Renda Variável

O fantasma de uma crise de energia passou a rondar a economia global, no momento que os países das maiores economias já têm engatilhados planos de retomada de atividade, após enfrentar o período mais severo de pandemia do coronavírus e às vésperas do início do inverno no Hemisfério Norte. O Brasil não estará imune às consequências nem as empresas com papeis na Bolsa de Valores, na B3.

Especialistas atribuem a crise ao que chamam de transição atribulada do modelo de matriz energética, de uma fonte de geração suja para outra mais limpa, sem que esta esteja suficientemente consolidada para assumi-la. Uma disfunção evidenciada em duas regiões do mundo, ainda que por motivos diferentes, de acordo com especialistas do setor.

Um é a China, onde o governo tem agido com mais rigor contra fontes de energia poluidoras, com medidas como a redução do uso de carvão, principalmente pelas indústrias. As restrições ao uso desse insumo, para a chamada descarbonificação da economia, aumentaram a demanda do parque fabril chinês pelo petróleo.

Uma demanda que foi reforçada também em alguns países da Europa, especialmente no Reino Unido, por causa do estrangulamento na cadeia de abastecimento de gás natural, aponta Joni Vargas, especialista e sócio da Zahl Investimentos. “A combinação desses dois eventos trouxe à tona o temor de crise energética e impulsionou o preço do barril de petróleo acima de US$ 80”, o maior nível em três anos.

China em busca de energia limpa

A China assumiu o compromisso de neutralizar a emissão de carbono até 2060, explica Ilan Albertman, analista de research da Ativa Investimentos, e já vem colocando em prática as medidas previstas nesse compromisso, com desdobramentos sobretudo na indústria de siderurgia e aço.

“São dois setores bastante intensivos em energia que emitem cerca de 15% a 20% de carbono na China”, destaca Albertman, “e isso deixa claro que o controle na cadeia de siderurgia e aço é fundamental para a execução de metas do compromisso”.

O mundo passa por um modelo de transição de matriz energética, “de fontes que poluem dando espaço para fontes mais benignas, de energias renováveis”, explica o analista da Ativa, um processo que provocará impactos na economia global e nas relações comerciais, principalmente entre o Brasil e a China.

O ajuste às normas que colocarão a China na trilha do cumprimento de metas ambientais redundará em desaceleração do crescimento econômico, de acordo com especialistas. Um freio na atividade que terá desdobramentos em todos os países, “já que a China tem um peso muito grande na economia global”, avalia Albertman.

Como o Brasil será afetado

“O Brasil tem a China como principal ator no mercado de exportação”, pontua o analista, especialmente no segmento de commodities. A Vale, segundo o analista de research, tem 55% de suas receitas provenientes de vendas de minério de ferro para a China, também o principal comprador de petróleo cru da Petrobras e de celulose de fibra curta da Suzano.

Os efeitos da crise energética não se limitam à pauta de comércio da China com os demais países. O aumento do preço do petróleo e do gás natural no mercado internacional causa pressão inflacionária pelo mundo, por causa do aumento de custos, analisa Vargas, especialista da Zahl Investimentos. “E o Brasil não está livre dessa dinâmica de inflação.”

O mundo todo está preocupado com o processo inflacionário, diz o especialista, porque a atividade econômica da maioria dos países está voltando ao período pré-pandemia. “Uma retomada da economia com inflação alta e persistente leva os bancos centrais a aumentar os juros.”

Felipe Leão, analista da Valor Investimentos, vê no risco de rápida disseminação da inflação a principal ameaça à economia global e ao País. “A quebra da cadeia produtiva”, pela falta de componentes e insumos na linha de produção, é um fator inflacionário importante e “tende a prejudicar empresas montadoras, ligadas ao setor automotivo”.

A alta da inflação e dos juros também bate na bolsa

A alta dos juros tem uma série de outras implicações, como a elevação do custo de financiamento, o que tende a prejudicar empresas cujas receitas dependem de crédito no varejo, como a Riachuelo e a Renner, aponta Vargas, especialista da Zahl. A elevação dos juros é sempre interessante para quem tem dinheiro para aplicar ou emprestar, como os bancos, “principalmente o Itaú”, aponta.

O cenário atual pode beneficiar ainda frigoríficos exportadores de proteína animal como a JBS e a Marfrig, que “estão mais preparados para um cenário desses, por contar com plantas nos Estados Unidos”, acredita.

No setor específico de energia, a crise pode favorecer empresas voltadas à geração de energia térmica, com pouca produção de energia hidrelétrica, “como a Eneva, bastante focada na geração de energia térmica”, já que a expectativa é pelo aumento de demanda pela energia não hídrica. “Companhias geradoras de energia hidrelétrica, como a AES Tietê, podem sofrer com diminuição de receita.”

Felipe Leão, analista da Valor Investimentos, cita como empresas que podem ser mais beneficiadas a Engie Brasil Energia, empresa que atua mais no segmento de transmissão, e a Neoenergia, mais focada em energia eólica e fotovoltaica (energia solarfotovoltaica).

E destaca a Aeris Energy, fabricante de pás para geradores de energia eólica, portanto com foco em energia limpa, “que já tem uma expertise e pode sair na frente nesse tipo de geração”. Por também estar posicionada na geração de energia eólica e solar, a Weg poderá ser favorecida nessa novo contexto energético global.

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Colaborador do Portal Mais Retorno.

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