Logo Mais Retorno
Fundos de Investimentos

Por que o Brasil surge como uma das principais teses de investimentos no mundo? Gestores respondem

Avanço no ciclo de ajuste da política monetária e condição de exportador de commodities estão entre os principais fatores

Data de publicação:06/04/2022 às 00:30 -
Atualizado 2 meses atrás
Compartilhe:
  • Facebook
  • Linkedin
  • Twitter Mais Retorno
  • Telegram Mais Retorno
  • WhatsApp Mais Retorno
  • Email Mais Retorno

O Brasil tem sido um dos principais beneficiários da movimentação dos ativos globais em tempos de guerra na Ucrânia. E com tendência de que continue nessa toada na etapa de rearrumação dos ativos no pós-guerra, na visão de gestores.

Tradicionalmente perdedores em momentos de estresse global, diz a Kinea Investimentos em sua Carta do Gestor de março, os ativos brasileiros têm tido bom desempenho relativo nesse período de incertezas e turbulência global.

Brasil
Ativos brasileiros têm tido bom desempenho no período de guerra, segundo a Kinea Investimentos - Foto: Getty Images/iStockphoto

Para os gestores da casa, três fatores estão por trás dessa performance favorável ao País: a condição de exportador de commodities, o avanço no ciclo de ajuste da política monetária e um relativo isolamento dos impactos negativos do conflito no Leste Europeu.

Além da alta de preços, aponta a carta, o conflito trouxe, como ponto positivo, a percepção da necessidade de investimentos em commodities, notadamente no setor de grãos, para garantir a segurança alimentar.

A carta destaca também que o País está em adiantado processo de elevação dos juros. A Kinea estima que o ciclo termine com mais um aumento de 1 ponto porcentual, com a Selic em 12,75% ao ano. Algo raro, cita a carta, dentre os países emergentes que traz de volta os juros brasileiros à posição de um dos mais altos do mundo.

A combinação de uma geografia com baixas expectativas, a proximidade do fim do ciclo de alta de juros e o impulso renovado em seu setor externo podem tornar-se um impulso poderoso para o retorno em ativos de risco. Um efeito já visto no comportamento da moeda e na performance relativa do mercado de ações brasileiro diante de seus pares, aponta a carta.

“Partindo de valuations ainda bastante descontadas, consideramos que esse processo possa ter longo caminho pela frente e permanecemos alocados na bolsa local e comprados no real”.

Kinea Investimentos, em carta aos investidores

Até risco político parece ser mais baixo no Brasil

A visão otimista com o futuro pós-guerra do País é compartilhada pela Carta Trimestral Multimercado Macro da Clave. Segundo a casa, a mudança no regime inflacionário global somada aos efeitos da guerra beneficiam os países exportadores de commodities, dentre os quais o Brasil.

Para a Clave, o País parece bem posicionado para o novo arranjo geopolítico que se desenha, com potencial para aumentar seu share na classe de emergentes. E vê também como positiva a percepção de que os riscos relacionados à eleição tendem a ser baixos, ou até positivos, à medida que se confirme o cenário de polarização consensual entre o ex-presidente Lula e o atual presidente Bolsonaro.

A casa atribui maior probabilidade à vitória do candidato petista e acredita em uma continuação do movimento positivo nos mercados, caso Lula mantenha a posição ao centro. Principalmente com a volta em maior número de investidores estrangeiros aos ativos brasileiros.

No geral, pelas condições de momento, a Clave considera o cenário para os ativos de risco bastante desafiador nos próximos meses. Um deles é a deterioração da inflação global, que exigiria forte elevação dos juros.

A invasão russa na Ucrânia causará mais inflação e menos crescimento, aponta a Carta. A guerra, para a gestora, é um choque clássico de oferta, com efeitos estagflacionários, ao exacerbar mais os problemas nas cadeias globais de produção.

A inflação gerada pelo choque de oferta global terá efeitos no Brasil. A desinflação esperada pelo mercado será mais lenta que o esperado, prevê a carta. O IPCA acumulado em 12 meses deve fazer novo pico acima de 11% em abril e permanecer acima de 10% pelo menos até junho.

As cartas das gestoras

Acompanhe o que pensam seis casas de investimentos sobre o cenário com componentes políticos e econômicos.

Kinea Investimentos

A carta da Kinea afirma que a gestora segue aumentando a exposição a ações domésticas, na B3, por causa da proximidade do fim do ciclo de alta dos juros, redução da inflação e situação fiscal melhor que o esperado. Empresas nos setores de infraestrutura, serviços, saúde, varejo, shoppings, elétricas, além de empresas de petróleo.

