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Economia

Posse de Lula: Com receio do mercado, título do Tesouro tem a maior taxa desde impeachment de Dilma, em 2016

Tesouro IPCA chegou a oferecer juro de 6,26% nesta quinta-feira, 29

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Data de publicação:30/12/2022 às 08:00 -
Atualizado um mês atrás
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A incerteza com a política fiscal permanece como a grande preocupação do mercado financeiro e a pedra de toque que continua movendo os juros. Principalmente as taxas futuras de juro.

Nessa toada, os juros dos títulos públicos emitidos pelo Tesouro Nacional estão todos acima de 6% ao ano, os mais elevados desde o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, em 2016. Ainda que a inflação esteja em desaceleração e sinalize melhor comportamento daqui para frente.

juros

Para especialistas, a escalada dos juros dos títulos públicos, como a Nota do Tesouro Nacional da série B (NTN-B) ou Tesouro IPCA, na plataforma do Tesouro Direto, reflete a desconfiança do mercado com a política fiscal do novo governo do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva.

A PEC da Transição, proposta pelo governo que toma posse em 1º de janeiro, deixou o mercado com um pé atrás. Ainda que o valor fora do teto de gastos e o tempo de duração aprovado tenha ficado abaixo do previsto em relação à PEC que chegou ao Congresso.

Nesse processo de arranjo orçamentário, de acordo com os especialistas, faltou o que o mercado mais queria, a formatação de uma âncora ou arcabouço fiscal, que ficou para agosto. Algo que substitua a regra do teto de gastos como mecanismo limitador de expansão das despesas públicas.

Incertezas em relação ao arcabouço fiscal

A alta dos juros, sobretudo de longo prazo, reflete um sentimento de grande dúvida sobre o arcabouço fiscal do Brasil, aponta o planejador financeiro Raymundo Junior. Um olhar para o passado apenas reforça a preocupação com a questão fiscal, diz. “Observamos que os governos do PT sempre pautaram por mais gastos, mais impostos, inflação perto do teto da meta e juros mais altos.”

Junior diz que a alta dos juros de longo prazo antecipa a piora do arcabouço fiscal. Ele calcula que “a aprovação da PEC da Transição com gasto estimado em 2023 em R$ 200 bilhões e depois na faixa de R$ 168 bilhões elevará a relação da dívida bruta/PIB para algo em torno de 90% ao término do governo Lula 3”.

O risco fiscal, estampado na alta dos juros futuros, aumentou muito, concorda Fabio Gallo, “reflexo dos anúncios da equipe econômica e da situação criada pela aprovação da PEC”, aponta o professor de finanças da Fundação Getúlio Vargas (FGV).

Outra avaliação que causa desconforto no mercado financeiro é a leitura de que “o núcleo dos ministérios com grana e de interesse político ficou nas mãos do PT”, comenta Gallo. A reeleição de Arthur Lira à presidência dada Câmara, após articulações com o presidente eleito, “deixa muito maior espaço de manobra, político e orçamentário, para que Lula exerça seu mandato”, avalia.

Juro real de 6,60%

Mas o que essa dança dos juros dos títulos públicos, tendo como pano de fundo o cenário político-econômico, impacta o bolso de quem investe em título como o Tesouro IPCA, na plataforma do Tesouro Direto?

É um título que remunera com correção monetária pela inflação oficial, o IPCA, mais um prêmio, como juro real. Em um título com vencimento em 2035, o Tesouro IPCA+ 2035, os juros saíram de uma faixa entre 5,70% e 5,80% ao ano, antes das eleições, para um intervalo entre 6,50% e 6,60%, as taxas mais altas desde o impeachment de Dilma Rousseff.

No momento de maior estresse em 2016, o prêmio de risco ou o juro real dessa modalidade de papel passou de 7% ao ano, chegando a uma faixa entre 7,20% e 7,30%.

Os prêmios subiram, mas agora estão em queda, embora mais altos do que estavam há dois meses, no período anterior às eleições, analisa Sérgio Evangelista, gestor de portfólio da Western Asset.

O pico de alta recente refletiu as “incertezas com os sinais de política expansionista do novo governo e a falta de arcabouço fiscal”, aponta. Pressionaram os juros ainda a PEC da Transição, que agravou o temor com a política fiscal do novo governo, e algumas declarações pós-eleitorais do candidato vitorioso e seus auxiliares próximos.

Nesse vaivém de taxas, ao longo do ano o juro do Tesouro IPCA subiu pouco mais de um ponto porcentual, de 5,20% ao ano, no início de 2022, para 6,26%, nesta quinta-feira, 29.

Com uma inflação de 5,80% estimada no período e juro real prefixado de 5,20% ao ano, o detentor de um título desses que fizesse o resgate antecipado agora deveria receber, grosso modo, um rendimento perto de 11%. Não é o que acontece. A alta dos juros desvaloriza o valor ou o preço do título, pela marcação a mercado, e o rendimento do investidor cai.

O rendimento estampado no título no momento da compra, no entanto, é garantido ao investidor que permanece com o título até seu vencimento final para fazer o resgate. Independentemente do vaivém dos juros durante o período que o investidor permanece abraçado ao título.

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Sobre o autor
Tom
Repórter da Mais Retorno

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