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Temos comentado nas últimas semanas que o dólar ficaria mais forte contra o real devido o avanço do DXY (Dollar Index). O gráfico abaixo é semanal e compara a evolução da variação do dólar/real e do DXY.

A nossa moeda é impulsionada por “dois motores”: um externo e outro interno. No momento, ambos estão ligados próximos da força máxima e favoráveis para a alta do dólar!

Motor externo: se o DXY continuar subindo o dólar/real poderá retornar para R$5,30 ou mais (existe a possibilidade do dólar subir até R$5,50 sem mudar o viés de queda de longo prazo contra o real). A nossa moeda não deve performar muito melhor que o dólar no mundo e, por isso, apostar no aumento da distância das linhas do gráfico acima (DXY subir e dólar/real cair) é arriscado. As divergências são propícias para comprar dólar no Brasil, que estão destacadas na cor lilás no gráfico.

Motor interno: o momento atual é bem conturbado. Refis, “Auxílio Brasil” e parcelamento de precatórios são temas que ameaçam a preservação do teto de gastos e isso deixa os investidores muito cautelosos. As declarações de Arthur Lira, presidente da Câmara, são favoráveis pela manutenção do teto e a sua preservação será um importante sinal para acalmar os investidores. Além disso, há um tensionamento institucional, mas acreditamos que em breve ocorrerá mais uma trégua entre os poderes, já que não é viável governar com clima tão tenso.

Eventos relevantes que aconteceram nos últimos dias:

28/07 - Reunião do FOMC (EUA): o comunicado foi mais brando do que o esperado, fato que ajudou a derrubar o Dollar Index provisoriamente para perto de 91,50;

04/08 - Reunião do Copom (Brasil): a taxa Selic subiu em 100 bps (acima da nossa estimativa) e o Copom avisou que fará aumento na mesma magnitude na próxima reunião (22 de setembro). Além disto, alertou que a taxa Selic ficará acima do nível neutro, ou seja, o piso para o juro será de 7%. A notícia é boa para o real porque deixa a compra de dólares mais cara. Além disto, a atual taxa Selic (5,25%) está acima da inflação esperada para os próximos 12 meses, algo que não acontecia há muitos meses e que beneficia a nossa moeda;

06/08 - Payroll (EUA): o dado de emprego surpreendeu, vindo acima do previsto e com média de criação de 830.000 empregos nos meses de maio a julho. O dado fortaleceu a tese de aperto monetário pelo Fomc, que deverá anunciar na reunião de 22 de setembro o início da redução das compras de títulos, que atualmente é de US$ 120 bilhões em Treasuries e hipotecas mensalmente. Eventualmente, nos Simpósio de Jackson Hole, Jerome Powell, presidente do Fed, sinalize em seu discurso esta decisão.

Abaixo gráfico sobre a recuperação do emprego: se for mantido o ritmo de criação de 800.000 vagas todos os meses, o patamar pré-pandemia de número de pessoas empregadas será atingido no primeiro trimestre do próximo ano.

Próximos eventos relevantes:

O próximo dado relevante e que irá ser divulgado nesta quarta-feira é a inflação nos Estados Unidos (CPI): apesar de não ser a inflação oficial (que é o núcleo do PCE), o dado é divulgado na primeira quinzena do mês, enquanto o PCE é divulgado no final do mês, logo, o mercado antecipa o dado oficial. Para que a tese de inflação transitória continue de pé, será necessário que a inflação ao consumidor arrefeça, enfraquecendo o dólar.

Veja a agenda abaixo, com destaque para o dia 22 de setembro, nova Super Quarta e data e possível data que o Fed poderá anunciar o início da redução mensal das compras de ativos.
11 de agosto – Vendas no varejo (Brasil). CPI (EUA)
12 de agosto – Pesquisa Mensal de Serviços
25 de agosto – IPCA-15
26 a 28 de agosto: Simpósio Jackson Hole, organizado pelo Fed de Kansas City. O evento foi palco diversas vezes de importantes discursos de política monetária. (https://www.kansascityfed.org/research/jackson-hole-economic-symposium/economic-symposium-conference-proceedings/)
03 de setembro – Payroll (EUA)
09 de setembro – reunião do BCE
10 de setembro – CPI (EUA)
22 de setembro – Reunião do FOMC, com divulgação de novas projeções econômicas + Reunião do COPOM - Super Quarta!