Posições em commodities, como petróleo, foram reduzidas em favor de exposição para ações globais do setor de energia. Além de posições em grãos, cobre, alumínio e ouro.

No plano internacional, a gestora segue posicionada para o aumento dos juros americanos. Os juros reais nos EUA, diz a carta, estão baixos para uma economia que deve chegar a uma taxa de desemprego próxima de 3% este ano.

Ibiuna

A Carta do Ibiuna destaca também a boa performance dos ativos brasileiros, tanto das ações quanto do real diante do dólar. Um movimento estimulado pela percepção dos investidores de que o Brasil será um dos principais beneficiados pelo rali global de commodities.

Em relação à mudança de comando na Petrobras, cita que as trocas continuadas causam ruído e testam a governança corporativa da empresa. Mas a gestora acredita na continuidade da política de preços e de manutenção de estratégia financeira, com expectativa de pagamento de mais de 30% de dividendos nos próximos seis meses.

O Ibiuna Equities FIC FIA, um fundo de ações, rendeu 5,60% em março. O destaque positivo em carteira foi o setor financeiro, com posição em Itaú, ITUB4.  Em ativos domésticos, a gestora diz continuar aumentando as posições em Ecorodovias (ECOR3).

O Ibiuna Hedge STH FIM entregou retorno de 5,31% em março, com estratégia em alta de juros globais e de valorização do real contra o dólar.

A aposta em juros globais está mantida, diz a carta. A gestora prevê a normalização da política monetária global por causa da alta da inflação e o atraso dos bancos centrais em reagir à pressão de preços.

Embora os ativos financeiros domésticos sigam mostrando resiliência diante das incertezas globais, a gestora se diz cautelosa, o que encoraja uma posição defensiva, com os fundamentos do País. A carta destaca duas preocupações: incerteza com a política fiscal e os ruídos políticos com o início da campanha eleitoral.

Ativa Investimentos

A Carta Macroeconômica da Ativa Investimentos acredita que a alta de mais 1 ponto porcentual na Selic, que marcaria o fim do ciclo de alta dos juros, não é suficiente para a convergência da inflação para a meta em 2023 e levaria a desancoragem das expectativas para 2024.

De acordo com a carta, o diferencial entre o juro brasileiro e o americano está em queda, sobretudo a partir das perspectivas de definição de um teto mais baixo para a Selic e elevação dos juros de curto prazo, dos Fed Funds, nos Estados Unidos.

Adam Capital

A carta da Adam Capital informa que pequenos ajustes foram feitos na carteira do Adam Macro II FIC FI Multi em março, o que colaborou com o bom desempenho dos fundos. O Adam Macro II segue com posições em Petrobras, Vale, em juros americanos (aposta na alta) e posições nas bolsas americanas e brasileira.

A carta reafirma que, “em tempos de guerra, os acontecimentos podem reverter as convicções de forma repentina. Do nosso lado estamos atentos, especialmente para as oportunidades”.

Occam Brasil

Em sua carta de março, a Occam Brasil destaca que segue acreditando que a bolsa brasileira deve continuar performando melhor que a de seus pares emergentes. E, por isso, a gestora voltou a aumentar a exposição ao Brasil.

A posição que passou por redução foi a externa, especialmente no setor de energia, após o forte desempenho no período. Bancos e ações de empresas de tecnologia seguem como destaque no fundo.

Em posições vendidas, a gestora reduziu as posições no setor doméstico, pois que continua otimista com as oportunidades de geração de valor.

Dynamo Cougar

Em sua carta Dynamo 113, sob o título 'Clima: o preço da Conquista', a gestora defende a ideia de que a questão climática estabelece a necessidade de uma transição global para a economia de baixo carbono. E que políticas públicas, preferências sociais e escolhas individuais já se movimentam nessa direção.

A jornada impõe alterações importantes na paisagem competitiva. As companhias enfrentam o desafio nada trivial de adaptação, com riscos materiais, mas o País tem uma posição competitiva privilegiada, com potencial de exercer protagonismo na (bio) economia do futuro.

O mercado de carbono, diz a carta, é um canal por onde essa riqueza se expressa. À medida que a precificação de carbono se alastra, aumenta o potencial de nossa oportunidade. Realidades complexas exigem respostas complexas.

Todas as iniciativas que orientam nessa direção são válidas. As estratégias mais promissoras devem contemplar as três dimensões dos sistemas que se interligam: clima, biodiversidade e social.

Sobre o autor
Tom Morooka
Colaborador do Portal Mais Retorno.