos da Warren Asset, explica que o principal fator do processo inflacionário atual é decorrente da quebra dos processos de produção e logística provocados pelas medidas de isolamento social adotadas ao redor do mundo para conter a pandemia de covid-19.

"A pandemia acabou desorganizando toda a cadeia produtiva, com um rápido congelamento da produção e consumo, e, posteriormente, uma maior lentidão da retomada das atividades normais", afirma Cavaca. Além disso, muitos países adotaram diversas políticas fiscais e monetárias expansionistas para enfrentar os impactos econômicos da pandemia.

Com o avanço da vacinação e a retomada da atividade econômica, a volta do padrão de consumo mundial já era espetada. No entanto, Pizzani afirma que, neste movimento, dois fatores acabaram por surpreender o mercado:

  • a magnitude com que isto aconteceu, com a pressão sobre o lado da oferta sendo mais intensa do que poderia ter sido inicialmente previsto;
  • a combinação da migração dos gastos pessoais para o setor de serviços e bens não duráveis e serviços com a manutenção dos gastos no grupo de bens duráveis, disseminando a inflação, que se encontrava concentrada apenas neste último grupo, para todo o conjunto da economia.

Simultaneamente, a eclosão da guerra da Rússia na Ucrânia, uma das principais regiões exportadoras de petróleo, gás natural e diversas commodities alimentares, também impactou a oferta de muitos produtos em um momento em que a demanda seguia aquecida, contribuindo para a escalada dos preços.

"O aumento de preços e serviços sempre é motivada pela escassez de recursos ou pelo receio de cenários negativos futuros (insegurança). A guerra da Ucrânia, a crise de abastecimento da China e o cenário pós pandemia trouxeram esses dois fatores para a realidade do mundo. No Brasil existe também o confuso cenário político e jurídico. A tendência é de manutenção ou agravamento da inflação."

Marcos Crivelaro, professor de finanças do Centro Universitário FIAP

Inflação importada para a economia brasileira

As perspectivas para o Brasil para o semestre também não são das melhores. Segundo Alfrânio Trescher, gerente financeiro e especialista em investimentos do Sistema Ailos, diz que "embora o Banco Central tenha iniciado o ciclo da alta de juros no País muito antes do que as outras nações desenvolvidas, a economia brasileira ainda deve sentir até o final de 2022 os efeitos de uma "inflação importada".

Muitos produtos, a começar pelo combustível, são importados e têm seus preços expostos às oscilações do exterior. No caso dos combustíveis, os preços são influenciados pela cotação do petróleo, e essa é uma das portas que a inflação global entra no País.

Taxas de juros em alta

No Brasil, como dito por Trescher, o ciclo de alta na taxa Selic (a taxa básica de juros) já começou há um bom tempo, em meados de 2021.

"O Brasil começou a aumentar a sua taxa de juros antes que os países desenvolvidos, justamente porque estes imaginavam que a inflação seria transitória. Mas o Brasil, por ser um país em desenvolvimento, começou a subir sua taxa antes por já conhecer o efeito que tem a inflação na sua estrutura como país", afirma o especialista.

Já no cenário internacional, explica o economista da CM Capital, os Estados Unidos e a Zona do Euro ainda se encontram no início de seus ciclos de aperto monetário. Na última reunião do FOMC, o comitê de política monetária do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) elevou a taxa básica de juros em 0,75 ponto percentual, a um intervalo entre 1,00% e 1,75%, o que não acontecia desde 1994.

A instituição sinalizou, ainda, a manutenção do ciclo de aumentos para as próximas reuniões, "que devem inclusive contar com novas elevações de 75 pontos-base, algo inédito e de grande impacto para a economia norte-americana", destaca Pizzani.

"Na Europa, o Banco Central Europeu anunciou o primeiro aumento em mais de dez anos na taxa de juros para o mês de julho, que a princípio será de 0,25 ponto percentual, com um novo aumento programado para setembro. A intensificação do aperto monetário nos Estados Unidos e a persistência de índices de inflação elevados nos países do bloco podem fazer com que esta programação seja alterada, com aumentos de maior magnitude sendo colocados em prática pela autoridade monetária local."

Matheus Pizzani, economista da CM Capital

Para Igor Cavaca, "ainda passaremos por um bom período com taxas de juros mais altas de forma global", com o Brasil mantendo seus juros altos e outros países realizando novas elevações. O head de investimentos da Warren pontua que isso deve causar efeitos importantes na economia, com redução do crescimento, baixo investimento, reorganização do fluxo de capitais e aversão ao risco, só para citar alguns exemplos.

Desaceleração da economia no segundo semestre

Com a inflação em alta corroendo o poder de compra da população e os juros subindo mundo afora, o que encarece o crédito para pessoas e empresas, investidores e analistas já dão como certo um período de recessão econômica global, começando pelos Estados Unidos.

Para o professor de finanças da FIAP, Marcos Crivelaro, atualmente não é possível fazer previsões confiáveis de cenários para o Produto Interno Bruto (PIB) dos países.

"O noticiário sempre está mostrando que as previsões dos PIB não estão se confirmando. Errando para mais ou para menos. Isso porque há uma união de fatores nacionais e internacionais que ocorreram nos intervalos de avaliação desses indicadores", aponta o professor. Ele acredita que, apesar disso, a tendência de todos os mercados é de baixa moderada no PIB no segundo semestre.

Nos últimos meses de 2021 e primeiros meses de 2022, Matheus Pizzani ressalta que foi possível observar a "coexistência de um bom nível de atividade econômica com elevados níveis de inflação" nos Estados Unidos e na Europa. Isso aconteceu porque, com a pandemia, havia muita demanda reprimida.

Em contrapartida, a medida que o fim deste represamento seja alcançado, assim como as políticas monetárias comecem a fazer efeito, a expectativa é que "estes países observem uma forte desaceleração de suas taxas de crescimento", afirma o economista. Para ele ainda é cedo para afirmar se haverá recessão neste anos, mas há um cenário com altas probabilidades de que isso aconteça.

Projeções para o crescimento da economia brasileira

"A economia brasileira se mostrou melhor do que estávamos esperando no final do ano passado. A inflação seguiu um processo intenso, a política monetária em terreno mais contracionista, mas mesmo assim, os efeitos sobre a economia real foram menos intensos, com continuidade da recuperação da produção e melhora do mercado de trabalho. Para os próximos trimestres devemos seguir observando comportamento parecido, mas com menor intensidade."

Igor Cavaca, head de gestão de investimentos da Warren Asset

Alfrânio Tescher comenta que a guerra na Ucrânia pode acabar impulsionando o crescimento brasileiro por conta das commodities. Como aquele país é um importante exportador de alimentos como trigo e milho, por exemplo, os confrontos na região impedem a exportação dos produtos e, assim, a demanda pelas commodities brasileiras cresce, gerando mais receita para o País. O mesmo ocorre com o petróleo.

No entanto, o especialistas ressalta que esse é um movimento de curto prazo. Para ele, ao pensar no médio prazo, a política monetária mais contracionista adotada pelo Banco Central já deve ter começado a afetar o crescimento da economia brasileira.

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Sobre o autor
Bruna Miato
Repórter na Mais Retorno