Caminhos para o dólar/real:

O Dollar Index é negociado em torno de 92,50 há quase dois meses e caso a cotação rompa a máxima do ano (93,50) deveremos ter um dólar ainda mais forte, em torno de 95. Pensando em euro, seria em torno de 1,15.
Os investidores globais temem quatro situações neste momento e, por isso, busca ativos de proteção, ou seja, compra dólares:

1- Avanço da variante delta da Covid. Até o momento observa-se um forte aumento no número de pessoas infectadas, mas felizmente o número de óbitos é bem abaixo do observado com as cepas alfa, beta e gama. O problema é que algumas medidas de distanciamento social estão sendo novamente adotadas: a Austrália e a China anunciaram lockdown em várias regiões de seus países e Nova York voltou a exigir máscaras em locais fechados. Além disto, o número de pessoas hospitalizadas nos Estados Unidos é bastante alto e não seria surpresa se alguns estados adotassem medidas mais rígidas, inclusive incentivados pela Presidência democrata de Biden;

2- Aperto monetário pelo Fed devido a inflação e o emprego mais altos em meio a desaceleração no ritmo de crescimento da economia. O gráfico abaixo mostra que importantes países estão em fase de desaceleração da atividade manufatureira (Estados Unidos, Eurozona, China e Coreia do Sul);


3- Regulação mais dura na China contra empresas de tecnologia, fato que afeta o crescimento do país;

4- Enfraquecimento de algumas commodities chaves, como minério de ferro, petróleo, cobre e soja. Por enquanto o índice de commodities segue em tendência de alta de longo prazo, mas sofreu perdas nos últimos dias.

Com relação ao provável anúncio da redução das compras de títulos pelo Fed nas próximas semanas, acreditamos que a redução gradual destas compras não deverá provocar um impacto muito forte na cotação do dólar para cima porque, de certa forma, é uma medida bem esperada pelos investidores.

No Brasil, o ambiente é contaminado com o temor do rompimento do teto de gastos. Não acreditamos que o teto seja rompido, mas se isto ocorrer, o dólar irá se apreciar fortemente contra o real.

No momento é provável que o dólar/real siga no intervalo entre R$5,05 e R$5,30. A nossa moeda depende dos eventos acima comentados para tomar uma direção. Observando o gráfico que compara do dólar/real com o DXY, uma subida do Dollar Index para 95 pode levar a cotação do dólar no Brasil para algo entre R$5,30 e R$5,50.

Ainda seguimos otimistas com relação à nossa moeda, ou seja, não descartamos a hipótese do dólar cair entre 10% e 15% contra o real dos patamares atuais, ou seja, cair para algo em torno de R$4,70 ou um pouco menos.

Alguns motivos nos levam a esta hipótese: o modelo da Wagner Investimentos indica tendência de baixa do dólar contra o real; a alta mais forte da taxa Selic; a redução da dívida pública em relação ao PIB e a boa chance de aprovação das reformas tributária e administrativa.

Porém, é possível que a janela favorável ao real se feche entre seis e nove meses devido ao aumento da temperatura política com a aproximação das eleições presidenciais de 2022.

Desejo a todos uma ótima semana e bons negócios!

Abraços,

José Faria Júnior

Disclaimer: este material foi elaborado com a exclusiva finalidade de apresentar conteúdo meramente indicativo, não devendo, em nenhuma hipótese, ser interpretado como um texto, relatório de acompanhamento, estudo ou análise sobre câmbio ou valores mobiliários que possam auxiliar ou influenciar no processo de decisão. As informações utilizadas para a sua elaboração foram obtidas de fontes públicas consideradas confiáveis e de boa fé, porém não há nenhuma garantia, expressa ou implícita, sobre mudanças, que não implica na obrigação de qualquer comunicação no sentido de atualização ou revisão com respeito a tal mudança. Desta forma, a Wagner Investimentos e o analista envolvido em sua elaboração não aceitam responsabilidade por qualquer perda direta ou indireta decorrente da utilização do conteúdo deste documento.

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José Raymundo de Faria Júnior é economista graduado pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e mestre em Administração pela Fecap. Sócio desde 2006 da Wagner Investimentos, possui as certificações financeiras CFP®️, CNPI, CGA e é Consultor de Valores Mobiliários.

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